Tem sido um dos argumentos mais utilizados por internautas e movimentos negacionistas da pandemia: não só o teste usado para detetar o novo coronavírus é ineficiente, como o próprio criador do método — Kary Mullis — alertou para isso. A mensagem vê-se replicada em imagens com citações, partilhada em vídeos de entrevistas do cientista ou usada simplesmente como argumento em discussões nas caixas de comentários. Mas terá mesmo o criador do método de testagem PCR alertado para inutilidade do mesmo na deteção de vírus?

Tendo em conta que o argumento tem sido difundido de várias formas pela Internet — e como algumas são mais facilmente refutadas do que outras –, convém dividirmos estas partilhas em três: primeiro, o aviso de Kary Mullis relativo ao uso do teste PCR na pandemia da Covid-19; depois, a alegada citação de Mullis sobre a impossibilidade do teste PCR detetar vírus; e por último, uma entrevista em que Mullis afirma que o teste “não diz se a pessoa está doente ou que doença tem”.

Kary Mullis desaconselhou o uso do teste PCR para detetar o novo coronavírus?

Este é a partilha mais facilmente refutada e que acaba por não apresentar uma grande discussão. Alguns internautas, querendo referir as alegadas citações de Mullis de que o teste PCR não deteta “qualquer vírus”, acabaram por partilhar a teoria de que o cientista terá falado concretamente sobre a aplicação do teste na deteção do SARS-CoV-2, o novo coronavírus.

Essas afirmações são falsas e o motivo é simples: Kary Mullis faleceu na Califórnia a 7 de agosto de 2019, aos 74 anos de idade. Ou seja, morreu quase 5 meses antes de ter sido confirmado o primeiro caso de Covid-19, na altura ainda na província chinesa de Wuhan.

Desta forma, seria impossível que Kary Mullis tivesse falado sobre o novo coronavírus ou que tivesse desaconselhado o uso do teste PCR na deteção do vírus SARS-CoV-2. Mas… terá então falado sobre a impossibilidade do uso do teste na deteção de qualquer vírus, no geral?

Kary Mullis disse que o teste PCR “não consegue, de todo, detetar qualquer tipo de vírus”?

Tem sido esta a citação mais partilhada, atribuída ao bioquímico norte-americano. Estam, sim, com direito a aspas, quase sempre divulgada da mesma forma e até já traduzida em vários idiomas. O excerto original difundido, em inglês, diz “These tests cannot detect free, infectious viruses at all […] The tests can detect genetic sequences of viruses, but not viruses themselves”.

Traduzindo para português: “Estes testes não conseguem detetar vírus infecciosos livres, de todo […] Os testes podem detetar sequências genéticas de vírus, mas não os próprios vírus”. Sendo ou não correta do ponto de vista científico, a verdade é que a citação até está bem traduzida, mas… não pertence a Kary Mullis. 

De acordo com a Reuters, no seu serviço de fact-check, esta citação difundida e imputada a Kary Mullis pertence, na verdade, a John Lauritsen, um escritor e negacionista do vírus HIV, estando a frase presente no seu texto de 9 de dezembro de 1996, intitulado de “Has Provincetown Become Protease Town?”.

O texto pode ser consultado aqui e, como se pode ler no 21º parágrafo, o excerto que foi tornado viral é dito por Lauritsen e não por Mullis. É verdade que a certa altura desse parágrafo existe uma citação do cientista norte-americano, mas que engloba apenas a frase “Quantitative PCR is an oxymoron“, em português “PCR quantitativo é um oxímoro”. A restante interpretação que se segue à citação já é da autoria de John Lauritsen.

De qualquer forma, mesmo que o excerto partilhado fosse mesmo uma frase da autoria de Kary Mullis, estaria descontextualizada, tendo em conta que o texto em que se insere, de John Lautitsen, reflete sobre se o vírus HIV é ou não causador da SIDA, dúvida que Mullis também partilhava — como veremos mais à frente.

Assim sendo: trata-se de uma citação mal atribuída e descontextualizada. Não só é falso que Kary Mullis tenha dito ou escrito que os testes PCR não detetam vírus, como o excerto em questão, da autoria do escritor John Lauritsen, não se referia ao SARS-CoV-2, mas sim ao vírus HIV.

Fact Check. Testes PCR não fazem distinção entre os vários coronavírus?

Kary Mullis afirmou que os testes PCR “não dizem se uma pessoa está doente”?

12 de julho de 1997. Em Santa Mónica, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, Kary Mullis participa na palestra “Corporate Greed & AIDS”, um evento de discussão sobre mitos e realidades do vírus HIV e da SIDA, mas com clara visão negacionista do vírus. Prova disso é a forma como a doença foi apresentada no início da palestra: “A maior e mais financiada campanha de terror de relações públicas na história.”

Posto isto, o que faria Kary Mullis, um Prémio Nobel da Química, quatro anos antes, num evento como este? A resposta sempre foi pública por parte do bioquímico: Mullis negava que o vírus HIV fosse o agente causador da SIDA e era, ele próprio, um negacionista do efeito do vírus — bem como das alterações climáticas.

É precisamente neste evento, captado em vídeo e publicado na plataforma YouTube, que Kary Mullis dispara uma das frases mais partilhadas por movimentos negacionistas da Covid-19: “O teste PCR é apenas um processo que é usado para fazer muita coisa a partir de alguma coisa. Ele não diz à pessoa se ela está doente, nem diz se a coisa que a pessoa tem lhe pode fazer mal”.

De pronto, as redes sociais viralizaram a declaração de Mullis, partilhando assim como conclusão que o teste PCR seria inútil na deteção do vírus SARS-CoV-2 e da Covid-19. O movimento Médicos Pela Verdade Portugal foi um dos que partilhou o vídeo, tendo inclusivamente partilhado o excerto da afirmação no YouTube. As imagens e a declaração de Mullis são, por isso, verdadeiras. Mas o problema é outro.

Se a veracidade das imagens parece óbvia, não tão óbvia é a interpretação — errada — feita das palavras do criador do teste PCR pelos movimentos negacionistas da Covid-19. A declaração de Kary Mullis é descontextualizada e está a ser adaptada à atual pandemia, quando, na verdade, o cientista americano se referia à eficácia dos testes no contexto do HIV e da SIDA.

Qual a diferença? Toda. Quem o diz é Alexandre Quintas, professor no Instituto Universitário Egas Moniz, diretor do Laboratório de Ciências Forenses e Psicológicas da instituição e doutorado em Química Biológica. Ao Observador, o investigador explica que a eficácia e a forma como o teste PCR deteta vírus e doenças varia com o próprio mecanismo molecular de infeção dos vírus. E, nesse sentido, o HIV — sobre o qual Mullis falava — e o SARS-CoV-2 são totalmente diferentes: “No caso do HIV, o vírus insere-se no genoma da célula hospedeira. Por causa disto, quando se utiliza o teste RT-PCR e se amplifica o molde de DNA do RNA viral na célula humana, ficamos sem saber se a pessoa ficará ou não doente, mesmo que encontremos o vírus no DNA”, diz Alexandre Quintas.

Já no caso do novo coronavírus, a realidade é diferente: “No processo de infeção por SARS-CoV-2, não se dá integração do vírus no genoma do hospedeiro, o mecanismo molecular de infeção é mais simples. O vírus não incorpora o genoma das células, apenas utiliza a ‘maquinaria’ da célula para se reproduzir. Assim, quando se realiza o RT-PCR para se detetar o SARS-CoV-2, estamos a utilizar diretamente o vírus na amostra, contrariamente ao HIV, em que estamos a utilizar as células CD4 com o vírus incorporado no seu genoma”, complementa o investigador.

Ou seja, diz o professor Alexandre Quintas, “a utilização de técnica de RT-PCR na infeção por SARS-CoV-2 permite detetar a doença, enquanto o uso da mesma técnica na infeção por HIV — o contexto em que falava Mullis — só permite detetar a presença do vírus, mas não se a pessoa está doente”.

Conclusão

De várias formas, têm surgido incorreções ou manipulações das palavras de Kary Mullis, criador dos testes PCR. É claramente errado que o cientista americano tenha alertado para a ineficácia do método de testagem aplicado ao novo coronavírus, tendo em conta que Mullis morreu 5 meses antes do início da pandemia. É também errado que o Nobel da Química tenha dito que “estes testes não conseguem detetar vírus”, sendo essa frase, na verdade, da autoria do escritor John Lauritsen, num ensaio de 1996.

Quanto ao vídeo em que Kary Mullis surge a afirmar que “os testes PCR não dizem à pessoa se ela está doente”, há uma descontextualização: ainda que as declarações sejam verdadeiras e corretamente atribuídas a Kary Mullis, o seu conteúdo não deve ser associado à forma como os testes PCR detetam o SARS-CoV-2, mas sim ao uso do teste na deteção do vírus HIV e da SIDA. No evento do vídeo, o cientista falava sobre o uso dos testes aplicado à deteção do HIV — em relação à qual era cético –, num processo bem diferente do que acontece com o novo coronavírus.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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