Todos os dias, na primeira fase da pandemia (e, agora, várias vezes por semana), a Direção Geral de Saúde tem realizado conferências de imprensa com a presença da sua responsável máxima, Graça Freitas, para fazer um relato da situação do novo coronavírus em Portugal. Pelo meio, entre notícias e lapsos, surgem, por vezes, informações enganadoras. No passado dia 12 de outubro, surgiu uma publicação com a seguinte citação atribuída a Graça Freitas: “Não é uma fatalidade os idosos terem Covid e morrerem”. Trata-se, no entanto, de uma publicação enganadora que sugere uma desvalorização das mortes da população mais idosa e que não dá todo o contexto em que aquelas palavras foram proferidas.

Imagem viral que descontextualiza frase de Graça Freitas

A conferência de imprensa em questão decorreu no dia 18 de abril deste ano. Ou seja, apesar de a publicação ser recente, vende a informação como sendo ela própria atual, algo que não se verifica. Até porque, estando ainda em contexto de pandemia, os números relativos à doença continuam em constante alteração.

Já quanto ao post, é importante olhar para o que se diz no início: “Depois das escabrosas declarações da ministra Marta Temido, ‘enterram-se os mortos e tratam-se dos vivos’, segue-se a diretora da DGS, uma completa falta de respeito pela vida humana.” A frase atribuída à ministra da Saúde foi, de facto, dita por Marta Temido, mas durante uma entrevista à RTP3, conduzida pelo jornalista Vítor Gonçalves, em janeiro, deste ano, quando a pandemia ainda não tinha chegado a Portugal. Ou seja, não surgiu na mesma conferência de imprensa em que Graça Freitas terá falado sobre os idosos.

Olhando para o vídeo desse dia, é no minuto 14’ que a diretora da DGS se refere à situação da Covid nos idosos — proferindo as palavras referidas na publicação que dá origem a este fact check –, para prestar um esclarecimento relativo à mortalidade desta doença. Primeiro, Graça Freitas começa por dizer que, “em Portugal, a mortalidade por Covid-19 é considerada como o evento terminal”. Para isso, deu um exemplo: “Alguém que esteja muito mal, com uma doença neoplásica [um tumor], mesmo que venha a falecer dessa doença, se estiver infetada com o novo coronavírus, nós contamos como infeção.” Ou seja, o que conta para as autoridades de saúde portuguesas é a causa final de morte, e o número de óbitos causados pelo vírus corresponde ao “número de infetados à data da morte”, afirmou.

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Depois, Graça Freitas falou sobre a média de idades, que rondava, na altura, os 88.4 anos, sendo que o óbito mais novo tinha sido na casa dos 40 anos e o mais velho de uma pessoa com 102 anos. Também naquela data, maior parte dessas mortes ocorriam em hospitais, não existindo uma grande diferença entre sexos. No entanto, muitas das pessoas que morreram, sofriam de outras patologias, como cardiocerebrovasculares, respiratórias, renais ou oncológicas. E foi nesse momento que Graça Freitas se referiu aos idosos. “Não é uma fatalidade ser idoso, ter doenças e morrer por Covid. Mesmo entre idosos, a taxa de letalidade é relativamente baixa”, descreveu. E repetiu: “Não é uma fatalidade ser idoso ou ter doenças. Pode acontecer um óbito, mas não é obrigatório.”

Ou seja, desconhecendo todo o contexto, pode existir a possibilidade  de se considerar que Graça Freitas está a desprezar os óbitos dos mais idosos, tal como se verifica na publicação viral. No entanto, o que a diretora da DGS garante é que o facto de se ser idoso não é causa determinante para se morrer vítimas do novo coronavírus. Até porque, em abril, a taxa de letalidade (proporção entre número de mortes por uma doença e número de infetados) entre os idosos “era relativamente baixa”.  Segundo as estatísticas apresentadas naquela conferência de imprensa, esses óbitos devem-se também a outras complicações de saúde, sendo que, para contagem daquela instituição, mesmo existindo outras patologias, o que conta é o motivo para morte ser a infeção por Covid-19.

Conclusão

Graça Freitas disse, de facto, que “não é uma fatalidade os idosos terem Covid-19 e morrerem”. Mas a publicação viral optou por não dar todo o contexto, tornando a informação enganadora. Primeiro, porque a diretora da DGS disse, sim, aquela frase, mas em abril deste ano e não agora. Depois, porque quis esclarecer a comunicação social — e os portugueses em geral — sobre qual a situação dos óbitos em Portugal. À data, a média de idades situava-se nos 88.4 anos. Porém, as pessoas que morreram por causa do novo coronavírus padeciam de outras patologias, que vão das oncológicas às renais. Ou seja, ser idoso não era — e não é — característica única para se morrer do vírus. Até porque, nessa altura, a taxa de letalidade nos mais idosos era relativamente baixa.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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