No passado dia 14 de dezembro, um tiroteio numa das praias mais conhecidas da Austrália — a praia de Bondi — fez 15 mortes. Os atiradores eram pai e filho, que dispararam durante as celebrações judaicas do Hannukah.

O ataque levou a uma série de declarações de vários líderes internacionais, entre as quais Marcelo Rebelo de Sousa, que condenaram um ato “hediondo de antissemitismo” e “terrorismo”.

As notícias mais recentes fazem saber que, depois do ataque, foram detidas sete pessoas em Sydney, suspeitas de terem uma “ligação ideológica” aos dois atiradores, que cometeram o ataque de dia 14 de dezembro.

Um dos momentos mais marcantes deste ataque que aconteceu na manhã de domingo foi um vídeo — que acabou por ser divulgado nas redes sociais — que mostra um homem, Ahmed el Ahmed, a desarmar um dos atiradores.

Identificado o homem filmado a desarmar atirador de Bondi Beach. Dono de frutaria de 43 anos está a ser operado devido a ferimentos de bala

O nome de Ahmed el Ahmed rapidamente correu o mundo. O homem, que tem dois filhos, é dono de uma frutaria em Sutherland Shire, a cerca de 40 quilómetros de Bondi Beach. Foi baleado enquanto desarmava um dos atiradores e foi operado no hospital.

Ao jornal britânico The Guardian, um familiar revelou que o homem, de origem síria, imigrou para a Austrália em 2006, tendo atualmente cidadania australiana.

E, agora, surgem várias publicações a questionar a religião de Ahmed el Ahmed, apesar da sua origem. Será “cristão maronita libanês”, como alegam vários internautas?

Publicação no Facebook sobre o homem que desarmou um dos atiradores na praia de Bondi, na Austrália. Facebook

Publicação no Facebook sobre o homem que desarmou um dos atiradores na praia de Bondi, na Austrália.

Primeiro, apesar de a revista Time ter alguns artigos dedicados a Ahmed el Ahmed, não tem nenhuma capa a considerá-lo “a pessoa do ano”. E, segundo, sem ser estas alegações nas redes sociais, não existe qualquer informação que comprove que Ahmed é cristão.

Aliás, muito pelo contrário. O seu país natal é a Síria, um país onde a esmagadora maioria dos cidadãos são muçulmanos (sunitas ou xiitas) e apenas 7,4% são cristãos (dados de 2013, por causa da guerra que destruiu o país).

E a família de Ahmed el Ahmed, que falou com dezenas de meios de comunicação, já veio admitir que o dono da frutaria em Sydney é, como seria de prever, muçulmano. O primo, Mohammad al-Ahmed, falou com a Reuters, para desejar que o heroísmo do familiar “prove ao mundo que os muçulmanos são pacificadores, não belicistas”.

Uma das visitas que Ahmed el Ahmed recebeu enquanto estava a receber tratamento hospitalar foi a de Lubaba Alhmidi AlKahil, diretora de comunicação da Associação Australianos pela Síria. Além de elogiar Ahmed como um “super herói”, defendeu também a religião muçulmana, admitindo que muitas vezes, quando existem ataques ou tiroteios, as comunidades muçulmanas temem ser associadas a esses atos de violência.

“Mas a nossa religião é uma religião de paz e nós somos um povo muito pacífico. Isto prova isso.” Ou seja, defendendo que as ações de Ahmed el Ahmed trazem uma luz mais positiva para a religião muçulmana e quem a pratica.

E a discussão revela-se “irrelevante”. Quem o diz é o diretor do Colégio Islamico de Brisbane, na Austrália, num artigo de opinião na ABC. Insiste que “o que importa não é o quão perfeitamente a sua identidade se encaixa numa narrativa política ou ideológica, mas o que as suas ações nos dizem sobre quem podemos ser quando o medo não tem a última palavra”.

Conclusão

A lista de declarações que associam Ahmed el Ahmed à religião muçulmana são variadas, e partilhadas por quem o conhece melhor: a sua família. E além de publicações nas redes sociais, não há nenhuma informação fidedigna que permita concluir que Ahmed el Ahmed é, na verdade, cristão.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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