O leite é frequentemente alvo das posições mais extremadas, daqueles que dizem que não podemos viver sem ele aos que afirmam que é a causa de grande parte das nossas doenças. Dos que afirmam que é essencial para os ossos aos que afirmam que, “na verdade, rouba o cálcio dos ossos”, como tem sido disseminado no Facebook. A realidade, no entanto, não se aproxima de nenhum dos extremos.

O leite é essencial para a saúde óssea das crianças e jovens e, quando ingerido nesta fase da vida, para a saúde óssea na idade adulta, segundo o artigo publicado na Food & Nutrition Research. Se se tiver em conta o consumo só na idade adulta não se pode afirmar o mesmo, mas também não se pode afirmar o contrário. Ou seja, se não há prova que beber leite evite, por exemplo, a osteoporose, também não há prova de que seja a causa do seu aparecimento ou agravamento.

“O leite de vaca é rico em cálcio, mas não é fonte de cálcio”, afirma a publicação. Na verdade, o leite é uma das melhores fontes de cálcio e de outros nutrientes que temos à nossa disposição. Não só tem uma grande quantidade de cálcio, como é facilmente absorvido pelo organismo. O cálcio também está presente em alguns produtos hortícolas, mas é muito mais difícil para nós, humanos, sem estômagos especializados em digerir plantas, conseguirmos torná-lo disponível para absorção.

O argumento de que o leite é ácido e que, por isso, rouba o cálcio dos ossos também não tem justificação porque, para começar, o pH do leite é neutro ou ligeiramente ácido (qualquer coisa entre 6 e 7) — menos ácido, por exemplo, do que um café e muito menos ácido que um refrigerante. Mais. Esta afirmação em nada explica sobre como é que a acidez de um alimento pode interferir com o cálcio dos ossos, até porque o nosso organismo tem mecanismos para manter o pH do sangue e dos fluídos equilibrados — independentemente do tipo de alimentos que estamos a ingerir, explicou ao Observador Nuno Borges, professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, em 2018.

Quando a publicação feita no Facebook justifica que “os países que mais consomem este produto [o leite] são líderes em osteoporose, osteopenia [perda de massa óssea] e fratura do quadril [como a fratura da cabeça do fémur]”, omite que é também nestes países, os mais desenvolvidos, que se encontram os maiores fatores de risco para a osteoporose: obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo e falta de vitamina D (por falta de exposição solar). Beber leite não é sequer elencado como um fator de risco.

Corrigir a falta de vitamina D, essencial para a absorção do cálcio, e fazer exercício físico são os dois fatores que mais contribuem para a melhoria da saúde óssea.

A publicação no Facebook na íntegra

Na publicação que aqui escrutinamos é também indicada uma extensa lista de alegados contaminantes do leite: “O leite de vaca é rico em: antibióticos, pesticidas, hormonas, dioxinas (cancerígeno), bactérias (líderes em contaminação), sangue e pus, alumínio (demência, Parkinson, …), solvente de limpeza, substâncias radioativas, vírus da leucemia bovina”, afirma a publicação.

Uma afirmação derrubada pelo veterinário João Niza Ribeiro, que ao Observador revela uma realidade bem diferente: “Existe atualmente uma cadeia de controlo muito forte do prado ao prato, obrigatória pela legislação e em vigor em todos os países da Europa”. São abrangidos por esta legislação todas as etapas do leite: quando sai da exploração, quando entra e sai da fábrica e até quando já está no supermercado. Ora vejamos:

Bactérias e vírus

Quem consumir leite diretamente da vaca pode correr o risco de estar a ingerir um produto contaminado com microorganismos. Mas as bactérias e vírus morrem quando são aquecidos a altas temperaturas, seja quando o leite é fervido em casa ou quando é sujeito a processos de pasteurização (e ultrapasteurização) nas fábricas.

Especificamente sobre o vírus da leucemia bovina, João Niza Ribeiro diz que é considerado erradicado em Portugal. Além disso, “foi demonstrado, na década de oitenta, que este vírus é inócuo para os humanos“, acrescenta o professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto. “Não é um problema para a saúde pública.”

Sangue e pus

João Niza Ribeiro explica que as vacas podem desenvolver infeções nas glândulas mamárias (mastite) e que o leite pode ficar contaminado. Ditam as boas práticas que esse leite deve ser rejeitado, mas mesmo que não seja, o processo de pasteurização destrói as bactérias e o leite passa a ser seguro para o consumo.

Para evitar, mesmo assim, que este leite contaminado chegue às fábricas, são feitos testes nos locais de produção que permitem perceber se alguma das vacas sofria de mastite (infeção mamária) e descartar o leite se for caso disso. Este é o caso da Europa e dos países com controlos apertados na produção.

Antibióticos e hormonas

Mais uma vez são as análises realizadas ao leite que permitem perceber se há contaminação ou não, porque se houver vestígios destes tipos de produtos, o leite tem de ser destruído. Na Europa existe “uma legislação que estabelece todos os níveis máximos de resíduos e de contaminantes admitidos para todos os possíveis contaminantes e resíduos”, explica João Niza Ribeiro. “Os lotes de leite e lacticínios que os excedam são destruídos.”

Outros contaminantes

Na Europa procuram-se sinais de dioxinas na manteiga ou na gordura do leite e, regra geral, os resultados são negativos — ou seja, não estão presentes. “Houve notícias de controlos positivos, mas isso foi notícia precisamente porque levou à destruição dos lotes contaminados”, conta o professor do ICBAS.

“As autoridades não brincam com esses problemas e atuam”, afirma João Niza Ribeiro.

O alumínio não é um problema na Europa, porque a maioria da indústria leiteira usa materiais de aço inoxidável, afirma o veterinário. Já em relação aos produtos de limpeza, têm de estar licenciados para o uso na indústria dos laticínios. “Quando estão presentes em quantidades inadequadas, são detetados no sistema controlo e o leite é rejeitado.”

A radioatividade também é fácil de medir. Pode acontecer quando os animais se alimentam de produtos contaminados com elementos radioativos, como aconteceu depois da explosão da central nuclear de Chernobil, na Ucrânia. Se for detetada radioatividade no leite, este não é autorizado para consumo, diz João Niza Ribeiro. “Atualmente não há registo de problemas dessa natureza na Europa.”

O veterinário não tem dúvidas que, na Europa, “o setor do leite e dos laticínios é dos mais controlados e higiénicos que há”. A desinformação que circula na internet, afirma este especialista, pode ter origem em locais com controlos menos apertados, como na Argentina, Brasil ou China, por exemplo.

Conclusão

O leite não é um alimento obrigatório para adultos, desde que consigam obter os nutrientes que precisam noutros alimentos, mas não se pode negar que é uma boa fonte de cálcio, pela quantidade que tem e por ser fácil de absorver. A ideia de que retira cálcio aos ossos é, por isso, falsa.

Nos países europeus e noutros locais onde as regras de produção e a fiscalização estejam bem estabelecidas, o risco de encontrar contaminantes no leite é mínima. A publicação no Facebook socorre-se de problemas pontuais ou situações específicas em certos países para fazer uma generalização errada e alarmista que não contribui para a boa informação dos leitores.

De acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

Errado

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

IFCN Badge