Não é a primeira vez que surge nas redes sociais a acusação de que já existiriam testes para a Covid-19 a ser comprados, por vários países, em 2017 ou 2018, bem antes da identificação do novo coronavírus (Sars-Cov-2), que dá origem à doença Covid-19. A Associated Press foi uma das agências a desmentir esses boatos e, mais recentemente, o próprio Banco Mundial — que é citado nas publicações como fonte da informação — nega a existência de testes à Covid-19 “antes de 2020”.

No Facebook, o utilizador acusa o Governo português de ter cancelado “milhões de consultas e cirurgias, matando milhões de cidadãos e levando muitos outros ao suicídio com a destruição da economia”, garantindo a existência de “testes Covid comprados em 2019”. O autor do post diz que é isso mesmo que “comprova um documento do Banco Mundial”. Mas, o que responde o Banco Mundial? Há algum documento que suporte a afirmação?

Publicação no Facebook que afirma que o Governo português comprou testes para a Covid-10 em 2018

A questão central está na categorização feita aos vários dispositivos, reagentes e produtos que são atualmente utilizados para o combate à Covid-19, do gel desinfetante que passou a fazer parte do quotidiano de todos, aos reagentes usados nos testes laboratoriais. É claro que já se sabia da existência de gel desinfetante, que não foi criado para responder à pandemia, ainda que seja agora utilizado em grande escala pela população. Um recurso que foi, por isso, catalogado como um dos instrumentos para responder à Covid-19. Se isso significa que foi criado para esse efeito específico? Não. O mesmo aconteceu com os testes.

Mesmo antes da Covid-19, os reagentes agora utilizados já existiam e estavam catalogados/rotulados com termos técnicos, por exemplo “reagentes; reagentes de diagnóstico ou de laboratório em qualquer suporte, e reagentes de diagnóstico ou de laboratório preparados, mesmo apresentados num suporte, exceto os da posição nº 3002 ou 3006”, esclarece o Banco Mundial, num comunicado entretanto emitido para combater a desinformação que circula.

E o que aconteceu depois de se terem desenvolvidos os testes para a Covid-19, em janeiro em 2020, foi a sua integração em algumas das classificações já existentes. Só em março a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial das Alfândegas (OMA) publicaram uma lista com os principais produtos relacionados com o combate à Covid-19, para que possam mais facilmente ser rastreados. E nessa lista é possível encontrar ventiladores ou gel desinfetante para as mãos. Mais uma vez, nada de novo que tenha sido criado para a Covid-19.

E considerando a propagação à escala mundial da Covid-19, que submergiu o mundo numa pandemia, foi criado um banco de dados que utilizava a lista da Organização Mundial das Alfândegas (OMA) e os novos rótulos criados pela OMS/OMA. O objetivo era apenas facilitar o acesso à informação sobre os principais dispositivos/recursos à disposição relacionados com a Covid-19 e foi aí que surgiu a ideia de que vários estados tinham, já em 2017 e em 2018, adquirido testes para a Covid-19. O que aconteceu foi apenas que, aquando da criação dos testes, já em 2020, foram utilizadas categorizações que já existiam para outros recursos médicos.

O próprio Banco Mundial atualizou já essa categorização, para terminar com as interpretações erradas, tendo criado agora uma categoria de “kit de teste Covid-19” para os testes que foram desenvolvidos em específico para diagnosticar a presença do novo coronavírus, Sars-Cov-2.

Conclusão

É falso que Portugal, ou outro país, tivessem em 2017 ou 2018 — conforme indica a publicação — comprado testes para a Covid-19. Trata-se de uma interpretação errada, tendo por base a categorização feita pelas autoridades para classificar os recursos médicos e científicos à disposição da comunidade para fazer face à pandemia da Covid-19. O próprio Banco Mundial emitiu já um comunicado onde esclarece que a interpretação que está a ser feita é errada, e procedeu à criação de uma nova categoria específica “kit de teste Covid-19” para terminar com o mal entendido. Dizer que Portugal já tinha comprado em 2018 os testes para a Covid (que só foram desenvolvidos em 2020) é o mesmo que dizer que Portugal já tinha comprado gel desinfetante anti-Covid há cinco anos. O gel já existia, não era utilizado com essa função. Os testes desenvolvidos em 2020 para a Covid-19 foram inseridos na mesma categoria de outros testes já existentes, o que não significa que existissem antes de 2020 e que vários países os tivessem comprado.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

IFCN Badge