O objetivo da publicação, que já foi partilhada mais de três mil vezes no Facebook, é simples: criar uma relação de proximidade entre as ideias defendidas por Adolf Hitler, o ditador nazi alemão responsável pelo genocídio de milhões de judeus durante o Holocausto, e as posições de Donald Trump, presidente dos EUA, e Jair Bolsonaro, presidente do Brasil. Como? Através de uma imagem, partilhada nas redes sociais em várias línguas, com a fotografia de Hitler, Trump e Bolsonaro. A cada um deles é atribuída uma frase. “Os judeus não são pessoas, são animais”, é a frase atribuída a Hitler. “Os imigrantes ilegais não são pessoas, são animais”, é a citação atribuída ao presidente norte-americano. E, por último, a Bolsonaro atribui-se a autoria da frase: “Os índios não são pessoas, são animais.”

Mas as frases foram mesmo ditas? Na Alemanha Nazi, eram várias as formas insultuosas usadas para classificar e rebaixar o povo judeu. O termo “untermensch”, que significa sub-humano, servia para descrever todos os que não pertencessem à raça ariana, considerada pelos nazis como superior a todas as outras. Os sub-humanos eram, na ideologia nazi, os judeus, os polacos, os ciganos, os sérvios, entre outros. “Ratazanas” era outra das formas de Hitler se referir aos judeus. Fosse qual fosse o adjetivo usado pelo ditador alemão e outros dirigentes nazis, o espírito era sempre o mesmo: referir-se aos judeus como um povo inferior.

Foi também isso que Trump e Bolsonaro disseram referindo-se a imigrantes e índios? No caso do presidente norte-americano, atribuir-lhe a frase em questão é enganador, já que está retirada de contexto e não corresponde exatamente ao que foi dito. No entanto, Trump usou, de facto, aquele adjetivo para se referir a uma parte dos imigrantes ilegais e mais do que uma vez. Já no caso brasileiro, a afirmação é totalmente falsa, embora sejam conhecidas outras afirmações racistas de Bolsonaro dirigidas aos povos indígenas.

A publicação tem mais de três mil partilhas

A 17 de maio de 2018, durante um encontro na Casa Branca com republicanos da Califórnia, Donald Trump atirou a frase que abriria a polémica no país e que fez correr muita tinta na imprensa. “Há imensas pessoas a entrar no país ou a tentar entrar — e estamos a travar muitas delas — e a expulsá-las do país. É incrível como estas pessoas são más. Não são pessoas, são animais. E estamos a expulsá-las a um nível e a um ritmo como nunca antes aconteceu.”

As palavras do presidente dos EUA foram proferidas na sequência dos elogios que recebia de dirigentes republicanos sobre as suas políticas de imigração e que, ao mesmo tempo, se queixavam da lei da Califórnia, por tornar mais difícil deportar criminosos. Em concreto, referiam-se a membros do gangue MS-13, fundado nos anos 1980 por imigrantes da América Central, e conhecidos por praticar crimes brutais.

E é durante um curto diálogo com a xerife Margaret Mims, do condado de Fresno, quando ela fala especificamente sobre este gangue, que Trump lhe responde. Na altura, os defensores de Trump sublinharam que o adjetivo foi usado pelo presidente para se referir a criminosos que, por acaso, são também imigrantes ilegais. Analisado o diálogo na sua totalidade, é bastante claro que Trump se refere aos membros do MS-13 e não aos imigrantes em geral, como o próprio viria a esclarecer mais à frente a um jornalista do New York Times.

Apesar disso, os insultos de Trump a imigrantes e criminosos não são novidade. Em 2015, durante uma entrevista ao The Washington Post, usou a palavra animal por duas vezes para se referir a um imigrante clandestino detido por suspeitas de ter assassinado uma mulher em São Francisco (o homem acabou por ser considerado inocente). O mesmo aconteceu quando falou de Sayfullo Saipov, do Uzbequistão, que, em outubro de 2017, atropelou com um camião ciclistas e peões em Nova Iorque, matando várias pessoas.

Mais recentemente, em julho deste ano, Donald Trump fez comentários racistas acerca de quatro congressistas, dizendo às quatro mulheres, através do Twitter, para voltarem para os seus países, apesar de todas serem norte-americanas e três delas terem nascido nos Estados Unidos.

A Jair Bolsonaro, tal como a Donald Trump, também é conhecido um longo rol de declarações racistas, homofóbicas e machistas. E também não faltam frases polémicas sobre os povos indígenas brasileiros. Apesar disso, a frase em concreto não foi dita pelo presidente. Por mais do que uma vez, o que Bolsonaro fez foi comparar índios que vivem em reservas com animais em cativeiro.

“O índio não pode continuar sendo preso dentro de um área demarcada como se fosse um animal dentro de um zoológico…”, disse Bolsonaro, no início de novembro de 2018, já depois de eleito presidente, mas ainda antes da tomada de posse.

Na altura, deixava claro que o seu governo iria ser contra novas demarcações de territórios indígenas durante uma entrevista à rede Bandeirantes. “As reservas foram superdimensionadas. O que pretendo, se houver amparo legal, é que, como o índio é um ser humano igual a nós, ele quer evoluir, ter energia elétrica, médico, dentista, internet, jogar um futebol, ter um carro, quer viajar de avião, porque ele, quando tem contacto com a civilização, ele rapidamente vai se moldando à nova maneira de viver, que é bem diferente e melhor do que a dele.”

Dias mais tarde, repetiu a mesma ideia, quando comentava o Acordo de Paris e a pressão externa que o país sofre para aumentar o número de reservas indígenas. “Em todos os acordos no passado, sempre notei uma pressão externa no tocante a cada vez mais demarcar terra para índio, demarcar reservas ambientais. Na Bolívia, tem um índio que é presidente. Por que no Brasil devemos mantê-los reclusos em reservas como se fossem animais em zoológicos? O índio é um ser humano igual a nós.”

Há 20 anos, quando Bolsonaro era ainda deputado, disse uma frase que os povos indígenas não esquecem e que é relembrada sempre que a simpatia de Bolsonaro (ou falta dela) pelos índios é tema de discussão. “Pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana, que exterminou os índios”, disse então Jair Bolsonaro, um depoimento dado ao Correio Braziliense, a 12 Abril de 1998.

Conclusão:

Embora possam ser atribuídas muitas citações racistas tanto a Donald Trump como a Jair Bolsonaro, as duas em causa nunca foram proferidas ipsis verbis ou no sentido alegado pelos presidentes norte-americano e brasileiro.

No caso de Donald Trump, a frase mais semelhante que foi, de facto, dita pelo chefe de Estado referia-se a imigrantes ilegais criminosos e não a todos os imigrantes em geral. No caso de Jair Bolsonaro, o que foi feita foi uma comparação entre índios a viver em reservas e animais em cativeiro.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.