Os últimos tempos não têm sido particularmente fáceis para nenhum de nós. As empresas foram de repente forçadas a reinventar-se e permitir novas formas de trabalho. Socialmente, os ecrãs tornaram-se uma extensão de nós próprios; fazemos desde festas de aniversário online, a refeições com os amigos e até saídas virtuais.

Estamos a deixar a tecnologia tomar conta de muitos aspetos das nossas vidas porque vemos aí uma forma de continuarmos a trabalhar e a estarmos conectados, é inevitável. E em pouco tempo transportámo-nos para um futuro dominado pelo uso excessivo de tecnologia.

Este era um cenário de futuro anunciado há algum tempo para o qual caminhávamos a passos lentos, sobretudo pelo desafio da mudança. Mas o salto forçado dos últimos meses tem sido tão desafiante como fascinante: evoluímos mais do que nos últimos 10 anos ao nível tecnológico e de re-skilling e fizemo-lo de forma tolerante, colaborativa e humana.

Esta semana experienciei duas situações tão banais e ao mesmo tempo tão incríveis, pelo simples facto de serem impossíveis de acontecer há 3 meses. Uma chamada para um banco e para um hospital, atendidas com o mesmo nível de serviço e profissionalismo de sempre, mas com um operador claramente constrangido pelos barulhos da vida em família que agora compatibiliza com a sua atividade profissional.

Este cenário contrasta com conversas que tive, algumas com os mesmos gestores, que há 6 meses se orgulhavam de ter implementado trabalho remoto para grávidas, considerando a medida altamente progressista (um primeiro passo mas uma política ainda muito atrás do que se viu ser possível e que já vinha sendo implementado em empresas como é o caso das tecnológicas). Mas há muitos mais exemplos deste passado recente: planos de contingência que previam que perante uma situação em que o escritório não estivesse acessível se poderiam desempenhar as funções noutro local, mas não em teletrabalho; decisões adiadas de iniciativas de transformação digital por resistência à mudança; impossibilidade de trabalhar em casa por políticas internas ou incompatibilidade com o uso de sistemas na cloud.

E, de repente, ultrapassaram-se as inúmeras limitações tecnológicas, de acessos, de uso de ferramentas novas. O IT aprendeu a encontrar as soluções necessárias, os processos de decisão ficaram mais ágeis e o ceticismo deu lugar à colaboração numa tentativa de se encontrar uma saída para se manterem as empresas a operar e adaptarem-se a uma nova realidade.

O Covid foi não só o maior impulsionador da transformação digital nas nossas empresas, mas também do “re-skilling” ou requalificação de competências de que há anos falamos. Sem avisos e não distinguindo profissões, era tão difícil explicar a um gestor que trabalho remoto era possível (mesmo no caso de um banco ou um hospital) quanto a um professor que tinha de desempenhar as suas funções atrás de um computador.

Para além da agilidade que foi necessária para fazer isto acontecer em tempo record, o mais fascinante tem sido a colaboração e o quebrar de barreiras que se conseguiu em tão pouco tempo. Somos hoje, por força das circunstâncias, gestores, colaboradores e profissionais mais tolerantes, mais humanos e mais colaborativos. E tal como as previsões indicavam, a tecnologia veio mudar a forma como desempenhamos muitas atividades, mas veio também dotar-nos de ferramentas e fazer emergir características fundamentais nos humanos para desenhar o futuro.

Cristina Fonseca é investidora e empreendedora tecnológica. É actualmente Venture Partner da Indico Capital Partners (o primeiro fundo de Venture Capital early-stage em Portugal) e co-fundou a startup Talkdesk (uma plataforma que permite a empresas criarem o seu call center na cloud). Engenheira de formação, foi reconhecida pela Forbes como “30 under 30”. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Dalian (China).