Alphabet (empresa mãe da Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft  —  estas são as cinco maiores empresas do mundo cotadas em bolsa. Os produtos dos gigantes tecnológicos têm beneficiado os consumidores que já não sabem viver sem a barra de procura da Google, o iPhone, o WhatsApp ou o feed de notícias do Facebook.

Estas empresas recolhem e utilizam quantidades massivas de dados dos seus utilizadores (como por exemplo dados de utilização, preferências e hábitos, localização, relações pessoais e contactos com essas pessoas) para melhorar os seus produtos e trabalhar nas próximas inovações tecnológicas. Os dados são o factor limitativo da revolução tecnológica pela qual estamos a passar: a Inteligência Artificial, os carros autónomos, e até a cura de doenças como o cancro  —  todos estes campos do conhecimento e as promessas de melhorarem as nossas vidas, são dependentes de grandes quantidades de dados.

Mas porque é que os dados são assim tão importantes? Porquê as discussões sobre “os dados serem o novo petróleo”? Os dados são o que permite às empresas eliminar as restrições que limitam os negócios de hoje e do futuro.

Vamos perceber esta restrição usando  a teoria das restrições , que considera que a preocupação com qualquer outra coisa que não a restrição ou limite de um sistema é uma perda de recursos. Num exemplo prático muito simples: se uma empresa tiver um produto superior à concorrência, mas que ninguém conheça, melhorar o produto não o ajudará a vender mais. A única solução é aumentar a visibilidade do produto/investir em marketing de produto para aumentar as vendas.

Ora, o mesmo paradigma pode ajudar-nos a perceber como é que as empresas tecnológicas funcionam e porque é que os dados são, de facto, a nova e mais valiosa moeda da economia digital. Numa semana em que as discussões sobre o escândalo de recolha e uso dos dados de clientes do Facebook e a discussão sobre o acidente em que esteve envolvido um carro autónomo da Uber, podemos analisar estes dois casos à luz da mesma teoria.

O Facebook obtém mais de 95% das suas receitas da publicidade que nos é apresentada na nossa timeline. É sabido que a empresa atingiu a saturação em relação ao limite de anúncios que nos pode mostrar, e a única forma de aumentar as receitas será melhorar a performance de cada um destes anúncios. Como é que isto se faz? Ao mostrar exatamente o que queremos ver, e como consequência aumentar os cliques em cada um destes anúncios. Sendo este o factor limitativo, como é que se ultrapassa? Recolhendo mais dados sobre os utilizadores para poder conhecê-los melhor e desta forma mostrar-lhes os anúncios mais adequados e relevantes. Ora, obviamente que a rede social focar-se em algo que não seja captar mais dados não fará mover o ponteiro das receitas da gigante.

Um exercício semelhante pode ser feito para o caso do carro autónomo da Uber que, na semana passada, atropelou fatalmente uma mulher no Arizona. Obviamente que o caso trouxe à discussão uma série de tópicos, nomeadamente a questão sobre se a tecnologia estará pronta para substituir os humanos na condução. Os carros são treinados com algoritmos que aprendem com os dados que vão sendo recolhidos nas imensas de viagens de teste que se realizam. A esta altura a tecnologia não está pronta para ser usada num cenário real porque há ainda muitos casos que não estão cobertos por estes testes e a tecnologia ainda não “viu” e aprendeu com cenários suficientes. Mais uma vez, o factor que limita a tecnologia são os dados (ou a falta deles), daí a sua importância. Para o projecto ter sucesso e a tecnologia chegar ao mercado, estas empresas terão de se focar em resolver o factor limitativo :  a recolha de dados.

Estes são só alguns exemplos de como os dados são a moeda mais valiosa das próximas décadas. E daí resulta uma série de questões  —  esta recolha de dados é na maioria dos casos feita sem conhecimento do utilizador final que acaba por gerar e ceder esses dados  —  é esta uma abordagem justa e sustentável? Esses dados podem ser usados para nosso benefício, mas também em prol de interesses económicos com os quais não estamos alinhados, porque no final do dia são de valor inegável e há quem pague por eles  —  onde estão os limites desta nova actividade económica? Com que outros desafios, para além do RGPD (o Regulamento Geral de Protecção de Dados que entra em vigor em Maio e que tem como objetivo certificar que o direito dos cidadãos à proteção de dados pessoais se mantém efetivo na era digital) se irão as empresas deparar numa tentativa de regular ou controlar a propriedades destes dados que muitas vezes facultamos às empresas sem nos apercebermos?

Cristina Fonseca tem 30 anos, é investidora e empreendedora tecnológica e co-fundadora da startup Talkdesk, uma plataforma que permite a empresas criarem o seu call center na cloud. Engenheira de formação, foi reconhecida pela Forbes como “30 under 30”. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Dalian (China).

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre o ecossistema empreendedor. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.