Em Janeiro de 2023 escrevi um artigo sobre Inteligência Artificial Geral (IAG) e os riscos para o “meio ambiente” jurídico.

Desde então, as evoluções tecnológicas e as mudanças comportamentais foram manifestamente menos intensas do que aquelas que os gurus propalavam (que o público se tenha dado conta). Claro está que a análise ínsita nesse artigo foi anterior à carta aberta de vários desses “´sábios” clamando por um stand – still nunca inferior a seis meses no desenvolvimento da IA. Desconhece-se se tal declaração teve efeito e se será por isso que a mudança fundamental não se fez sentir nas suas mais radicais consequências.

Convém, por isso, fazermos um ponto de situação do que estamos verdadeiramente a falar quando se menciona a IAG.

Não estaremos a falar de uma arquitectura que nos ajuda a fazer cálculos matemáticos com maior eficiência.

Não estaremos a debater uma máquina que analisa uma base de dados e cataloga respostas já existentes a uma determinada questão.

Também não estaremos a analisar um instrumento de reconhecimento de voz humana e que nos dá respostas de viva-voz, mais ou menos completas, mais ou menos verdadeiras ou mais ou menos individualizadas.

Não estaremos também a debater um modelo de software que nos oferece respostas a questões ainda não respondidas, com base em cálculos estatísticos já bastante aprofundados – quase igual ao que acontece no nosso próprio processo racional.

Nós estaremos a debater a influência de uma IAG autónoma que faz tudo o que eu enumerei acima, mas que mimetiza a nossa forma de raciocinar, que verdadeiramente pensa como nós, como se fosse um de nós, mas – e agora muita atenção – com muito maior rapidez, acedendo instantaneamente a todo o conhecimento do mundo (com muito mais certeza) e de forma incansável.

Ou seja, estamos a falar de uma inteligência que reunirá – para cada utilizador individualmente considerado – o conhecimento e a capacidade…. da Humanidade inteira. Chamam a isto a IAGeral.

Para que se perceba, a IAG que quase está já disponível é como se cada um de nós participasse numa corrida de Formular Um a nível global, todos com o mesmo carro e configurações e … com o mesmo melhor condutor do mundo. Não haverá um mais rápido, mais conhecedor ou mais experiente do que o outro. Seremos todos o melhor piloto do mundo ao volante do melhor carro.

Recentemente, nas redes sociais “girou” um vídeo IA no qual o que parece um clone IA de Sam Altman o CEO da Open Aí, criadora do GPT, dizia que o Chat GPT 3 era como falar com um aluno do secundário, com o Chat GPT 4 era como falar com um aluno universitário. E com o lançamento do Chat GPT 5 será como falar com um verdadeiro expert de nível de PhD, pronto a ajudar e a fazer com profundidade qualquer coisa que o utilizador deseje fazer. Sam Altman chama-lhe justamente um superpower on demand (um superpoder disponível “a pedido”).

Para além disso, a IAG será uma entidade racional que pensa por si e que pode não concordar connosco e que pode achar que nós somos (como inevitavelmente seremos) um incómodo por sermos demasiado imperfeitos e limitados.

Estamos a falar de verdadeira inteligência, autónoma do utilizador, muito mais capaz do que qualquer pessoa com a qual interaja, e … com vontade própria.

Mais do que saber utilizar a IA o nosso desafio será não sermos utilizados pela IA.

Todo o empregador e todo o trabalhador terá imediato acesso à maior inteligência do mundo, suportada por informação confirmada e verificada e completada por argumentação insofismável.

Já nem se trata de ter informação jurídica completa, fiável e actual. Trata-se de se poder ter uma análise intensa, profunda e imediata das tendências jurisprudênciais (e das decisões dos organismos reguladores administrativos) relativamente a um qualquer litígio ou questão jurídica-laboral que envolva uma tomada de posição de trabalhador ou entidade patronal – acabam-se em grande medida as dinâmicas “negociais” e /ou as imponderabilidades que permitem ou bullying patronal ou abuso do trabalhador – se não há dúvidas (salvo pelo factor “tempo para uma decisão”, se já se estima com altíssimo grau de certeza o resultado, então não vai haver negociação – ou seja, a questão sob análise ou nem começa ou acaba logo).

E isto em todos os aspectos da vida humana.

O nosso desafio será (é!), contudo, tentar evitar que a IA nos tire fora do processo…

Estaremos precisamente no próximo congresso Labour 2030 a debater estas questões, no painel sob o tema “The Impact of AI”, do qual serei o moderador.