Em primeiro lugar, tem surgido a questão principal de saber por que se assiste precisamente agora a esta intervenção de fundo no Irão. Ou seja, o que mudou recentemente, para fazer com que tenha havido urgência em uma ação militar agora, algo que não aconteceu em 50 anos de regime dos Ayatolas.

O Irão revolucionário

Parece-me que os EUA (e Israel) viram neste momento um alvo de oportunidade que decidiram aproveitar.

Explico:

O Irão é maioritariamente xiita, uma tendência do Islão de cariz mais radical, violento e bélico, que se distingue dos seus vizinhos sunitas (Arábia Saudita e demais Estados do Conselho do Golfo, por exemplo).

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) é quem verdadeiramente manda no Irão, com a milícia paramilitar Basij. Tem sido esta última, com a IRGC, a perseguir e a eliminar toda a oposição interna, bem como qualquer veleidade de mudança. Nos últimos tempos, tem-se assistido no Irão à maior repressão de sempre contra as manifestações pró-democracia.

O Irão revolucionário tem sido o impulsionador de terrorismo internacional na região, declaradamente elegendo Israel como inimigo confesso e jurando a destruição total desse Estado e do seu povo. Tanto assim, que a produção de armamento nuclear foi sendo descrita, ao longo dos anos, como visando a sua aplicação prática em Israel. O Irão revolucionário, é alias, o único Estado que, querendo obter armamento nuclear, confessa que o faz, não como instrumento dissuasor visando a sua defesa nacional, mas, sim, como uma arma de aplicação real, intencional e não provocada, contra Israel e os judeus. E também contra os interesses americanos na região e no mundo – a expressão o Grande Satã foi cunhada pelo Irão revolucionário contra os EUA.

Ora, o Irão, com vastas reservas petrolíferas e de LNG (Gás Natural Liquefeito) e com um território maior que a Alemanha, Ucrânia e Polónia juntas e com cerca de 92 milhões de habitantes, é um líder natural da região.

Essa liderança foi utilizada para financiar e preparar grupos terroristas internacionais para atacar Israel e desestabilizar o Médio Oriente, nomeadamente interferindo com os governos do Líbano e da Síria. Com as consequências que se viram…

Por todas as medidas, o regime dos Ayatolas no Irão revolucionário é, sem exagero, o verdadeiro “mau da fita”: Sem desculpas nem atenuações.

Até muito recentemente, o Irão, através da sua posição geográfica, conseguia efetivamente controlar as exportações de crude, de LNG e de fertilizantes, para o mundo inteiro através do Estreito de Ormuz. E, embora, ultimamente, o comércio mundial desses produtos por aquele local se tenha reduzido a 5%, ainda assim é vital para os mercados principalmente do Sudeste Asiático e China.

O acima ajuda a explicar a razão pela qual nenhuma outra grande campanha militar foi levada a cabo contra o Irão revolucionário em quase 50 anos de regime agressivo.

Um alvo de oportunidade

Porquê agora?

Parece que Israel e os EUA terão acreditado que a capacidade retaliatória do Irão revolucionário haveria decrescido, em resultado das recentes acções de Israel contra o Hamas e contra o Hezbollah, grupos “Proxy” (mandatados fantoches) do Irão revolucionário. Parece que se terá acreditado que os mercados mundiais iriam descontar uma eventual reacção do Irão revolucionário a limitar o tráfego no Estreito de Ormuz, dado que é já diminuta a sua importância relativa e que, uma campanha aérea conjunta EUA-Israel iria enfraquecer decisivamente a força militar do Irão revolucionário.

Acresce que aparentemente havia informações relativamente à existência de cerca de 400 kg de urânio enriquecido, capaz de ser utilizado para bombas nucleares “sujas” (do género da “Fat Boy” que, ainda assim, liquidou mais de 75 mil pessoas em Hiroshima). Importava recuperar esse urânio enriquecido e impedir sua utilização futura.

E depois?

A campanha militar foi seguramente um êxito e terá incapacitado militarmente muitíssimo o Irão revolucionário.

O que não retirou foi a capacidade psicológica do Irão revolucionário ameaçar e concretizar um fecho da navegação marítima no Estreito de Ormuz. Os mercados reagiram e a potência hegemónica americana tremeu. E, não esquecer que não se recuperou o urânio enriquecido, e que o mesmo permanece ainda nas mãos de um regime que, mais fraco é certo, mas resultou seguramente mais vingativo, após as mortes de pessoas chave que foram levadas a cabo.

Acresce mais um fator crítico: de um lado está um Estado opressivo e ditatorial. Do outro, estão 2 Estados democráticos, com instituições de controlo políticas (parlamentos) e judiciais que verdadeiramente funcionam e condicionam as tomadas de decisão.

Em democracia, é muito difícil fazer guerra e, é mesmo muito difícil aplicar tropas no terreno, com mais elevado risco de fatalidades e “bad press”. Parece que o “deployment” de tropas no terreno seria a única hipótese de recuperar a liberdade de navegação naqueles mares e de tentar a recuperação do urânio. Na TACO Tuesday (como lhe chamam já), Trump terá achado que

  • ou i) não tinha ainda tropas suficientes para assegurar o resultado pretendido no mínimo espaço de tempo,
  • ou ii) não quer, de todo, escalar para uma intervenção terrestre pondo em risco a eleição intercalar para as Câmaras.

É que as intervenções terrestres, sabe-se como começam, mas não se sabe quando acabam. E o povo americano rejeita mais “forever wars”.

A ver vamos se haverá cessar-fogo perene. Eu não apostaria muito nisso….