Para a esquerda brasileira, o que está em jogo nas eleições de 2018 não é somente o preenchimento dos cargos em disputa. Mais do que a escolha do novo presidente, governadores dos estados e representantes das casas legislativas, é imperativo para os autoproclamados progressistas manterem vivo seu projeto de poder. A viragem do eleitorado à direita, estampada nos resultados da primeira volta, põe fim a um ciclo.

Foram quase três décadas de hegemonia. Durante esse tempo, alternaram-se no poder políticos situados do mesmo lado esquerdo do espectro ideológico, variando apenas no grau de radicalismo. A Constituição Federal de 1988 foi pródiga em pavimentar o terreno para que o pensamento de esquerda pudesse tornar-se sinónimo de instituições democráticas. Criou um Estado providência gigantesco, generoso no oferecimento de garantias e direitos, sem, no entanto, preocupar-se com quem pagaria a conta. Era fatal: um dia a conta chegaria. E veio na forma da mais grave crise da história brasileira.

Responsável direto pela catástrofe política e econômica que deteriora o tecido social brasileiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula da Silva (encarcerado) assiste incrédulo ao seu ocaso. Principal bastião da esquerda brasileira, o PT está atualmente muito aquém do protagonismo que exerceu nos anos 1990, quando atuou decisivamente no reordenamento político do país e projetou-se para o centro do poder nacional. Nesse processo, Lula da Silva agiu como o demiurgo que fundiu as bandeiras do partido com o culto à sua personalidade, o lulopetismo.

Mas agora o rei está nu. Caíram por terra as narrativas produzidas sob medida para cobrir as suas vergonhas. Já não há o que possa esconder a incompetência administrativa e a corrupção pantagruélica do partido dos trabalhadores. Por mais que se esforce, o PT não consegue mais mascarar o seu legado, que de farsa converteu-se em tragédia.

Quem não se lembra de 2014, quando Lula da Silva destilou seu usual ódio aos adversários, acusar o candidato da social-democracia, Aécio Neves, de atacar Rousseff “como faziam os nazistas durante a II Guerra Mundial”?

A participação do PT na disputa presidencial de 2018 começou com uma farsa e assim seguirá até ao fim. Nada diferente daquilo que sempre fez. A reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, é o maior exemplo de “estelionato eleitoral” da história brasileira. A destrambelhada presidente foi reconduzida ao cargo depois de ter apresentando ao eleitor um país das maravilhas, que existia apenas na sua campanha milionária, financiada com dinheiro desviado da Petrobras. Só não admite quem está comprometido com o projeto totalitário do PT. Mas, desta vez, a estratégia falhou.

Qualificar os adversários de fascistas, nazistas, racistas, misóginos e outros adjetivos que encontram morada no medo e na ignorância já não surte o mesmo efeito em 2018. De alcance limitado, serve apenas para estumar a claque amestrada. Quem não se lembra de 2014, quando Lula da Silva destilou seu usual ódio aos adversários, acusar o candidato da social-democracia, Aécio Neves, de atacar Rousseff “como faziam os nazistas durante a II Guerra Mundial”?

A propagandeada formação de uma frente democrática, que aglutinasse as forças de centro-esquerda para disputar a segunda volta contra Bolsonaro, não passou de erro de avaliação – mais um, por parte da campanha de Fernando Haddad. Poucos são os que ainda acreditam na retórica petista.

A verdade é que o lulopetismo encarna todos os pecados que imputa aos adversários, porém num grau absolutamente superior. Eficiente em seu propósito, o embuste engana até a opinião pública internacional. O delírio de poder manifesto nas repetidas tentativas de solapar a democracia no Brasil – via aparelhamento das instituições, esvaziamento dos poderes da República, entre outras – nada mais é que a representação de uma tendência totalitária. Para o lulopetismo, não existe sociedade fora do Estado-partido.

O PT pode até conquistar o poder pelo voto popular. Mas, uma vez no controle do Estado, sua genética marxista-leninista o impele a dominar todo o corpo social. O seu apetite revolucionário rapidamente vira a sociedade de ponta-cabeça. Os governos petistas passam então a tentar tutelar a economia, a aparelhar a imprensa, a universidade, as organizações não governamentais e tudo o mais que possa servir seu projeto de poder total. Contudo, neste 2018 a fábrica de mentiras petista parece ter entrado em bancarrota.

O gigante moribundo

A propagandeada formação de uma frente democrática, que aglutinasse as forças de centro-esquerda para disputar a segunda volta contra Bolsonaro, não passou de erro de avaliação – mais um, por parte da campanha de Fernando Haddad. Poucos são os que ainda acreditam na retórica petista. Classificada por ela de “direita neoliberal” (coube ao PT o papel de organizador da posição dos players no debate político nos últimos 30 anos), a social-democracia fez o que se esperava dela, manteve-se neutra. No entanto, deixar de tomar lado na disputa mais polarizada da história é, no mínimo, aceitar o rótulo de cúmplice ou de cobarde.

Para além das declarações ambíguas de Fernando Henrique Cardoso, seu PSDB enfrenta a pior crise interna da história e terá de se reinventar. Geraldo Alckmin, com 4,76% dos votos, não tem mais força ou prestígio para manter o partido em suas mãos. Sempre hesitante e fraco em sua oposição ao lulopetismo, o PSDB saiu menor da disputa e terá muita dificuldade para se posicionar em um jogo político que, tudo indica, terá Bolsonaro no papel de Príncipe.

Marina Silva nunca se recuperou do ataque torpe baseado em mentiras que destruiu sua candidatura em 2014, meticulosamente planeado e executado pela campanha de Rousseff. Incapaz de satisfazer o ímpeto antipetista exigido pela disputa neste 2018, a ambientalista recolheu-se a sua diminuta importância depois do humilhante 1% dos votos. Talvez reapareça daqui a quatro anos para lamentar o leite derramado. Ela sempre faz isso.

Sabotado desde o primeiro momento por Lula da Silva em suas pretensões a ser eleito presidente do Brasil (e esta não foi a primeira vez), Ciro Gomes preferiu acompanhar da Europa o desfecho das eleições. Longe do olho do furacão, assistiu ao seu irmão Cid Gomes, senador eleito pelo Ceará, lançar a pá de cal que faltava sobre a candidatura de Fernando Haddad.

As críticas de Cid Gomes ao PT não foram um gesto de altruísmo. Antes, fazem parte do cálculo político de quem joga defendendo os próprios interesses. Velhos aliados do lulopetismo – ele e Ciro Gomes foram ministros nos governos petistas –, aproveitaram o estado pré-falimentar do partido para posicionar a sua máquina política. Surfando na crista da onda da “terceira via”, Ciro se prepara para ocupar o espaço recém-aberto no campo da centro-esquerda pelo encolhimento de PT e PSDB. Em 2022, o “cangaciro” se apresentará forte para a disputa.

Tantas vezes soberano no controle das alavancas do jogo político, o PT se vê isolado, a contar apenas com o apoio de seus satélites radicais, cuja irrelevância eleitoral é manifesta no risível desempenho de Guilherme Boulos do PSol: 0,58% dos votos. O fiasco retumbante do lulopetismo prenuncia um longo inverno para a esquerda brasileira.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, o fim da contribuição sindical, aprovado ano passado, já faz estragos na miríade dos quase 17 mil sindicatos existentes no país. (O Brasil é o paraíso sindical. Lula da Silva fez escola).

Devido à pequenez de suas bancadas parlamentares, partidos historicamente aliados ao PT deixarão de ter acesso ao milionário fundo partidário e ao tempo de propaganda no rádio e na televisão. É o caso do PCdoB da candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Haddad, partido que falhou em obter desempenho eleitoral suficiente para atender à cláusula de barreira. Da mesma forma, a Rede de Marina Silva terá de fundir-se a outra legenda para não desidratar, inevitável destino dos partidos a que faltam mandatos e dinheiro para fazer política.

Mas, como nada é tão ruim que não possa piorar, o fim da contribuição sindical, aprovado ano passado, já faz estragos na miríade dos quase 17 mil sindicatos existentes no país. (O Brasil é o paraíso sindical. Lula da Silva fez escola). Aqueles que não conseguirem operar sem os milhões de reais retirados compulsoriamente ao trabalhador – e livremente disponibilizados a sindicalistas militantes partidários – tenderão a desaparecer.

Na mesma toada, muitas organizações não governamentais (ONGs) certamente enfrentarão uma prolongada seca de recursos, historicamente drenados para as suas contas via emendas parlamentares ao orçamento da União. No Brasil do lulopetismo, poucos políticos não dispõem de uma ONG para prestar serviço social e promover suas reputações na esteira de seu desprendido voluntarismo.

Da bolha existencial na qual se nutre de arrogância e prepotência, o PT é incapaz de fazer a autocrítica reclamada por Cid Gomes. Pelo contrário, “não dá para o PT pedir desculpas porque [o PT] venceu”, tripudiou a presidente do partido, Gleisi Hoffmann

Já o PT não terá como se desvencilhar da imagem desgastada, impressa em cores vivas no imaginário dos eleitores, por escândalos de corrupção e a mais severa recessão da história recente do país. Os valores do cidadão comum foram completamente ignorados por seus governos progressistas, gestados e apoiados pela classe “bem-pensante” de intelectuais e artistas.

Da bolha existencial na qual se nutre de arrogância e prepotência, o PT é incapaz de fazer a autocrítica reclamada por Cid Gomes. Pelo contrário, “não dá para o PT pedir desculpas porque [o PT] venceu”, tripudiou a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, senadora, recém rebaixada a deputada federal – por saber que não obteria votos suficientes para se reeleger. Para manter o foro privilegiado, os cínicos submetem-se a qualquer constrangimento.

O PT é o escorpião da fábula. Em condições normais, ninguém acredita num partido que sempre agiu de forma antidemocrática e vocacionada para o crime. O cinismo da campanha de Fernando Haddad apenas expõe as vísceras de um partido que sangra em praça pública. Mesmo desmascarado, o PT insiste no equívoco, e assim expõe a sua militância e os seus eleitores (os que ainda guardam o mínimo de dignidade) ao constrangimento.

É praticamente certo. Melancolicamente, o lulopetismo desaparecerá da política brasileira com a vitória do seu mais perfeito antípoda, em 28 de outubro. Contudo, a depender do que vier a ser revelado pela delação premiada de Antonio Palocci, cujo julgamento ocorrerá a apenas quatro dias da votação, o PT, de maior partido da América Latina, poderá entrar para a história como uma das principais organizações criminosas do continente.

Para o líder petista, encarcerado e que um dia se comparou a Jesus Cristo “condenado à morte sem provas”, ficam as palavras do magnífico Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza…”

Jornalista e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem mundial.