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As eleições brasileiras trouxeram um vento de guerra ideológica a Portugal. Guerra amena, a nível da classe política – esmagadoramente pêtista ou sem vontade de se dissociar do pensamento dominante, com uma maioria de esquerda e uma minoria de neutros, indecisos e não comprometidos. Guerra entre todo um tolerante exército e um tenebroso candidato fascista, totalmente isolado mas armado até aos dentes.  Totalmente isolado porque, a crer nas reportagens da televisão portuguesa, todos os entrevistados estão contra ele e não há manifestação em que não se grite “ele não”. Armado até aos dentes porque carrega todo o arsenal bélico que a palavra “fascista” implica.

Para o combater, só mesmo um luso abaixo-assinado, apelando à unidade anti-fascista dos eleitores brasileiros. Foi o que destemidamente fizeram centena e meia de personalidades portuguesas. Porque se bem que, sempre segundo a comunicação social portuguesa, todos estejam contra Bolsonaro, parece que sempre há cinquenta milhões de incautos eleitores brasileiros que votaram nele, que inexplicavelmente votaram nele, cedendo a múltiplas e infames manipulações e ignorando o perigo iminente do fascismo.

Porque se Bolsonaro é “fascista” e de “extrema-direita”, já Haddad não é “comunista” nem da “extrema-esquerda”. É um académico moderado, que passou incólume e honestíssimo por entre os pingos da chuva, enquanto os seus companheiros do PT montavam os mecanismos de saque.

Quanto ao abaixo-assinado, não me vou alongar muito mais em comentários agrestes (por ser amigo de alguns dos signatários), mas não posso deixar de notar o quê de arrogância ou até de neo-colonialismo por detrás da iniciativa: ter nomes representativos da ex-pátria-mãe a recomendar aos cidadãos da ex-colónia e actual país irmão o voto em determinado partido não será muito democrático. A atenuante é que o documento não deve produzir grande efeito.

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Por boas e más razões, não me parece que Jair Bolsonaro seja fascista, a não ser se considerarmos “fascista” sinónimo de “mau”: mau rapaz, má pessoa, desumano, cruel, criatura que podia ter sido porta-bandeira de Átila, familiar da Inquisição, guarda de Auschwitz, sicário de Anastácio Somoza. É com este sofisticado rigor que parte dos media, dos intelectuais e das personalidades preocupadas com o que vai pelo mundo, classifica de “perigo para a democracia” tudo o que saia da vulgata, sem procurar identificar a raiz dos problemas.

É tentar esvaziar o mar com um balde, porque é de um incontornável fenómeno de rejeição popular que se trata.

Politicamente, admite-se um leque que vai de direitas e centros liberais e internacionalistas até às extremas-esquerdas das “causas fracturantes”. Desde que não saiam destas baias, que monopolizam a respeitabilidade democrática, tudo se admite – dos bilionários da informática aos saudosos do trotskismo ressuscitado, dos eternos devotos do rigorosamente ao centro, aos originais que vêem nos beijos dos netos aos avós um caminho para personalidades autoritárias.

Na realidade, o que acontece desde o Brexit britânico de Junho de 2016 é um movimento de contestação ao sistema instalado. Um sistema que reduziu a política a uma criada de servir da economia; que desindustrializou a Europa e os Estados Unidos; que baniu os valores nacionais e familiares, tidos como símbolos de guerra e de opressão. Como esse mesmo sistema foi incapaz de integrar a agenda político-social crítica de globalizações e migrações descontroladas, de violência consentida e de micro-causas peregrinas, o mercado político extravasou para os tais líderes populares (ou populistas), vindos não se sabe bem de onde, mas fora dos cânones da respeitabilidade burguesa e partidária. E capazes, até por isso, de encarnar a cólera dos cidadãos desesperados com a corrupção, a hipocrisia e a falta de alternativa do sistema.

As grandes convulsões e revoluções resultam sempre de uma incapacidade de os regimes reconhecerem os seus erros e vazios e de se reformarem e regenerarem em conformidade. As grandes revoluções – e contra-revoluções – nasceram precisamente desse desvio da representação política em relação à realidade social, do facto de os modelos políticos deixarem de responder ou corresponder aos anseios sociais.

Foi assim com a Revolução Francesa que, como escreveu um historiador, “quando aconteceu já ninguém em França acreditava que Luís XVI fosse rei de França pela graça de Deus”, a começar pelo próprio Luís XVI…

A Rússia czarista também não resistiu ao impacto da guerra que acelerou um processo que vinha de trás. Assim, a autocracia dos Romanov caiu do modo que caiu e deu lugar ao que deu lançando, com o bolchevismo, uma ameaça sobre toda a Europa.

Foi esse real e iminente perigo comunista, a par da Grande Guerra e da destruição do “mundo de ontem” (de que falava Stephan Zweig), que foi decisivo para o fim das sociedades constitucionais liberais no Sul e Centro da Europa e para desencadear regimes anti-liberais, dos fascismos aos nacionalismos autoritários e às ditaduras militares.

Este contexto histórico dos fascismos não costuma ser referido. Os fascistas e os fascismos aparecem do nada, como produto da conspiração de elites tenebrosas e aventureiros e condottieri sem escrúpulos. Por ignorância ou por malícia, oculta-se sempre a origem das coisas. Em Portugal, por exemplo, fala-se da Ditadura Militar e de Salazar, omitindo a violência da Primeira República e a ditadura informal, mas real, do Partido Democrático.

Voltemos ao Brasil e à eleição presidencial: o fenómeno Bolsonaro não é só mas é também a rejeição de um mecanismo de poder e corrupção montado pelo PT em mais de uma década de governo, sob uma retórica generosa e igualitária. É também um “basta” das classes médias e populares, ameaçadas na sua segurança e exploradas pelo Partido dos explorados que se transformam em exploradores.

Há uma mudança de paradigma. Desta vez não é a ameaça da revolução e da ditadura comunista, mas são os efeitos perversos da globalização; é o descontrolo das migrações culturalmente diversas; é o terrorismo; é a imposição da contracultura agressiva das minorias. Contra estas coisas, as nações, as sociedades, as famílias, revoltam-se e defendem-se. Com soluções às vezes de excepção e que podem pôr em questão os fundamentos ideológicos e institucionais vigentes. Mas é precisamente o fracasso do que está, a incapacidade do modelo político de responder ao presente, que leva o povo a buscar alternativas onde as há.