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Ambiente

«A Amazônia é do Brasil, não é de vocês!» e o velho navegante perdido no Atlântico

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180

Como se explica a invisibilidade da ameaça ambiental em paragens com governos amigos de esquerda, alguns deles recordistas em atropelos ambientais, como a China ou grandes partes de África?

No café da manhã oferecido pela presidência do Brasil à imprensa estrangeira, Jair Bolsonaro não hesitou na resposta a um jornalista: «Primeiro, vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês!» (10min e 20s). A frontalidade revela um saudável confronto entre o patriotismo e o globalismo.

Na conversa dominada pelas parcerias económicas do Brasil, quase passa despercebida a intervenção de Marta Moreira, a representante de Portugal no encontro. A jornalista da Lusa começou por colocar uma questão de esquerda sobre a mobilidade na CPLP e, apenas depois, sobre a relação de Portugal com o Brasil de Jair Bolsonaro recebendo deste uma resposta cordial, lacónica e evasiva (31min e 57s), isto é, mais de seis meses após a tomada de posse do atual presidente do Brasil, governo e diplomacia portugueses não foram capazes de colocar nada de relevante na agenda de Brasília.

A situação indicia o naufrágio da proteção dos interesses portugueses num mundo em que os circuitos económicos mais dinâmicos sofrem uma transformação estrutural na sua orientação política e diplomática, uma tendência que se consolidará. Em ciclos de transformação histórica, o peso das boas relações entre governos e povos torna-se ainda mais decisivo, com a agravante dos governantes em ascensão se revelarem cada dia menos condescendentes face à verborreia esquerdista-progressista.

Portugal segue em velocidade de cruzeiro na direção contrária também por causa da harmonia entre o governo das esquerdas (PS apoiado pelo BE e PCP) e o presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa faz coro na incapacidade de lidar com o princípio da realidade, no caso de um mundo que rompe com os resquícios soviéticos da Guerra Fria. O resultado está no afunilamento da imagem externa de Portugal no ideário anacrónico das esquerdas.

Constituindo a Ásia-Pacífico hoje o coração económico do mundo, no que ainda sobra de relevância estratégica do Atlântico se juntarmos os EUA, de Donald Trump (2017), o Brasil, de Jair Bolsonaro (2019), e o Reino Unido, de Boris Johnson (2019) – todos com perspetivas de continuidade –, e ainda o que mudará na Venezuela, os portugueses estão a receber uma herança política pesadíssima para o futuro do seu país, e sem paralelo no passado.

Os sinais não enganam. Se já era preocupante o presidente da República ter falhado na confirmação da visita de Donald Trump a Portugal, a oposição do Bloco de Esquerda à simples preparação da visita de Jair Bolsonaro garante o agravamento dos problemas na próxima legislatura. Preferindo furtar-se a incómodos pré-eleitorais à custa do sacrifício dos interesses estratégicos portugueses, o Governo Socialista não se demarcou da hostilidade do BE tratando a preparação da visita como especulativa, sem salvaguardar sem tibiezas a honra de um chefe de estado predisposto a visitar um país amigo.

Certas vozes críticas já se fazem ouvir. Convidar Jair Bolsonaro com tal reserva mental – a imprensa do regime não disfarça – não ilude a firme predisposição gerada no interior do governo de instigar todo o tipo de protestos aquando da presença de um chefe de estado que esse mesmo governo convida. A verdade é que os portugueses não são inocentes no marasmo antipatriótico em que o seu país se afunda.

Retomando o início do texto, no café da manhã a imprensa internacional não desperdiçou a oportunidade de revelar o muito que a comunicação social do Ocidente tem feito para colar a Amazónia a uma imagem negativa do Brasil, como se os riscos de desmatamento tivessem nascido no governo de Jair Bolsonaro. Fazem-no não para que se busquem estratégias racionais, negociadas, justas e sustentáveis no tempo para o mundo enfrentar os desafios ambientais, mas para atacarem a dignidade e legitimidade de um governo que não lhes pede licença para ser de direita.

O ambiente é, inclusive, um campo do debate cívico intelectualmente infantilizado sobre o qual se espraiam tentações de pedofilia política, a transformação de crianças e jovens em testas-de-ferro da insanidade mental de certos adultos. É o que sobressai da ostentação pública de Greta Thunberg, caso radical de órgãos de soberania, instituições e progenitores que promovem iniciativas que descartam o dever de proteção da dignidade inocente dos mais novos.

Para enquadrar o que está em causa, entre 1945 e 1991 a URSS impôs-se no sistema internacional beneficiando de enormes vantagens políticas, territoriais, geoestratégicas, económicas ou culturais não porque os soviéticos tivessem proporcionado ao mundo quaisquer progressos civilizacionais – em domínios como a liberdade, democracia, justiça, ciência, tecnologia, economia, música, cinema ou outros –, mas apenas porque, à exceção dos norte-americanos, conseguiram o monopólio do controlo do altamente dissuasor armamento atómico ou termonuclear.

Acontece que a Guerra Fria passou à história, assim como mudou o conteúdo dos eternos receios do fim do mundo, sendo que o núcleo transitou da ameaça nuclear (século XX) para a ameaça ambiental (século XXI). Paradoxalmente, Jair Bolsonaro ficará a dever aos seus adversários – os que mantêm vivos os ideais soviéticos – a abertura de portas para fazer do seu país uma das primeiras superpotências ambientais da história, e justamente por causa da Amazónia, o novo tipo de arma estratégica dissuasora no sistema internacional.

Sem colocar em causa as preocupações ambientais do Brasil, todavia se a Europa e o Ocidente estão de facto preocupados com os equilíbrios ambientais do planeta – e devem estar! – podem e devem transformar essa sua preocupação numa ambição moral propriamente dita que apenas existe quando se passa das palavras a ações. Está, portanto, em causa um desafio moral no seu sentido estrito, o de agir por vontade própria visando o bem comum, o que no caso da Amazónia nem sequer impõe novos encargos ao Ocidente, humanos, financeiros ou de outra natureza. Os decisores políticos estão, por isso, confrontados com uma escolha moral pura e dura.

Quem investe como investe em instituições sem responsabilidade moral ao apoiar organismos e programas da ONU e de Organizações Não Governamentais cujos resultados, no último meio século, originaram disfuncionalidades sempre agravadas nas sociedades e economias mais frágeis das regiões periféricas, como têm feito os governos do Ocidente sem exceções, dispõe de margem de manobra de sobra para alocar parte desses mesmos recursos humanos e financeiros onde eles hoje se justificam, tendo em conta que a nova ordem mundial se organiza a partir do primado da proteção dos equilíbrios ambientais.

Importa sublinhar que a moral dos estados apenas existe se implicar custos quantificáveis e beneficiários identificáveis, os povos, e cujos resultados resistam à passagem das gerações. É por essa razão que os recursos financeiros públicos resultantes da cobrança de impostos são legítimos por serem direcionados para a saúde, educação, assistência social, justiça, obras públicas, defesa e segurança das populações, sendo tempo de integrar a proteção ambiental no núcleo duro da ideia de estado.

Se as pressões internacionais são legítimas, não é menos legítimo que o governo do Brasil quantifique o rendimento económico que, em cada ano, obteria com a exploração racional da floresta da Amazónia. Em troca, os países de facto interessados na preservação dessa reserva natural podem e devem estar predispostos a compensar financeiramente o Brasil por não explorar recursos que são em exclusivo seus. O eventual entendimento pode ainda contemplar programas específicos de reposição dos desmatamentos das últimas décadas. Além disso, esse programa pode servir de modelo para intervenções idênticas em África.

Não existem razões para o que está em causa na Amazónia não poder ser objetivamente identificado, territorialmente delimitado e quantificado em termos financeiros para poder ser traduzido sem ambiguidades em compromissos entre o Brasil e poderes nacionais ou supranacionais estrangeiros, por exemplo, a UE, EUA, Austrália, Nova Zelândia ou Israel.

Num mundo em que os países se consideram iguais na sua autorresponsabilidade, este tipo de iniciativas não deve ter subjacente qualquer ideia de caridade de um grupo de países ricos em relação a um país menos rico, como acontece com os protocolos liderados pela ONU. Os últimos foram arrastados para vícios ideológicos e políticos que alimentam o pior do parasitismo burocrático, os especialistas em sugar financeiramente certos países sem nada resolver de concreto e de auto-sustentável no tempo. A via pode passar por acordos bilaterais ou multilaterais entre países capazes de estabelecer relações de confiança mútuas entre visando propósitos circunscritos e objetivos, e assentes em contratos económicos no sentido estrito do termo que apenas se distingam dos contratos de exploração de outros recursos estratégicos, como petróleo e gás natural, por serem sustentados em razões morais favoráveis aos destinos da humanidade.

Também como quaisquer contratos dessa natureza, as decisões internas são da estrita competência de cada país no âmbito da sua soberania.

Como sublinha Jair Bolsonaro, o resto é do domínio da psicose ambiental até porque a erosão dos recursos naturais da Amazónia não é para amanhã. Há ainda a garantia da psicose ambiental desaparecer assim que a esquerda eventualmente regresse ao governo do Brasil, e sem que nada de substantivo se altere. É o mesmo princípio que explica a invisibilidade da ameaça ambiental em paragens com governos amigos de esquerda, alguns deles recordistas em atropelos ambientais, como a China no seu território e o que fez em África onde fez desaparecer, em poucas décadas, partes substanciais das florestas daquele continente.

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