O PS é hoje uma entidade metafísica. Vaporosa. Quase religiosa. O Partido existe para ganhar eleições, distribuir moralidades em conferências de imprensa e posar com gravidade institucional, mas no preciso momento em que explode mais um escândalo, evapora-se num fino nevoeiro jurídico. O partido desaparece enquanto entidade e passam a restar apenas “casos individuais”. A culpa é sempre de funcionários e membros e nunca do PS. É só coincidência que todos sejam membros do PS? Sublime.
Se um presidente de junta rouba galinhas em Trás-os-Montes, o homem é imediatamente “ligado à cultura do partido”. Mas quando aparecem décadas de boys, ajustes directos obscenos em Lisboa, portas rotativas entre Mafra e a capital, favores cruzados, amiguismo endémico, negócios entre marido e mulher, governantes investigados, dinheiro em estantes, ajustes directos, secretários de Estado caídos do céu em administrações públicas e uma sucessão tão constante de “situações infelizes” que já parecem modalidade olímpica, aí não! Aí o partido não tem rigorosamente nada que ver com o assunto e culpa, é dos outros.
O Partido Socialista transformou a irresponsabilidade numa arte barroca. Quando José Sócrates afundou um país inteiro e nos lançou às mãos da troika, disseram-nos que era um homem só, a culpa não era do PS. Uma espécie de meteoro ético independente que por acaso chegou ao topo do PS, governou Portugal durante anos, alegadamente roubou o que quis, controlou o aparelho, escolheu ministros, moldou carreiras e dominou o partido. Aparentemente fê-lo sem qualquer relação orgânica com o próprio PS. Extraordinário fenómeno paranormal.
Depois veio António Costa, outro azar cósmico. Mais um indivíduo isolado, que se viu acidentalmente no centro do poder socialista como uma cegonha administrativa enviada pelo destino. Mais uma vez, o partido nada sabia, nada via, nada ouvia. O PS, coitado, é cego, surdo e mudo. Aparece sempre na fotografia como uma dama aristocrática do Eça, abanando o leque, escandalizada, enquanto a casa lhe arde atrás.
Agora surge José Luís Carneiro, com a solenidade burocrática de um notário cansado, garantindo que “tudo fará para defender a legalidade” e garante que “o PS não é visado na investigação” no mesmo momento em que quadros do PS são detidos ou constituídos arguidos. Que momento magnifico, quase poético. Em Portugal, os políticos falam da legalidade como padres falam da castidade, com enorme convicção abstracta e um historial estatístico desafiante.
A ironia grotesca de tudo isto é que o PS quer simultaneamente colher os louros colectivos do poder e fugir eternamente à responsabilidade colectiva da podridão que o acompanha. Quando há crescimento económico, “foi o PS”. Quando chegam fundos europeus, “foi o PS”. Quando há obras, “foi o PS”. Quando há cargos distribuídos por amigos, concursos estranhos, relações promíscuas entre Estado e aparelho partidário, negócios nebulosos e investigações judiciais intermináveis… ah não, aí já não existe PS nenhum! Nem Marx imaginou tamanha desmaterialização da matéria política.
Para mim, o mais insultuoso nem é a corrupção. Corrupção há em toda a parte, em todos os regimes, em todos os países e em todos os partidos. Para mim, o verdadeiro insulto é esta infantilização permanente do eleitorado. Este fingimento colectivo de que padrões repetidos ao longo de décadas são apenas coincidências estatísticas, como num exercício de catequese para imbecis. Chega a um ponto em que a repetição deixa de ser azar e passa a ser ecossistema.
Enquanto isto, o cidadão português, que é esmagado por impostos, tem serviços públicos medíocres e um salário miserável, olha para esta elite política profissional sempre reciclada, sempre protegida, sempre a falar como administradores de condomínio em coma e percebe que ninguém ali alguma vez assume verdadeiramente culpa por coisa nenhuma. Mas experimente o português comum não pagar o IUC ou o IMI para ver se não é imediatamente responsabilizado.
Para o PS a culpa é sempre do sistema, dos casos individuais, das percepções, das narrativas, dos jornalistas, da justiça, da oposição ou do alinhamento estelar. Jamais a culpa é da máquina partidária que alimentou, protegeu, promoveu e normalizou estas figuras durante décadas.
O PS é hoje o equivalente político de um condomínio em que aparecem ratos em todos os apartamentos mas a administração insiste que o prédio continua exemplar e que os roedores são fenómenos estritamente pessoais. Ficamos depois todos muitos surpreendidos com a ascensão de populismos?
Admiram-se os políticos que as pessoas estejam fartas. Que a confiança nas instituições esteja a apodrecer e que o povo esteja desinteressado da política e dos políticos que os ignoram e nunca têm culpa de nada.
Talvez o mais extraordinário seja que, mesmo depois de tudo, o PS continue a falar com este tom paternalista, untuoso e moralista de quem acredita sinceramente estar a educar crianças lentas. Como se o país lhes devesse gratidão pela gentileza de não roubarem à luz do dia.
Eça de Queirós olharia hoje para esta República e nem precisaria de escrever uma sátira. Bastava transcrever as conferências de imprensa do PS.