Os dias de vento atrapalham o bem-estar na praia, fazem voar o lixo na rua, despenteiam-nos e causam em alguns de nós uma certa irritação. Todavia, este sopro da natureza desperta o nosso olhar para espetáculos de dança inesperados. As folhas das árvores ganham uma luz reluzente pelos seus movimentos oscilantes. Olhá-las com olhos de ver mostra-nos que a existência, seja do que for, não é estática. No movimento das folhas há uma dinâmica de reflexos variados que exibe múltiplos cenários inspiradores para desenharmos ou pintarmos um quadro. A vida pode ser olhada constantemente sob diferentes perspetivas. Até os sacos do lixo podem também eles ser admirados nos seus movimentos de voo. Lembremos a cena captada pela personagem adolescente do filme Beleza Americana. Tendo nós a sensibilidade apurada, podemos transformar o aparente nada de especial em algo com maior significado.

A apreciação do belo coloca-nos em contacto com um estado de serenidade e em tangência com o sublime. Provoca em nós felicidade por suave narcose. Retiramos prazer pelo gozo da contemplação. Evadimo-nos e esquecemos, ainda que provisoriamente, qualquer sofrimento e exigências da vida mundana. Vivemos a suspensão do tempo real.

Umberto Eco, em A História da Beleza, explora o conceito de belo, equiparando-o ao que é gracioso, bonito, maravilhoso ou soberbo, e explicando que se trata de um adjetivo que usamos quando queremos assinalar algo que nos agrada. Ou seja, aquilo que é belo é também bom. Num extenso volume de alusões sucessivas, o escritor comprova como essa equiparação se foi desenvolvendo ao longo das diversas épocas históricas. Sendo o belo a projeção da imagem que o Homem faz de si mesmo, Eco salienta o modo como na época medieval o Homem possuía um deslumbramento pela beleza da luz, atividade contemplativa embalada pela ideia de um paraíso celestial. O Homem tocado pelo belo sentia-se bem, sentia-se bom (acrescentamos nós).

O conceito de belo aproxima-se de outro conceito: o de ideal. O ideal relaciona-se com a ideia de perfeição. E, talvez por isto, quando nos sentimos tocados por algum detalhe que consideremos belo, sentimo-nos próximos de um sentimento de completude e de perfeição. Tal experiência remete-nos, inconscientemente, para o reencontro com um tempo em que o Eu (ideal) se sentiu investido e suficientemente olhado/narcisado pelo seu primeiro objeto de amor, a mãe (e/ou pai), numa envolvência de harmonia total. A primeira experiência estética é o encontro destes primeiros olhares que tecem ligações profundas connosco.

São muitas as coisas belas e boas que despertam os nossos afetos: amores correspondidos, amizades profundas, prazeres providos de estados de quietude, ligação à arte, conquistas pessoais várias. Através delas, podemos contactar com a nossa beleza interior, por nos sentirmos satisfeitos e plenos. Ocupar um lugar de pousio que nos permita refletir sobre nós e as nossas (belas e boas) ligações aproxima-nos da tal completude e ideia de perfeição. Contactar com o belo dá-nos paz.

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