Desde que Zohran Mamdani venceu  a Câmara de Nova Iorque, parece ter regressado um entusiasmo inesperado por ideias que a realidade já tratou de testar várias vezes. Como se bastasse mudar o discurso para apagar décadas de experiências falhadas. As correntes iliberais e anticapitalistas voltaram a acreditar que o Estado consegue fazer melhor aquilo que milhões de consumidores escolhem todos os dias no mercado.

Desta vez foi o Livre. No seu último congresso, aprovou uma moção que defende a criação de uma rede de supermercados de tutela estatal e sem fins lucrativos. A proposta assenta em três pilares: vender cabazes de bens essenciais a preços controlados, funcionando como travão à inflação; pressionar a grande distribuição através de um concorrente público; e comprar diretamente a pequenos e médios produtores nacionais, reduzindo intermediários e garantindo margens mais justas. A ideia também não é propriamente original. O Bloco de Esquerda há muito defende soluções semelhantes. O PCP prefere insistir no controlo administrativo de preços, na tributação acrescida dos lucros da distribuição e no reforço de mercados locais sob gestão pública.

A pergunta, porém, continua a ser a mesma. Onde é que isto resultou? A resposta curta e honesta,  é simples: praticamente em lado nenhum. Não existem exemplos consistentes de sucesso sustentável de supermercados totalmente públicos ou municipais a competir num mercado livre. Sempre que um governo decidiu gerir diretamente supermercados, os resultados oscilaram entre o encerramento por prejuízos ou a necessidade permanente de subsidiação. Quando um supermercado público perde dinheiro, não fecha simplesmente. A diferença é que a conta chega sempre ao contribuinte.

Há uma narrativa, repetida tanto por coletivistas de esquerda como de direita, segundo a qual bastaria eliminar os lucros da grande distribuição para os preços baixarem significativamente. Mas essa ideia ignora um detalhe inconveniente: os supermercados conseguem vender barato precisamente porque são eficientes. Têm lucro? Têm. Ainda bem. É esse lucro que remunera o investimento, financia a expansão, moderniza a logística e permite ganhar escala. Naturalmente que todos gostaríamos de pagar menos pelas compras. Também ninguém ficaria especialmente incomodado se alguns administradores recebessem menos. Mas a pergunta seguinte raramente é feita. Se reduzirmos drasticamente os lucros e a capacidade de atrair bons gestores, essas empresas continuarão igualmente eficientes? Talvez não. E quando a eficiência desaparece, os custos aumentam. E quando os custos aumentam… os preços também.

Entretanto, circula nas redes sociais um vídeo de um indivíduo, não sei se político ou humorista, ou nenhuma delas, que defende que os lucros devem ser distribuídos pelos trabalhadores, apontando como exemplo uma cooperativa espanhola e outras 2 suíças. Curiosamente, esquece o pormenor mais importante. Todas essas cooperativas nasceram da iniciativa privada. Foram pessoas que, por sua conta e risco, decidiram criar empresas onde capital e trabalho pertencem aos próprios cooperadores. Não foram decretadas pelo Estado, nem impostas por lei, nem financiadas indefinidamente pelos contribuintes. As cooperativas são um excelente exemplo de diversidade económica. Competem no mercado, inovam, procuram eficiência e, em vez de privilegiarem investidores externos, procuram satisfazer os interesses dos seus membros.

Qual é o problema de existir mais uma cooperativa? Nenhum. Pelo contrário. Mais um operador significa mais concorrência, mais oferta e maior pressão para baixar preços. Qualquer liberal só pode olhar para isso com satisfação. Quanto mais concorrência existir, melhor para o consumidor. É precisamente aqui que surge a grande contradição. Os mesmos que elogiam as cooperativas acabam por defender soluções completamente diferentes quando chega a hora de legislar. Em vez de promoverem que cidadãos se organizem livremente para criar novas cooperativas, preferem que seja o Estado a abrir supermercados.

Mas fica uma pergunta. Se acreditam tanto neste modelo, porque não o demonstram? Porque não promovem eles próprios cooperativas de consumo? Porque não mobilizam militantes, simpatizantes, sindicatos, associações e académicos para criar supermercados cooperativos? Porque não mostram, na prática, que conseguem oferecer preços mais baixos, melhores salários, semanas de 35 ou até 30 horas, mais férias e melhores condições de trabalho? Se conseguirem fazê-lo, sem recorrer ao dinheiro dos contribuintes, terão criado um excelente exemplo de inovação social e económica. E eu serei dos primeiros clientes.

O país precisa de mais agentes económicos, mais concorrência, mais oferta e mais empreendedorismo. Não precisa de mais restrições, mais nacionalizações, mais imposições nem de legislação que afaste investimento. Querem provar que existe um modelo melhor? Força. Criem-no. Façam dele um caso de sucesso. Depois conquistem consumidores pela qualidade, pelo preço e pela eficiência.

Aliás, podem fazer exatamente o mesmo na habitação. Em vez de esperar que o Estado resolva tudo, nada impede partidos, fundações, cooperativas ou associações de desenvolverem projetos habitacionais acessíveis, economicamente sustentáveis e capazes de servir de exemplo para o resto do mercado. Com tantos académicos, especialistas e intelectuais que diariamente garantem conhecer soluções superiores, seria interessante vê-los liderar esses projetos.

No fim, o mercado fará aquilo que sempre faz. Se forem realmente melhores, as pessoas escolherão livremente esse modelo. Se não forem… talvez o problema nunca tenha sido o capitalismo.