Porque ainda estamos a percorrer os primeiros dias de 2026, e permanece na nossa mente a memória das iguarias e afins consumidos com gosto desde a véspera de Natal do ano passado, permito-me aproveitar a boleia do cozinheiro-chefe do Palácio do Eliseu – que em entrevista televisiva classificou de ´interesse gastronómico-político` os almoços que ali se realizam- para introdutoriamente apresentar, em jeito de aperitivo, uma  imagem cheia de paladar sobre o ano de 2025, e a partir dessa impressiva síntese ,adiantar um prognóstico «à vol d`oiseau» relativo ao futuro que em 2026 se anuncia e inicia.

Tudo se inscreve, é bem verdade, numa dinâmica cuja origem é muito mais remota, mas o que me importa aqui, é elaborar uma relação de causa-efeito a partir do ano que há pouco se despediu, e tanto me basta: com efeito, se o período de tempo abarcado é relativamente modesto, já a substância temática da imaginada´ caldeirada ` sobra e salta de todos os lados do panelão: a título de exemplo, vimos misturarem-se, por vezes naturalmente, outras com óbvia surpresa, ou então com mal disfarçada desconfiança mútua, as mais diversas afirmações nacionais:  a russa solyanka com o sínico kung pao, o norte-americano hamburger com a canadiana poutine,o russo strogonoff com o francês filet-mignon, a argelina shorba baidha com o marroquino tagine, a espanhola paella com o palestino maqluba, o nosso bacalhau à brás com a angolana moamba de galinha , o britânico fish and chips com o indiano biryani,o dinamarquês smorrebrod com os belgas moules, a ucraniana borscht com a taiwanesa ba wan, a grega moussaka com a turca kahvalti , a venezuelana hallaca com a brasileira moqueca. Não chegou a concretizar-se uma intenção de mesclar a iraniana tahchin com o israelita falafael .

Um caso invulgar e extremo, há pouco sucedido, merece uma particular anotação:  um dos costumados chefes convidados para esses eventos, desta vez ignorado por persistente mal-estar nas mútuas relações entre ele mesmo e um chefe a quem calhara rotativamente a oportunidade de organizar o encontro gastronómico, reagiu contudo de forma excessivamente caprichosa à sua exclusão dos prazeres da mesa : sabedor da excelsa qualidade dos produtos naturais constantes nos cozinhados nessa morada, atreveu-se a entrar com alguma brutalidade na casa – arrombando com estrondo a porta de entrada- , e raptou o próprio cozinheiro: sabe-se neste momento, que este estará em vias de preparar uma hallaca ´à moda de Flores` para ser provada pelo impulsivo e rival  gringo. Fora das suas ensolaradas e vastas instalações domésticas, o Chefe venezuelano já se queixou da relativa escuridão e exiguidade do espaço físico que lhe é oferecido, e de não lhe terem disponibilizado nenhuns ajudantes cubanos.

Em suma, foi grande o número dos Chefes que colaboraram com a sua perícia para a «Caldeirada 2025», e abundantes as opções tomadas. Em função das frequentes e intensas irregularidades climático-políticas registadas, conducentes a um ano de fracas e tristes colheitas, os resultados globais finais não corresponderam, contudo e mesmo assim, às expetativas da maioria dos exigentes profissionais.

Em face desta sombria constatação, que se poderá prognosticar, então, para este 2026?

A primeira observação aponta para a necessidade de se multiplicarem os encontros á volta de uma mesa, e de lhes ser atribuído um estatuto de absoluta prioridade em todas as circunstâncias que pressagiem a hipótese de uma forte deterioração do status quo. Subestimar-se a força do diálogo no sentido de se inviabilizar qualquer atuação belicista onde ninguém sai vencedor, seria um erro de consequências porventura catastróficas para o mundo em geral.

Por essa razão, e em segundo lugar, dever-se-á não só estimular a realização desses encontros de boa-vontade e de proveito mútuo, como usá-los com sabedoria: pegando nas palavras de Gandhi falando especificamente do drama da fome que assola(va) centenas de milhões de habitantes do planeta, «there is enough for everyone´s need, but not enough for everyone`s greed», é na responsabilização pessoal de cada um que começa a dar-se a volta às contrariedades.

Por último, e em reforço das preocupações antes enunciadas,  olhe-se com olhos de ver todas as informações , em especial reportagens visuais que nos vêm dos lugares onde infelizmente a guerra é o dia a dia de tantas populações, e particularmente a situação na Ucrânia: é sempre um espetáculo de imensa desolação aquele que deparamos, não só pelos milhares de vidas ceifadas, como pela miserável situação de subsistência de populações inteiras , privadas de quase todos os meios materiais em virtude da destruição de suas casas, do desaparecimento de toda  uma economia, e das condições deploráveis em que se encontram  tantos setores de atividade que antes asseguravam aos cidadãos um quotidiano de normalidade e dignidade.

2026 , em particular para a Europa, será provavelmente e sobretudo um ano pleno de interrogações e de imperativas decisões: será que conseguirá mostrar a indispensável coesão e solidariedade entre os seus membros, e se necessário, provar ser capaz de assumir com coragem os diferentes e inéditos desafios com que será confrontada?

Uma leitura objetiva da realidade presente, e em especial tendo em conta um incomensurável véu de ceticismo que se instalou, leva-nos a duvidar do engenho e arte da EU em estar à altura de tamanha tarefa. Permito-me identificar, a propósito e lateralmente, um elemento informativo pouco divulgado, que me parece suscetível de algum interesse:

o princípio da subsidiariedade, que nos é caro, implica em primeiro lugar a capacidade de cada cidadão ´responder à chamada` das mudanças em curso na cena mundial. Ora não podemos deixar de atentar no facto de que décadas de bem-estar e prosperidade – e frequentemente a progressiva delegação no Estado do provimento de ações de assistência e solidariedade junto das populações- , nos afastaram de uma qualquer habituação ao sacrifício pessoal e à noção de que a liberdade implica um preço a pagar. Foi quase tudo muito fácil desde o desembarque vitorioso naquela praia.

Independentemente de efetivamente se verificar, ou não, uma qualquer sintonia entre a percecionada predisposição negativa e a atual situação política em alguns países-membros, vale pelo menos a pena pensar-se, em termos teóricos, na influência, a montante do desejável esforço conjunto da União Europeia, de certas sensibilidades, hoje navegando com ventos favoráveis, que se afirmam contrários à orientação liberal que ainda subsiste maioritariamente no Parlamento Europeu e no Conselho. Ou, mais radicalmente, que se opõem frontalmente à própria existência da EU.

Isto dito, nada nos impede de nos surpreendermos a nós próprios : saibamos pois remar contra a maré, quando tal se impuser, e ajustar a bússola quando for conveniente. E não olvidemos nunca o simples facto de sermos uma equipa com um invejável palmarés, em termos de resultados atingidos ao longo de sete décadas. Não fossem os muitos sucessos conquistados em tantas etapas históricas, não seria entendível que ainda se perfilem candidatos à adesão no limiar da nossa porta.