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Quando a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, em 1939, pouco se passou. Mobilizaram-se tropas e indústrias, escreveram-se e proferiram-se discursos, reuniram-se e cumprimentaram-se políticos, mudaram-se e acordaram-se governos, anunciou-se o regresso da perda a um povo e milhares de crianças foram retiradas de Londres por receio – mais do que justificado, como se viria a ver – de bombardeamento alemão. De setembro desse ano a maio de 1940, o conflito entre os Aliados e as potências do Eixo foi, quase totalmente, naval ou somente económico. A esse período preambular da Segunda Guerra, os cerca de oito meses entre as declarações de guerra do Império Britânico e da República Francesa e o dia em que Hitler invadiu a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo, chamou-se the phoney war. A expressão, se traduzida para português, significa a guerra falsa ou guerra da treta porque era isso, de facto, que aparentava ser. A inatividade dos exércitos e a ausência de grandes catástrofes ou euforias em ambos os lados parecia, para quem cunhou o termo, uma coisita a brincar, como se todo o caos que aí vinha, toda a gravidade do que aconteceria, toda a engrenagem do apocalipse já bem oleada, fosse, afinal, algo leve e de breve resolução. Não foi, sabêmo-lo hoje, assim. A Europa seria arrasada nos cinco anos seguintes. Mas é nessa sensação de phoney war, de “afinal não é assim tão mau”, de “vai correr tudo bem”, que Portugal se mergulhou ultimamente.

Caso contrário, para dar uns exemplos, o gabinete do sr. primeiro-ministro não perderia tempo a responder a artigos de jornal, o sr. Presidente da República não manteria o tabu sobre a sua recandidatura num tempo em que a estabilidade política (a mesma que legitimou o seu apoio à ‘geringonça’) é tão imprescindível e o futebol não continuaria, como continua, uma prioridade nacional em festejo e mediatismo. Sejamos francos: os sinais que têm sido dados ao país são de que não só está tudo bem, como rapidamente ficará tudo ainda melhor. Qualquer anúncio de dor ou dureza é imediatamente substituído ou confundido com notícias sobre “o dinheiro da Europa” e diversas nacionalizações com dinheiro que, não sendo da Europa, sabe Deus de quem será. Mas adiante. No meio desta nossa phoney crisis, que antecede igualmente um assombroso desastre, tivemos também tempo para uma polémica universitária, intelectual e verdadeiramente pública. Eu, que não quero privar o meu caro leitor destes analgésicos, descreverei com o maior dos empenhos.  

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