Há escassas semanas, num artigo sobre a vandalização da estátua de Vieira, destaquei o meu receio da chegada à Europa de uma cultura censória e exclusivistas (cancel culture) que, em nome da boa luta contra o racismo, tem ganho peso crescente e alarmante nos EUA. Nesse sentido deveria agradecer aos 67 académicos que decidiram assinar um texto no Público denunciado um livro de Riccardo Marchi sobre o Partido Chega, e censurando a RTP2 por o ter entrevistado. É que vieram validar a minha previsão com um gesto inédito (que eu saiba) na história intelectual portuguesa. Mas não fico feliz, fico preocupado.

As minhas críticas às teses dos 67 e de Marchi

Não há nada a apontar às teses do meu colega Riccardo Marchi? Eu tenho várias críticas a fazer-lhe. E outras terei certamente no futuro, se pudermos continuar a trabalhar e publicar. Creio que é justificada a crítica de que assenta excessivamente a sua análise nas declarações dos próprios dirigentes do Chega. Mas esta é uma limitação frequentemente apontada à História das Ideias Políticas, que não é a mesma coisa que a Sociologia da xenofobia ou a Ciência Política dos comportamentos eleitorais. Justifica um debate, não justifica a sua exclusão da TV pública.

Para se poder afirmar com rigor que o Chega não é racista não basta, claro, a palavra dos seus dirigentes. A análise rigorosa do discurso deve partir de um conceito próprio, neste caso de racismo, para avaliar a essa luz as palavras (e o comportamento) de líderes e de militantes de uma qualquer organização. No caso do Chega é claro que há, mesmo ao nível do discurso dos seus dirigentes, a começar pelo seu fundador, André Ventura, a defesa de comportamentos discriminatórios e de discursos preconceituosos. Há generalizações abusivas relativamente a certos grupos étnicos ou religiosos, como os ciganos e os muçulmanos. Isso é aliás algo que o próprio Marchi reporta no seu livro, e que poderia ter ficado mais claro nas suas entrevistas. O Chega é um partido que nega ser racista, que não adotando um racismo biológica à maneira nazi, mas tem discursos e defende práticas xenófobas e racistas.

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