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É-me difícil escrever sobre alguém que admiro porque não estou aqui para o fazer. A escrita sobre aqueles que admiramos, que respeitamos, que temos como exemplo, não é propriamente uma análise, por não ser imparcial, nem estar a isso obrigada. No caso de Pedro Passos Coelho, a parcialidade é excecionalmente objetiva: ele é o melhor de nós, é primus inter pares, é primeiro entre iguais. Na sua dimensão humana e política é inexcedível. Não há ninguém que se lhe compare no panorama nacional, que é aquele que conheço. Não há ninguém que sequer se lhe aproxime. O eco ribombante das suas palavras, há dias, na Academia das Ciências, deve-se a essa sua excecionalidade. Ao facto de representar, como nenhum outro, uma forma verdadeira, séria e convicta de estar na vida pública. Ao facto de inspirar um eleitorado que desistiu das suas casas originais desde que ele saiu de cena. Ao facto de provocar, também como nenhum outro, o temor da gente instalada, da situação, daquilo que a esquerda é e faz.

Como evidenciou Sérgio Sousa Pinto, recentemente no Expresso, em homenagem a Sá Carneiro, “a liderança tem propriedades ontológicas”: “um primeiro-ministro pode deixar de ser primeiro-ministro”, mas “um líder não deixa de ser líder”. “Convicções profundas, autoridade e força, são os atributos da liderança, a virtude cívica que a democracia mais despreza e teme”. Assim é.

Passos anunciou que não se recandidatava à liderança do PSD a seguir as autárquicas de 2017, em outubro, deixando congresso aberto para quem se apresentasse. Nunca se demitiu de quaisquer funções, executivas ou internas, nem foi alguma vez derrotado numa eleição nacional a que se candidatasse. Desde a sua saída, não deu uma única entrevista, não foi às televisões, não se tornou um comentador da arena política ‒ papel de que, aliás, sempre se distanciou. Foram três anos de silêncio quase total, mas não de negligência ou desatenção ao estado do país. Pronunciou-se publicamente em episódios pontuais, quase sempre discretamente e por escrito, como a votação da lei da eutanásia, a saída de Joana Marques Vidal da Procuradoria-Geral da República ou o chumbo dos alunos de Famalicão por não frequentarem a disciplina de “Cidadania”. Coincidentemente, Aníbal Cavaco Silva pautou o seu período pós-presidencial, ainda que mais ativo em aparições e publicações, com intervenções sobre os mesmos temas. E, também coincidentemente, Rui Rio esteve do lado contrário aos seus dois antecessores nesses mesmos temas ‒ fosse por opinião, fosse por omissão.

A vida, claro, está cheia de ironias do género. Que a praça comece a perceber que Passos é o único líder capaz de estancar a sangria de votos da direita para o partido de André Ventura é uma delas, na medida em que Passos, que foi chamado de tudo, de racista a fascista, passando por neoliberal, seja agora dado como antídoto contra o crescimento do Chega, que os mesmos que o insultavam se dedicam hoje a odiar. Para ele, imagino, o cinismo alheio prosseguirá indiferente.

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A palestra que proferiu este mês mostrava o que, para quem o segue e escuta, não pode contar como novidade: sabe o país que quer de Portugal e sabe que lugar quer para esse país no mundo. Em 2018, no seu último evento antes de terminar o mandato, resumiu a essência da política naquele que é, para mim, o seu discurso mais notável. “É saber como é que damos um sentido que de alguma forma nos transcenda nas pequenas coisas do dia-a-dia. Um sentido que dê um significado próprio à política. Um sentido que lhe dê essa dignidade. Um sentido que nos faça dizer: ‘É por isto que ando cá, é por isto que me vou bater, é isto que eu quero, é isto em que acredito!’. Pode haver quem pense de outra maneira, mas é por isto que eu estou cá. Mais do que à esquerda, à direita ou ao centro, que se diga o que se quer! Aquilo que somos, aquilo que projetamos para futuro”.

Manifestamente, não há qualquer político no ativo que corresponda a este espírito, que o represente, que o tome como missão. E é por isso que, uma a uma, todas as cabeças se viraram para o ouvir.