2020 termina como começou: com o governo aos pedacinhos. Para gente de memória curta será útil relembrar que o segundo mandato de António Costa nasceu já morto. No início do ano, acabadinho de ser reeleito, o Partido Socialista já ameaçava demitir-se devido ao IVA da eletricidade nas negociações para o seu primeiro Orçamento do Estado. Escassos meses bastariam para o primeiro-ministro tornar a enrolar a corda à volta do pescoço, pressionando a esquerda a aprovar o Orçamento seguinte porque, caso dependesse do PSD, o governo cairia de vez. Chegado a 2021, o governo está podre ‒ mas não tomba. A ministra da Justiça mente à União Europeia sobre o currículo de um procurador anticorrupção, a ministra da Saúde corta-fitas a vacinas para as quais não mexeu uma palha, o ministro da Educação esconde péssimos resultados com piores figuras, o ministro da Administração Interna caiu da cadeira mas ainda assina despachos e o ministro das Finanças, desde que o professor Centeno desertou, deixou de existir de todo.

O acumular destas nulidades suscitou no debate público a ideia de “fim de ciclo”, esquecendo, porventura, que tem de haver algo a começar ‒ uma alternativa ‒ para algo definitivamente terminar. Como é claro para quem olhar a oposição, não há alternativa nenhuma. Rui Rio é líder do PSD há três anos e a única coisa que tem para dizer ao país é o “interesse nacional” para aqui e o “interesse nacional” para ali. E, recordando os seus resultados eleitorais em europeias e legislativas, facilmente se entende que Rio não tem interesse nacional, nem interesse nenhum. Como é que a oposição não consegue valorizar-se perante uma governação tão medíocre começa a aproximar-se do limiar da incompetência.

Não é, então, somente um “fim de ciclo”. Quando nem governo nem oposição produzem uma ação política coerente, credível e mobilizadora, a problemática não se resume ao calendário ou às mudanças de ciclo. Não é só o tempo que está a passar pelo PS e por António Costa; é o regime, como um todo, que mostra sinais de degradação acentuada. A incapacidade de apresentação de alternativas, a resignação popular e mediática aos incumbentes, o dilema, desde 2015, entre alternância e esquizofrenia ideológica, o coma de instituições históricas como o CDS, a estagnação eleitoral do PSD, mas também do Partido Socialista, incapaz de maioria absoluta após quatro anos de afetos e estabilidade. Tudo isto é sinal de um fim, e não só de ciclo. E tudo isso nos obriga a ouvir a força política que o proclama, não como facto, mas como programa.

Eu, estando longe do que o Chega representa, não me condeno à surdez. Além da verborreia racial e de uma reatividade quase infantil às redes sociais, há algo que André Ventura afirma que não está longe da verdade. O regime, a que chamamos convencionalmente Terceira República, atingiu um estado de intrínseca disfuncionalidade. A estagnação, como apregoam os economistas, não é exclusivamente estatística; é política. Ironicamente, os partidos que tornaram Ventura o centro da vida política nacional são os mesmos que falharam em fornecer vitalidade e respeito à República, preferindo combater o Chega no terreno do facilitismo, das manifestações e das censuras, com o insucesso que se sabe.

A crise do regime não se trata, inclusivamente, da única bandeira que Ventura poderá reclamar como certa ‒ e sua ‒ num futuro próximo. A presidencialização do sistema político, no segundo mandato de Marcelo, será uma tentação real se a latência dos dois grandes partidos se mantiver e a saúde orçamental do país não tolerar mais aventuras. Presidencialização essa que o Chega sempre defendeu.

Agora que o ano findou, talvez fosse boa altura para o regime perceber que, para sobreviver a André Ventura, deve começar por não lhe dar razão.