Portugal deitou-se colhido com os resultados da primeira volta das presidenciais. Surpreendeu-se. Assim como quem encontra água no fundo do mar. Com um espanto  genuíno, poupando, tal como o atual primeiro-ministro, na volição de dizer ao país aquilo  que se nos é óbvio. Alguns falam de uma viragem histórica, do regresso de um candidato  fixe. Tudo parece novo, embora nada seja inesperado.

Ganharam Seguro e Ventura. Ou, talvez, mais particularmente, tenha vencido a  contradição. Fecundada, a onda rola, agora, trovejando, na corrida para o parto que a  espera, escreveu-nos Saramago, e a política portuguesa apresenta-se, neste pedaço de  reflexos, dividida entre dois estilos que parecem incompatíveis, mas que coexistem com  uma naturalidade desconcertante. Um fala como se estivesse a garantir que nada sai fora  do sítio. O outro como se o problema fosse precisamente o sítio onde tudo está. E viver é  recordar, neste âmbito, que George Orwell nos deixou que «Para o Partido, não importa que  o inimigo mude. O importante é que exista sempre um».

Partilharam gráficos, explicações sociológicas apressadas, disparando que tudo isto diz  muito sobre o país. Diz, sem dúvida. Mas talvez aponte também para a típica necessidade portuguesa de nada explicar depois de tudo acontecer. E compreender, afinal, no final das  contas, que este tudo ou nada em tudo são iguais. Esta surpresa foi trabalhada ao longo de  meses. Confirmou-se, no fundo, que o país anda dividido entre a vontade de que tudo  funcione e a vontade de que tudo mude, mesmo que ainda não se saiba bem para quê.

O estudante universitário tende a votar com a sensação de que está a fazer um exercício  racional, informado, quase técnico. Lê programas, compara discursos, reconhece  nuances. Essa mesma formação pode, contudo, criar a ilusão de superioridade moral: a  ideia de que votar de forma menos assertiva tem sempre na sua génese a ignorância, nunca  a frustração, a experiência pessoal ou a desilusão acumulada. É um conforto intelectual  difícil de abandonar.

A educação universitária ensina a complexificar — e isso, paradoxalmente, nem sempre  facilita a decisão. Quanto mais se sabe, mais difícil se torna escolher com convicção. O  voto deixa de ser um gesto simples e passa a ser um dilema ético mal resolvido: votar no  que parece mais sólido, mesmo que pouco inspirador, ou rejeitar o sistema em nome de  um desconforto legítimo, ainda que mal canalizado.

Enquanto isso, fora da bolha académica, o voto pode ser menos analisado e mais sentido.  Não necessariamente menos informado, apenas informado por outros critérios. A  universidade valoriza a coerência interna, o quotidiano valoriza a coerência com a vida.  Quando estes dois mundos se olham com desconfiança, cada um acha que o outro está a  falhar no essencial.

E talvez a maior influência da educação universitária não seja ensinar a votar melhor, mas  ensinar a duvidar do próprio voto. A desconfiar das certezas fáceis, incluindo as nossas.

Perante este cenário, vale a pena regressar a Sá Carneiro, que nos lembrou que a  democracia é um valor absoluto, não um meio para chegar a um fim. Não porque nos poupa o erro, mas porque o admite. Não porque elimina o conflito, mas porque o organiza. Não porque garanta uma unanimidade universal, mas porque permite a diferença sem romper  o tecido comum.