1 A boa diversidade

Sempre que ouço Konstantin Kisin dizer “a diversidade não é a nossa força” penso que daria um ótimo slogan para gravar numa caneca de café. É claro que, como pessoa razoável que é, Kisin acrescenta: quando levada a este extremo.

De facto, alguma diversidade pode ser vantajosa, como quando temos uma turma de estudantes que não provêm todos do mesmo sítio e podem dar uma diferente perspetiva do que é viver no norte, no interior, no Alentejo ou na área da grande Lisboa. Da mesma forma, um estudante brasileiro pode trazer uma ótica interessante sobre a América do Sul e os estudantes de países africanos partilham sempre perspetivas muito diferentes das europeias sobre as dificuldades dos regimes democráticos no seu continente, muito em resultado das divisões tribais e étnicas, e sobre a importância da família alargada, de que quase já nos esquecemos.

Homens e mulheres também contribuem com perspetivas diferentes sobre a mesma realidade. Costumo dar como exemplo a observação que ouvi de uma ativista feminista, numa entrevista de resto desinteressante, sobre a importância de ter mulheres no planeamento arquitetónico dos campos de refugiados: um arquiteto homem, por razões de higiene, tenderá a pôr as casas de banho numa zona afastada, mas uma arquiteta compreende que é pouco aconselhável fazer com que as mulheres se tenham de deslocar para locais isolados.

Também a diversidade ideológica é importante: como vimos a propósito da cultura de cancelamento, se os locais de trabalho ou de aprendizagem forem muito homogéneos em termos políticos, a pressão do grupo diminui a possibilidade do desacordo e aumenta a hipótese de punição com vista à purificação ideológica.

Neste sentido, é verdade que a diversidade pode ser uma força. Mas todos sabemos que não é disso que se está a falar.

2 Diversidade a mais

A crítica de Konstantin Kisin é diretamente dirigida ao contexto britânico e ao discurso público em torno da imigração e da diversidade que tem vindo a ser criado a partir do mito do HMT Empire Windrush (e que deu origem à instituição do Windrush Day no dia 22 de junho desde 2018).

Quando ali se defende que “a diversidade é a nossa força” não se está a pensar em como opiniões diversas podem aumentar a nossa compreensão do mundo. Em sentido contrário, o que o Reino Unido tem feito, nos últimos anos, é limitar a liberdade de expressão e diminuir a diversidade do que pode ser dito, desde a proibição de rezar silenciosamente junto a clínicas de aborto e à previsão de variadíssimas formas de discurso de ódio nas redes sociais até à revogação da autorização de entrada a pessoas como Kanye West (uma espécie de artista bastante excêntrico) a Hasan Piker e Cenk Uygur (críticos do governo de Israel).

O que se pretende com a palavra “diversidade” naquela frase é, antes, tentar produzir um consenso público para a contínua construção de uma sociedade cosmopolita e as suas políticas amplas de imigração.

Também aqui, e como nos ensinou Aristóteles, a virtude está no meio: é claro que as sociedades podem ganhar com algum nível de imigração e abertura, mas também, com exceção de pouquíssimos estados modernos, nenhum país manteve as suas fronteiras fechadas. A questão é a de saber quando é que diversidade se torna diversidade a mais – ou, de outra forma, a de saber quando é que a diversidade deixa de ser a nossa força para passar a ser a nossa fraqueza.

Uma resposta sensata não parece difícil de propor: quando começamos a perder o sentido de identidade nacional e a pôr em causa os nossos valores, a nossa história e os nossos princípios. Quando a diversidade começa a exigir que comprometamos todo um sistema de valores civilizacionais, que foram criados por um longo processo histórico em que as boas ideias e as boas instituições foram sobrevivendo ao teste do tempo, então já passamos o Rubicão.

E depois de o fazermos torna-se muito difícil evitar que as coisas se deteriorem rapidamente. Não é por isso surpreendente que, no Reino Unido, alguns defendam que podemos estar próximos de uma espécie de guerra civil, outros temam um futuro “à Houellebecq” e muitos sonhem com uma solução de tipo segregação. Seja como for, o paradigma liberal-humanista do consenso pós-1945 parece estar posto em causa.

3 O problema da diversidade

O problema da diversidade encontra-se na pressão que exerce sobre as instituições dos países que são alvo deste tipo específico de engenharia social – algo que, importa notar, nunca foi feito antes. As instituições europeias foram pensadas, como nota Chris Bayliss em conversa com Louise Perry, para sociedades homogéneas – desde o sistema democrático às variadas manifestações do estado social. Por esta razão, quando as sociedades se tornam “diversas”, as instituições são pressionadas a modificar as suas regras e a adaptarem-se à nova realidade.

É o que tem acontecido com as regras que dão forma ao estado de direito, como a história de Henry Nowak revela, mas também com o princípio da liberdade de expressão: para “acomodar” a diversidade fomos limitando, gradualmente, o que pode ser dito. Paradoxalmente, maior diversidade cultural tem correspondido a menor diversidade política.

Durante décadas, pensou-se que a assimilação resolveria o problema (como em França); depois tivemos décadas em que o multiculturalismo resolveria o problema (como no Reino Unido). Hoje sabemos que os dois modelos falharam redondamente e vemo-nos com sociedades profundamente divididas.

Uma perspetiva realista sobre a natureza humana permite-nos perceber porquê: somos seres culturais e a cultura impregna todas as sociedades humanas – não existe uma zona-neutra sem cultura onde nos possamos encontrar pelo que o desencontro é inevitável e acaba por gerar, sobretudo com as políticas identitárias dos últimos anos, o efeito de consciência de grupo. Acabamos por ser empurrados para as nossas tribos e os desencontros passam a conflitos.

O futuro não se adivinha risonho e os antigos estados democráticos podem vir a tornar-se, como Teresa Nogueira Pinto chamou a atenção, em verdadeiros estados policiais muito em breve. A diversidade terá vencido.