1 Somos seres tribais

A hipótese de a moralidade ter desempenhado um papel fundamental no processo evolutivo da humanidade é, provavelmente, verdadeira por ser capaz de explicar e prever tão corretamente o modo como nos comportamos e reagimos. De acordo com esta perspetiva, a moralidade deverá ser vista como uma vantagem adaptativa: as regras morais estreitam as relações entre os membros do grupo, gerando confiança e cooperação, o que aumenta as probabilidades de sobrevivência dos seus elementos. Um grupo que é capaz de cooperar adequadamente aumenta o seu sucesso, nomeadamente reprodutivo.

Torna-se, assim, fundamental que o cumprimento das regras morais seja fiscalizado e os infratores rapidamente punidos. É esse mecanismo que permite manter a coesão do grupo, em particular quando este se sente ameaçado por um inimigo externo, e nessas alturas é particularmente importante que não haja dissidências – e a punição deve ser rápida e forte o suficiente para dissuadir infrações futuras.

O dissidente vê-se colocado numa posição difícil: a nossa natureza tribal força o desejo pela permanência no grupo, mesmo quando achamos que fomos tratados injustamente, e por essa razão estamos dispostos a assumir a culpa e a fazer a autopunição, prometendo não reincidir. (E como não recordar o walk of shame de Cersei Lannister, tantas vezes repetido nos últimos tempos?)

Apenas os mais individualistas tendem a adotar um comportamento distinto: ao contrário de se submeterem à pressão do grupo, optam por autoexcluir-se. Esta reação, embora minoritária, verificou-se com alguma frequência nos últimos anos, não só em resultado da crescente pressão progressista em temas polémicos como a imigração (é o caso do jornalista britânico David Goodhart, que abandonou a sua tribo de esquerda), como também da pressão identitária nos Estados Unidos, como aconteceu com vários académicos próximos do partido democrata que acabaram por se afastar (é o caso de Bret Weinstein), levando à formação de grupos informais, como o Intellectual Dark Web, descrito por Jamie Q. Roberts. Curiosamente, o período pandémico – na medida em que se caracterizou por uma forte imposição social de consenso – foi especialmente rico para a constituição deste tipo de resistência.

2 Cultura de cancelamento

A posição individualista é, contudo, uma exceção. A nossa natureza tribal tende a conduzir-nos para um comportamento de grupo, em que fiscalizamos a infração e procuramos a punição – sentindo prazer físico quando o fazemos, como expliquei aqui. E esta lógica é particularmente forte quando o grupo a que pertencemos tem uma carga moral pesada – o que em termos políticos nos predispõem a considerar que a nossa visão do mundo é a única visão aceitável e que todos os outros que pensam de forma diferente constituem uma ameaça que deve ser eliminada.

Também nos torna especialmente suscetíveis a dissidências internas: a busca pelo inimigo e pela pureza ideológica é constante e como punir os membros do grupo é fácil – porque tendem a retratar-se para permanecer na tribo – a fiscalização interna é particularmente ativa. Aquele que discorda de nós é uma ameaça que devemos tentar eliminar, mas aquele que devia pensar como nós e não o faz é um inimigo ainda mais perigoso.

É precisamente este aspeto que nos permite compreender por que razão, nos últimos anos, avançamos para aquilo que tem sido designado como cultura de cancelamento, enquanto ambiente propício à pressão para que certas pessoas sejam punidas (exigindo-se o cancelamento de palestras, despedimentos, expulsão, etc.) por terem dito ou expressado ideias inaceitáveis. A novidade não está na tentativa de silenciamento (muito do jogo público e político acontece neste tipo de pressões). A novidade encontra-se no facto de essa pressão se ter tornado tão eficaz.

Uma das razões para essa eficácia parece resultar da combinação entre a natureza tribal e a homogeneidade ideológica dos círculos onde o cancelamento era estimulado. É porque os meios culturais, académicos e dos media nos países anglo-americanos apresentam tão pouca diversidade ideológica que o mecanismo de silenciamento funciona especialmente bem: discordar da fiscalização e da punição e tentar resistir à pressão do cancelamento torna-nos o próximo inimigo a abater.

Não é por isso surpreendente que os relatos das pessoas canceladas sejam tantas vezes acompanhados por comentários como o seguinte: “muitos escreveram-me em privado para me apoiar, mas nas redes sociais eram os primeiros a condenar”. É preciso mostrar ao grupo que permanecemos leais para evitarmos o espectro do impureza.

3 O antídoto

Por tudo isto, é possível distinguir claramente entre uma cultura de cancelamento e pressões políticas de censura e silenciamento: aquela é promovida por pares, enquanto esta tem um pendor hierárquico e tenderá a recorrer ao poder político. E trata-se de uma distinção relevante quando analisamos o que tem vindo a acontecer nos Estados Unidos: embora não haja informação segura de ter sido a administração Trump a exigir a suspensão dos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Kimmel, não é difícil acreditar que tenha havido pressões, mais ou menos diretas, para que tal acontecesse, como o próprio Donald Trump reconhece ser o seu desejo. E tudo se torna mais fácil quando a excessiva regulação estatal permite ao estado ter este tipo de poder.

A situação estaria, assim, mais próxima de uma tentativa de censura e, como tal, deveria despertar reações adversas e adequadas no espaço público. O problema é que, como o país se encontra mergulhado numa cultura de cancelamento fortemente instalada há pelo menos 10 anos, a sociedade norte-americana parece ter sido cerceada dos mecanismos necessários para resistir. Quem é que pode, do lado democrata, apresentar uma crítica consistente e não hipócrita a uma tentativa de silenciamento? Certamente não Jimmy Kimmel, que se mostrou sempre muito favorável a limitações de discurso. E quem é que, do lado republicano, quer abdicar do poder de convocar, agora, o mesmo tipo de estratégias?

E é este o problema de se lançarem as sementes do cancelamento: no final, ficam todos a perder.

Entre nós, que analisamos à distância os problemas do mundo anglo-americano, podemos pelo menos aprender com o que se está a passar: o melhor antídoto para evitar que uma cultura do cancelamento e da censura se instale é manter o pluralismo ideológico. Em particular, dentro dos círculos culturais, académicos e dos meios de comunicação. Passa por nos habituarmos a conviver com a diferença, em vez de ceder à tentação de impor uma visão única do mundo e excluir do diálogo público aqueles que pensam de forma diferente – acusando-os de discurso de ódio ou de todo o tipo de fobias.

Até porque, como os Estados Unidos infelizmente nos ensinam, perseverar nessa atitude coloca-nos no perigo de que pessoas menos equilibradas decidam passar do cancelamento ao silenciamento físico.