Escrevo antes da suposta manifestação dos nossos coletes amarelos. Como quase toda a gente, não sei o que é, nem o que vai ser. Mas não é isso que importa. O que importa é outra coisa: o modo como “um movimento das redes sociais”, imediatamente catalogado como de “extrema-direita”, atraiu os comentadores do regime como uma lâmpada à noite atrai as traças. Porque precisa tanto a nossa oligarquia de uma “extrema-direita”? Só para poder dizer que pelo menos nisso o país converge com a Europa?

Sobre a “extrema-direita”, os oligarcas têm duas opiniões. A primeira é a de que a “extrema-direita” não existe em Portugal, a não ser sob formas insignificantes, só visíveis ao microscópio do jornalismo anti-fascista. É que o povo, mesmo quando insatisfeito, está muito satisfeito por ser representado pelo PCP e pelo BE. Daí que não haja tradução portuguesa para Trump, Bolsonaro, Vox, etc.

A outra opinião é o contrário: é a de que, em Portugal, fora da esquerda e das épocas de domínio da esquerda, não há nem nunca houve outra coisa senão fascismo, salazarismo, inquisição, racismo, etc. Portugal é uma grande desgraça, que só a abnegação dos anti-fascistas impede de reeditar imediatamente a Alemanha nazi: é, como estão lembrados, o que nos ensinam sempre que governam o PSD e o CDS.

Ora, a questão é saber o que interessa agora às esquerdas que mandam no país: convém-lhes que haja  “extrema-direita” ou não? Depois do que se disse e escreveu sobre os nossos coletes amarelos, é difícil não concluir que a actual maioria social-comunista precisa urgentemente de qualquer produto nacional que, sem se envergonhar, possa comparar com Bolsonaro ou com o Vox. No meio de cativações e de greves, e cada vez mais no plano inclinado do arrefecimento económico, Costa e os seus colaboradores Catarina e Jerónimo já terão sentido que talvez não lhes baste, em 2019, reclamar louvores pela reposição de uns quantos euros em 2016. Necessitam de algo mais épico, como seria, por exemplo, a defesa heróica da democracia perante “o avanço da extrema-direita”. O ideal era que houvesse nas eleições europeias um qualquer fenómeno a que pudessem colar o rótulo de “populismo”, de modo a fazerem correr as legislativas em ambiente de pânico anti-fascista, à brasileira. Isso teria ainda esta vantagem: forçar o PSD e o CDS, como já acontece ao PP e ao Ciudadanos em Espanha perante o Vox, a entrarem numa dieta suplementar de agonia sobre se devem (ou não) “negociar” com a “extrema-direita”.

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