Grécia

A estética ética da propaganda norte-coreana /premium

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De Varoufakis às redes sociais, dos comentadores de esquerda, direita e extremas, todos parecem conhecer a solução mágica e quase todos culpam a União, como se não tivesse sido ela a salvar a Grécia.

Yanis Varoufakis não gostou do vídeo partilhado por Mário Centeno como presidente do Eurogrupo em que saúda o fim do programa de assistência financeira à Grécia e felicita o povo grego por ter “reconquistado o controlo”.

Tweetou o antigo ministro das Finanças grego: “A Comissão europeia junta insulto à insuportável miséria da Grécia com um vídeo com a estética/imoral da máquina de propaganda norte-coreana”. Esquecendo o facto de o vídeo ser do Eurogrupo e não da Comissão (alvo apetecível e habitual), afinal o que contém ele que tanto choca Varoufakis, indignação aliás partilhada por milhares de frequentadores das redes sociais, agentes políticos e comentadores de vários quadrantes políticos em Portugal e mais além?

Será por Centeno referir o progresso económico da Grécia, a que os críticos contrapõem os níveis de desemprego jovem e a enorme dívida pública? Se é, têm razão.

Um excelente (e sucinto) trabalho apresentado ontem pelo Financial Times salienta que a criação de riqueza, embora 3,5% superior aos valores de 2015, ainda está 25% abaixo dos níveis de 2007, ao contrário do caso espanhol, português ou italiano, todos à volta dos 100% em relação a 2008. O desemprego afecta 1 milhão de gregos, 20% do total, mais do dobro de há 10 anos. O crédito mal parado é várias vezes superior ao que era então.

A Grécia é o 4.º país mais pobre da União Europeia, só à frente da Bulgária, da Croácia e da Roménia. A sua dívida pública é de 180% do produto, a maior da zona euro. Em suma, Varoufakis tem razão? Talvez sim. Ou talvez não, por três razões.

Primeiro, há sinais de esperança: as exportações, com o turismo à cabeça, crescem a um ritmo razoável, apesar de fraquezas estruturais (como a composição dos produtos exportados e a redução drástica dos custos do trabalho). O excedente primário projectado é de 3,8% em 2018. Há uma certa estabilidade política, o que na Grécia não é dizer pouco.

Em segundo lugar, o fim dos programas de assistência (três!) permite à Grécia, aos seus responsáveis e povo, decidir o caminho a seguir. A dívida grega é gigantesca, mas está escalonada para pagamento até 2060, com pagamentos anuais que podem variar entre mínimos de 2 mil milhões de euros e picos superiores a 10 mil milhões lá para meados da década de 50. E o nível dos pagamentos está ligado às taxas de crescimento anuais, nada impedindo novos reescalonamentos em função da forma como se portar a economia grega.

Em terceiro lugar, a velha questão das alternativas. Tivesse Varoufakis permanecido como ministro das Finanças, não houvesse Mecanismo de Estabilidade Europeia e FMI para acudir à Grécia num momento de extrema necessidade e o que teria sucedido? É sempre fácil prognosticar à posteriori e culpar a UE, mas quando a Grécia precisou a Europa ajudou, ainda que com condições e custos — que existem sempre em caso de ajuda externa, seja o apoio prestado por quem for (e quem precisa, precisa sempre desesperadamente de quem ajude).

Não tivesse havido resgate, o que teria sido da Grécia? Uma Venezuela, a Coreia do Norte? Ou a Turquia, esmagada pelo peso global de um dólar vingativo e sem soluções senão colocar-se nas mãos de Deus? Muito simplesmente, qual era a alternativa?

Não pagar a dívida? O cemitério das boas intenções está cheio de países que não puderam pagar as suas dívidas – ou as renegaram. A Grécia, parece, foi o primeiro país do Mundo a registar default (incumprimento soberano), em 377 A.C. Boa parte do declínio espanhol entre o século XVI e o XIX teve a ver com as 14 vezes que o país não cumpriu as suas obrigações creditícias. O incumprimento argentino de 2001 (95 mil milhões de USD!) foi um dos maiores da História, com consequências conhecidas.

Que fazer então? Optar por uma política expansionista em tempos de crise é resposta comum, que neste caso ignora o ponto de partida: a crise grega de 2009 está intrinsecamente ligada à fraqueza estrutural da sua economia, associada ao forte consumo privado e crescimento descontrolado do crédito, elevado consumo público e investimentos nos JO de 2004, “panem et circenses”, nada de novo. Inflação elevada, salários nominais muito acima da produtividade, corrupção, défices públicos gigantescos e, quando a crise chegou à Europa, a economia grega implodiu, provocando um tsunami financeiro (primeiro) e logo económico, que alastrou ao Sul do continente, incluindo Portugal, Espanha, Irlanda (a excepção geográfica) e Itália.

Claro que não fazia sentido aplicar receitas em boa parte responsáveis pela crise, era assim como receitar antibióticos à vítima de um excesso de antibióticos. E havia alguém no Mundo capaz de dar a ajuda de emergência que a Europa prestou e de que os gregos tão desesperadamente precisavam? Se havia, não se acusou (e não foi por falta de procura do governo grego e de… Varoufakis).

A culpa foi da Europa? O alastrar da crise está ligado à construção insuficiente da zona euro; não é possível instituir uma zona monetária e continuar a lidar com as partes como se não fizessem parte dela. É facto, mas também o é a incapacidade, e falta de vontade, dessas partes, os Estados-membros, de aceitarem tratar a eurozona como espaço comum, em que dívidas, crises bancárias, choques assimétricos, equilíbrio entre regiões deficitárias e regiões excedentárias fazem parte da equação. Acusar a integração europeia de não entregar o que promete ao mesmo tempo que se lhe nega os recursos para o poder fazer, é como levar uma criança diariamente ao MacDonalds (perdoe-se-me a publicidade) e acusá-la de engordar.

De Varoufakis às redes sociais, dos comentadores de esquerda, direita e extremas que se pronunciaram, todos parecem conhecer a solução mágica e quase todos culpam a União, como se não tivesse sido ela a salvar a Grécia (como Portugal, no seu tempo), de uma situação dramática causada PRINCIPALMENTE por si própria. Noutras circunstâncias, em conjunturas menos extremas do que a crise de 2008, esses países teriam recorrido à desvalorização, à impressão de dinheiro (e despesa pública), à emissão de dívida indexada à inflação e a outras soluções mais ou menos clássicas. Teriam também, como a História mostra, escondido de si próprios os problemas estruturais que levaram a essas situações, empobrecendo a prazo o povo e arrastando, para lá de horizontes temporais indefinidos, a dependência de demagogos e autocratas esclarecidos (e dos apostadores de fim de jogo).

Não, neste caso, apesar da estética duvidosa do vídeo do Presidente do Eurogrupo, não me parece que a máquina de propaganda utilizada tenha sido a norte-coreana.

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