Ao longo da nossa história tivemos sempre aspetos culturais que condicionaram as escolhas e as perceções acerca da felicidade e da forma de a encontrar.

Evoluímos de uma sociedade esclavagista, onde os vitoriosos agiam sobre os povos conquistados, criando sistemas de abuso e de supressão de liberdades sobre o povo para o dominar e na medida do possível o tornar submisso às mãos de déspotas, sob uma educação para o sacrifício e aceitação da dor como condição de sobrevivência e existência.

Depois tornámo-nos uma sociedade mercantilista, subordinada ao lucro como medida de todas as coisas, o determinismo social que se tornou o mito da organização social durante séculos.

Em seguida surgia a utopia da sociedade sem classes ou a utopia do Estado como senhor a que se destina todo o trabalho e esforço individual, legítimo agressor das liberdades individuais. Sob a sua ação cometeram-se genocídios, crimes horrendos sobre pessoas em todo o mundo, holocaustos visando a subjugação de pessoas e instituições, a exaltação de doutrinas desumanas que por pouco não dominaram o mundo todo, tornando-o um lugar sombrio para quase todos;

E chegámos aos anos 60 do século XX, com a emergência das sociedades de consumo, nas quais o que interessava era usar os bens da terra até à exaustão do planeta, sem a preocupação da preservação ecológica de sistemas, todos submetidos ao bel-prazer humano, um comportamento que aos poucos foi demonstrando a impossibilidade de sobrevivência de equilíbrios naturais.

Nada que não permitisse nova evolução de mentalidades, até chegarmos ao momento atual. Por todo o mundo, a começar nas sociedades mais desenvolvidas do ocidente, as pessoas agem de modo crescente como se a ciência, a cultura e os territórios que já conhecem, existissem para que cada um se divirta, usufruindo de liberdade individual. A sociedade como um todo parece agora uma organização para o divertimento, o fim último para que todos vivemos: sermos pessoas de sucesso, que se divertem sempre e onde em cada vida a dor e o esforço, a dedicação aos outros e a preservação da biodiversidade são um sacrifício dispensável e despropositado.

Faz-me lembrar o paralelismo com uma fábrica: assim como as máquinas existem apenas na lógica da produção e trabalham sem cessar, até que ficam obsoletas, sendo substituídas por outras mais sofisticadas, mais robustas e mais produtivas, enquanto as velhas vão para a sucata e destruídas em grandes fornos…

Assim parece o Homem: enquanto saudável e enquadrado na lógica da produção, tem lugar, é elogiado e premiado…, mas quando passa o tempo e se torna “obsoleto”, é retirado do seio da sociedade, colocado como sucata de família e da comunidade, não tendo outra alternativa que não o aniquilamento por eutanásia e… os fornos!

Enquanto isso, continuamos a divertirmo-nos, alheados desta lógica de que a nossa natureza humana implica ter todas as fases, do nascimento ao apogeu, como instrumentos de dignificação da nossa existência na ecologia humanas à qual pertencemos desde sempre e na qual devemos permanecer. Não faz sentido querer preservar o urso polar, a floresta amazónica, os rios e os desertos e mares como sempre os tivemos, e não querermos preservar o homem como criatura excecional.