A aproximação da hora terminal – bem como a sua ponderação – impelem, por vezes, a cogitar que o homem hodierno mergulha decisivamente no turbilhão das preocupações materiais, exibindo o esquecimento ou a desvalorização do que a sua natureza implica.

Nela, pulsa o mistério insolúvel da presença contraditória entre sofrimento e felicidade, dor e alegria, ódio e perdão, guerra e paz.

Sendo a vida do mundo meramente transitória, o choro e a revolta não fazem grande sentido quando motivados apenas pela concretização do estigma da morte. Todavia esta inevitável condição faz mossa, levando-nos intelectual e sentimentalmente, a ponderar sobre o mistério de um futuro desconhecido.

E aqui sim. Da persuasão que retirarmos das nossas congeminações, já poderão nascer (com ou sem justeza) choro e ranger de dentes, aceitação ou revolta, esperança feliz ou tristeza; e também a saudade por vezes em mistura contraditória de lágrimas e alegria.

Ainda que nascidos transitórios – para viver no mundo, com o mundo e pelo mundo – fomos indelevelmente marcados por uma aspiração transcendental; onde se conjugam a interrogação sobre o significado da existência e a sua hipotética subordinação ao desejo arreigado de um futuro que se desconhece.

E é também, com maior ou menor pressão, que não escapamos – ao conhecimento interiorizado do “Mal e do Bem”.

Bem este, que se não fica pelo pensamento espontâneo e se apresenta em conteúdo concreto – de formato não biunívoco – que evidencia uma tendência consensual de exigências de ordem prática: um conjunto de obrigações em que se não esqueça a justiça, a verdade e o serviço aos outros.

Aos outros, a quem devemos, primeiro, tratar como iguais – não lhes fazendo o mal que desejamos nos não façam – e depois, quando prevariquem, oferecendo-lhes o perdão e o castigo; sob o manto da fraternidade e na medida do impossível?!…

Quer dizer, ainda que nascidos transitórios e mundanos, a imensidão do universo e a incógnita da vida acordaram a apetência transcendental da nossa natureza para a especulação.

Assim apareceram e se estruturaram, historicamente a “Filosofia” (onde o pensador metafísico e a ética revindicam posicionamento) a “Ciência”, a “Estética” (com as suas figurações artísticas) e as “Religiões”; ou seja, as manifestações concretas, cujas especificidades inspiram e marcam as diferentes “Culturas” e “Civilizações”, onde nos acolhemos.

Estas realidades históricas convergem na particularidade, constitutiva e essencial da nossa natureza. Porque somos individualmente e coletivamente diferentes (o que aliás não é de estranhar e está em consonância com a diversificação do mundo) a referida diferenciação entre “Culturas” e “Civilizações” é o efeito natural, o fruto consequente da nossa realidade existencial.

Parece, pois, acertado considerar e defender que a condição humana – porque motor da aludida diversidade civilizacional – pressupõe comportamento consentâneo, que deve ditar as finalidades mais relevantes da atuação política.

Ora, enquanto fundamentação relevante, ela requer que – uma vez respeitados os ditames da boa fé – se aceite como verdade insofismável todas e cada uma das várias “Culturas” e “Civilizações”; e se procure o estabelecimento de pontes, entre elas, com vista a definir e estruturar o que as liga e une no desiderato do bem comum.

Há que tentar encaixá-las, fazendo-as viver lado a lado, num conjunto que é parte do mundo diversificado.

Neste enquadramento, a verdade é por natureza meramente relativa e nada será mais permissivo, para comprometer a almejada finalidade, do que considerá-la absoluta, defendendo-a ou impondo-a pela mão de fundamentalistas.

A realização do preconizado objetivo não só reclama a sintonia das “Vontades Políticas”, como comporta mil dificuldades de ordem prática e metodológica.

Todavia, se continuarmos sem desvendar o processo de superar a nossa presente e triste realidade, persistindo em descurar a paz e a interligação comunitária, continuaremos a comprometer a nossa descendência, estragando paulatinamente o mundo.

António Cruz Gomes é Advogado.