A ciclicidade do calendário político português é previsível: de quatro em quatro anos, resurge a narrativa de que os autarcas, particularmente os de municípios de menor dimensão, concentram a inauguração de obras no período pré-eleitoral. Será esta uma estratégia deliberadamente oportunista, ou antes o sintoma de uma patologia mais profunda do nosso ecossistema democrático, a miopia do eleitorado? Sustento que se trata predominantemente do segundo fator, um reflexo de uma cultura de memória curta e recompensa imediata, onde o assunto mais premente da agenda nacional raramente sobrevive uma semana nos noticiários.
Há poucas semanas, os canais de informação nacionais debatiam, como é habitual nesta altura do ano, as melhores estratégias de prevenção de fogos florestais. Bastou uma única tragédia de proporções significativas para ofuscar completamente essa discussão preventiva. O foco mediático e público deslocou-se integralmente para a resposta emergencial e para a comoção, enquanto as causas estruturais e as soluções de fundo caíram novamente no esquecimento. Este padrão de “atenção reativa” em detrimento de uma “memória preventiva” é replicável em diversos dossiês, desde conflitos geopolíticos até às crises nacionais, sendo amplificado pela lógica do clique e do ciclo noƟcioso de 24 horas.
Esta miopia não é um acidente; é uma característica sistémica. A ciência política explica a através do conceito de “horizonte de desconto”. Um estudo seminal do Prof. Allan Drazen da Universidade de Maryland e da Prof. Marcela Eslava da Universidade de Los Andes demonstra que os eleitores tendem a descontar o futuro, atribuindo um peso desproporcionadamente maior a benefícios recebidos imediatamente antes das eleições. Os dados mostram que, em média, um aumento de 1% no investimento público no ano eleitoral correlaciona-se com um aumento de 0,5 a 1% na votação do partido no poder. Embora também haja uma cota de culpa por parte dos media, a realidade é esta e sempre o foi.
Esta realidade reflete-se igualmente nos órgãos de soberania. Os governos, reféns deste ciclo, mostram-se avessos a implementar reformas estruturais cujos benefícios só serão colhidos a médio ou longo prazo. Enquanto não formos capazes, coletivamente, de valorizar a prevenção sobre a reação, continuaremos a ser um país de remendos, a correr atrás do prejuízo e a discutir problemas quando estes já deviam ter sido resolvidos. Daí a importância estratégica do ministério focado na reforma do Estado, que está agora em funções, e cuja eficácia prática se aguarda com expectativa.
O problema central destas reformas é que, salvo raras exceções, os seus frutos só amadurecem no longo prazo. Isto significa que o governo que as implementa dificilmente será aquele que irá colher os louros eleitorais. Mas, se ninguém tiver a coragem política para quebrar esta “ciclotimia governativa”, estaremos condenados a repetir, perenemente, os mesmos debates sazonais: no inverno, a saturação do SNS; no verão, os incêndios; no início de setembro, a escassez de professores. A crise da habitação, por seu turno, já escapou a esta sazonalidade, tornando-se um tema permanente, a prova definitiva de que, quando adiamos as soluções estruturais, os problemas agravam-se até se instalarem de forma crónica.
Será esta miopia uma falha do sistema, ou estaremos simplesmente a colher o tipo de governação que, enquanto eleitores, verdadeiramente premiamos?