Já tanto se leu sobre este assunto que não ia acrescentar mais nada, mas pensando que ainda não está tudo dito, resolvi escrever estas linhas.

A Igreja, instituída por Jesus Cristo, é boa porque Ele só faz coisas boas. Tudo o que vem de Deus é bom e por isso também a humanidade é boa. Acontece que o mal não vem de Deus, mas existe e, pela nossa liberdade, que é boa, pode ser praticado.

Dito isto, fica explicado o título: sabemos que a Igreja falhará, como sabemos que falha nos nossos dias e falhou no passado porque somos livres de escolher o bem e o mal. Quando optamos pelo mal destruímos aqueles que atingimos com o mal que fazemos e destruímo-nos a nós mesmos. E tragicamente todos estamos sujeitos à tentação de escolher o mal.

A palavra falha sabe a pouco quando nos referimos ao abuso de menores e não quero aligeirar o problema. O que se tem passado na Igreja é infame, envergonha-nos a todos e somos poucos para ajudar a corrigir, para pedir perdão, para construir um futuro melhor.

Digo nós, porque todos nós católicos somos Igreja, por isso a vergonha e o desejo de reparar e ajudar é meu também, é nosso. Não foi a Igreja que esteve mal, fomos NÓS Igreja que estivemos mal.

Tenho muito tristeza pela responsabilidade que me cabe. Para quem não é crente explico o que digo: a desolação que sinto é como se um filho meu tivesse abusado de menores, feito o que se diz de qualquer dos padres envolvidos. Seria uma sensação de ter falhado profundamente e de me custar olhar de frente para quem quer que visse. Mas, tal como acontece com os filhos, a desolação não contém desespero, mas sim esperança. Esperança porque nascemos com vocação para amar e não para maltratar, esperança porque tantas vezes caímos, mas outras tantas nos levantamos, esperança porque a obra de Deus é boa e vencerá.

O trabalho de investigação do Observador magoa qualquer católico. Mas a principal razão porque nos magoa é porque a verdade dói e neste trabalho ela é-nos atirada à cara de uma forma muito cruel. Não tenho qualquer objecção a este trabalho de investigação. E ainda que ele possa dar a entender que a extensão do problema, em número de casos, é maior do que na realidade é, isso não tem importância porque o que importa é o trabalho que todos nós Igreja estamos a fazer para atacar o problema. Por isso é com grande confiança que vejo muita coisa acontecer e a principal é a iniciativa do Papa de ter chamado todos a uma grande reflexão sobre o tema, sem esconder nem disfarçar a realidade.

Esta é grande diferença entre a instituição Igreja e qualquer outra instituição. Nós temos um desejo de bem, nós somos obra de Deus e por isso nós, com todos os erros que já cometemos, não desistimos de os corrigir e seguir, ajudando os que mais precisam.

Um dia escrevi neste jornal que tinha pena de não ver publicadas boas obras. Se o Observador quisesse criar uma equipa de investigação para saber o bem que a Igreja faz em Portugal, se quisesse ter um canal disponível para os leitores contarem casos em que a Igreja os salvou, recuperou, ajudou, não chegariam três meses nem três anos. Essa é a verdade que nos orgulha mesmo neste momento de grande vergonha.

A Igreja está em perigo porque a pretendem silenciar e denegrir, porque os valores que são os pilares da nossa sociedade estão a ser destruídos através da educação e da cultura, e não por ter errado. A Igreja sairá mais forte deste drama porque tem a coragem de se arrepender, de corrigir e de seguir a sua missão.

Não tememos pelos nossos erros por muito graves que sejam. Queremos que todo o mundo saiba que errámos, mas que vamos enfrentar os nossos erros, reparar o que for possível, prosseguir no que fazemos de bem encontrando forças para seguir na construção de um mundo melhor.