(Segundo o maior inquérito internacional realizado pela OCDE com professores do ensino obrigatório, um em cada três professores em Portugal queixa-se do ruído e desordem, perdendo agora mais tempo a manter a disciplina em sala de aula do que em 2018.)

Quando os alunos chegam à escola com rotinas sensatas de boa educação e há um conjunto de regras que lhes é pedido, “a lei da escola” deve ser entendida como uma gestão equilibrada dum professor, onde sentido de justiça, bondade e sabedoria se fundem para que se legitime a sua autoridade.

A palavra “autoridade” desencadeia, regra geral, algum mal estar em muitas pessoas. É claro que ela não pode significar autoritarismo. Mas pressupõe que o professor será o guardião duma ideia de escola que case instrução e educação.  A relação entre professor e alunos não tem de ser uma relação de iguais. Mas as regras que ele exige a uma turma têm de ter ancoradas nos seus bons exemplos para com ela.

A escola considera como alunos indisciplinados aqueles que perturbam, continuamente, as aulas. Os que boicotam, de forma voluntária ou involuntária, quaisquer estratégias pedagógicas que um professor entenda delinear para uma aula. Os alunos insolentes ou desafiadores. Os alunos agitados ou aqueles que perturbam o normal funcionamento da aprendizagem dos outros. É verdade que estaremos a falar de níveis de indisciplina muito diferentes. Mas todos eles exigem “à nascença” uma avaliação sensata e incisiva para que não se avolumem muito rapidamente.

É claro que uma turma do 8.º ano tem mais hipóteses de ser um bocadinho mais difícil e fervilhante que um grupo de crianças do 3.º ano, por exemplo. Isto é, a idade dos alunos; a forma como se constituem as turmas (às vezes, juntando alunos certinhos para um lado e alunos mais difíceis, para outro); o modo como se atribuem professores mais experientes às melhores turmas e professores mais jovens às turmas “desafiadoras”; a forma como se fala de inclusão e se colocam três ou quatro alunos com necessidades educativas especiais numa turma (às vezes, sem apoio técnico de retaguarda); a formação dos professores, etc., tudo pode contribuir para transformar as regras em indisciplina.

Também o excesso de horas de trabalho, a escassez de tempos de recreio, as exigências familiares sobre os resultados dos alunos, a fragilidade com que muitas famílias educam os filhos em relação aos “nãos”, às frustrações ou em relação à paciência, por exemplo, ajudam a que a indisciplina se torne mais fácil. Como alguma fragilidade com que um ou outro professor gere a autoridade em sala de aula a tornará, também. E a própria saúde mental deste ou daquele aluno. Se associarmos a isso a Impulsividade que resulta da relação frenética com o digital que os alunos têm, a impaciência, o sedentarismo, as carências sociais que vão acumulando, alguma hostilidade ou a forma como agem mais do que falam, fica mais claro que a indisciplina será, hoje, mais “fácil”. E aquilo que se exige a um professor muitíssimo mais desafiador.

A questão que se coloca é se os alunos estão mais difíceis ou os professores parecem ter comprometido as suas capacidades? Os alunos exigem cada vez mais clarividência, mais arrojo, mais equilíbrio, mais clareza e mais coragem a um professor. Logo, estarão, de certa forma, mais difíceis. E exigem muito mais dum professor.

A disciplina acaba por ser aquilo de que falamos quando a “lei”, na escola, já está comprometida. Logo, esta aragem de indisciplina compromete a aprendizagem. E compromete a relação professor/aluno como complemento incontornável do crescimento.

Daí que seja urgente dar aos professores os argumentos indispensáveis para que sejam melhores professores. Porque só assim se passa da insegurança que a indisciplina traz à escola à força tranquila que ela precisa de ter para que se torne melhor escola.