No mês de maio, o aumento da inflação voltou a surpreender. A estimativa apresentada pelo INE para a taxa de inflação aponta para um aumento de 8% do Índice de Preços no Consumidor relativamente a maio de 2021. Este é o valor mais elevado da taxa de inflação desde fevereiro de 1993. O primeiro impacto que todos sentimos, embora de forma desigual, é uma acentuada quebra do poder de compra. Em alguns inquéritos, os cidadãos de países europeus elegem a inflação como a sua principal preocupação (à frente da guerra na Ucrânia e da pandemia).

Nas últimas décadas habituámo-nos a taxas de inflação baixas, quase sempre inferiores a 2%. Com preços estáveis há menos incerteza e é mais fácil estimar despesas e receitas, ou seja, é mais fácil fazer contas. Essa previsibilidade torna o ambiente macroeconómico mais favorável ao investimento e ao crescimento.

Em 2021, por esta altura, a situação começou a mudar, mas o aumento dos preços estava circunscrito a alguns produtos e matérias-primas. No sector da construção, para alguns trabalhos, os orçamentos tinham a validade de 15 dias. Hoje, é preciso pagar no momento, se houver material disponível.

A inflação afeta de forma diferente as famílias das diferentes classes de rendimento. Enquanto durar, a inflação vai destruir riqueza e reduzir o rendimento das famílias. As mais afetadas são as famílias das classes mais baixas de rendimento, que com o aumento dos preços da energia e dos bens alimentares têm visto diminuir o seu poder de compra de forma galopante. O aumento dos preços dos combustíveis afeta mais as famílias que têm de se deslocar para trabalhar. Como sabemos, as famílias de rendimentos mais elevados, mais escolarizadas, beneficiam mais da opção do teletrabalho e é nelas que se concentram os veículos elétricos. Às famílias de rendimentos mais baixos sobram os transportes públicos, que continuam incipientes e à mercê dos interesses dos sindicatos.

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Enquanto a inflação durar, o Governo deve usar uma parte dos ganhos obtidos com a inflação para reforçar mecanismos de redistribuição que protejam o rendimento dos grupos sociais mais afetados.

Uma área que deve merecer especial atenção do Governo é a das cantinas escolares e do apoio no fornecimento de refeições a idosos. Estaremos certamente de acordo que os preços das refeições para as crianças, jovens e idosos que utilizam estes serviços não devem aumentar. No entanto, num contexto de aumento do custo dos bens alimentares, sem um reforço das transferências para as instituições de ensino e instituições de solidariedade social, a deterioração da qualidade das refeições será inevitável. Esta é uma área em que o Estado não pode falhar aos mais frágeis da nossa sociedade.

Nos últimos meses, os preços dispararam, tendo este aumento atingido a generalidade dos bens. Com todos os preços a variarem torna-se mais difícil tomar decisões, pois, como referi acima, é mais difícil estimar despesas e receitas. Num negócio simples, como o da restauração, a reação ao choque inicial no custo dos ingredientes foi oferecer pratos mais em conta e não mexer no preço. No grill da Universidade do Minho, onde costumo almoçar, há muitos meses que o robalo e a dourada saíram da ementa. Noutro restaurante, na semana passada, o dono dizia-me: ‘os clientes gostam muito de salmão, mas com o preço atual da diária não lhes posso dar salmão’. No entanto, quando o aumento dos custos se torna generalizado a sobrevivência do negócio obriga mesmo ao aumento dos preços. Perguntava-me o mesmo comerciante: ‘devo aumentar uns 10%, não acha?’.

Quando as margens estão esmagadas, os custos mais elevados têm de se refletir nos preços. O comerciante não pode perder dinheiro por refeição para não entrar em insolvência. Mas o aumento do preço pode levar os clientes a reduzirem a procura e a optarem por outras alternativas (lembram-se da marmita nos tempos da troika?). Quando isso acontece o comerciante pode ficar sem mercado e abrir falência. O aumento generalizado dos preços pode assim levar à redução da procura e provocar uma recessão, situação que os economistas designam de estagflação.

A estratégia de redução do ISP, ou de outros impostos, que tem vindo a ser seguida pelo Governo, é uma forma eficaz de mitigar o impacto do aumento do preço dos combustíveis. No caso das empresas com contratos com o Estado, estabelecidos antes do aumento da inflação, também faz sentido introduzir mecanismos de compensação nos preços contratados de forma a permitir que as empresas consigam acomodar o aumento dos custos. Caso contrário as empresas poderão não conseguir fornecer o serviço e entrar em insolvência. Este é um desafio que se coloca ao Governo no contexto da implementação do Plano de Recuperação e Resiliência.