Passei uma década da minha vida em Macau. Aprendi a viver aquela liberdade. Devo confessar que, não podendo afirmar que não era livre, trabalhando na comunicação social, havia um indisfarçável incómodo em falar sobre certos assuntos. Senti-o amiúde, mas tentei ser o mais livre que me deixaram. Em muitas estórias que escrevi e relatei, senti-me livre para fazê-lo, no entanto, a comunidade não chinesa representa uma parte tão pequena da população que dificilmente o impacto saía dessa pequena bolha.
Chegou o ano de 2019 e Hong Kong entrara num beco sem saída, isto já depois do bravo “Umbrella Movement” iniciado em 2016, que acompanhei, com a ascensão do tão jovem Joshua Wong.
A lei da segurança nacional que o governo central queria impor (e impôs), levou muitos milhares de pessoas às ruas em protesto, numa manifestação de cidadania das mais impressionantes que testemunhei em toda a minha vida. Contra a crescente influência de Pequim na prometida autonomia da região, não imaginariam que o caminho seria tão penoso, e nada voltaria a ser como antes. Eu também não imaginava.
Muitos dos que vivem em liberdade, com as “grandes liberdades” relativamente protegidas, talvez não imaginem o que é sentir este aperto na existência. A liberdade de expressão, a liberdade de reunião ou a liberdade de imprensa são indiscutíveis, mas ainda assim tão frágeis em tantas latitudes do globo.
Quantos saberão dizer pelo que trocariam a liberdade? Em Macau e Hong Kong, entre 2020 e 2021, foram muitos os que tiveram que se questionar sobre o que seria mais importante. A mão pesada de Pequim, a tempestade perfeita que foi a pandemia de Covid-19, precipitou essa decisão. Para uns a estabilidade familiar e, principalmente, financeira, falou mais alto. Para outros, imaginar uma vida pessoal e profissional com liberdades limitadas era uma cenário completamente impossível. Mesmo que isso trouxesse uma profunda incerteza financeira e familiar (em especial tendo como destino Portugal).
Foi o meu caso.
Pode pensar-se que os cataclismos da vida, quando auto-infligidos, requerem muita reflexão e ponderação. Eu diria que são fruto de um impulso, de uma inquietação, de uma certeza inabalável. A liberdade tem que ser esse grito que vem de dentro. Tem que ser a certeza que nos acompanha mesmo quando tudo é tão incerto.
A liberdade é a garantia que no fim tudo se ajeita.
Ser livre é o mais bonito que podemos saber ser.