Há uma ideia “muito moderna” de falar da família que, na maior parte das vezes, me deixa quase sem jeito. Como se modernas fossem as famílias que são descritas como “reconstruídas” (como se uma família fosse um exemplo de reabilitação urbana), onde marcam presença as madrastas e os padrastos, ou “os meus, os teus e os nossos” filhos. Ou modernas fossem as “novas famílias”, dando-se, com isso, ênfase às famílias homossexuais. Ou as famílias monoparentais. Ou, ainda, como se modernas fossem as famílias que resultam de relações que contrariam a velha máxima “quem casa quer casa”, onde duas pessoas namoram mas não coabitam, partilhando as suas famílias só de forma mais ou menos episódica.

É claro que a este modo muito “moderno” de ver a família se contrapõe uma ideia “tradicional” de família. Que tinha, num plano formal, uma mãe e um pai. Mas que, ao contrário daquilo que se dá a entender, nem sempre seria um local ameno e alegre, um reservatório de gestos de sensatez e de bondade ou uma história que se tenha construído à margem de “páginas em branco” ou de “páginas negras”. Fala-se de famílias modernas como se, em relação a muitos vícios de forma, as famílias “modernas” e as famílias “tradicionais” fossem muito diferentes. Como se, ontem como hoje, não houvesse famílias que são presépios de bondade e “reservas naturais” do amor. E famílias onde pais e filhos se desencontrassem uns dos outros. Onde há mães e pais que reclamam a família como a matriz de todos os laços mas que se mantêm ligados por carências que partilham, por interesses de que não abdicam ou por aparências para as quais contribuem. E em relação aos quais custa, até, imaginar se terão construído, alguma vez, histórias de amor.

Fala-se de famílias modernas como se hoje – como, aliás, acontecia dantes – as famílias não fossem, também, quem mais promove e alimenta a dor. E as relações familiares não exagerassem na forma como criam fissuras e fracturas, com que alimentam omissões, mal-entendidos, ressentimentos, ódios e rancores. É verdade que as famílias não precisam de ser perfeitas para que sejam família. Mas cultivar-se o Natal somente como “festa da família” não é ser-se muito moderno. Mesmo considerando os novos formatos de família, é fazer com o Natal aquilo que acontece com muitos casamentos, em relação aos quais as pessoas se recusam a optar entre entendê-los como um contrato ou como um sacramento, resumindo-os à festa; e nada mais. E, no entanto, “moderno” de verdade seria aceitar a família como o lugar do sagrado.

A família é, na verdade, um sacramento. Porque é a família que nos liga à fé: à fé nas pessoas, à fé no amor, à fé no bem e na bondade. É a família que nos abre para a magia de estarmos juntos e nos ensina a participar nos milagres e a reconhecermo-nos neles. É a família que nos dá vida, que nos torna jovens e nos faz eternos. E é a família que, sem hesitações, casa passado e futuro num único momento e, nessas alturas, faz com que não haja nem ontem nem amanhã. Mas sempre. Para sempre. Para todo o sempre! Daí que não se entenda que se fale da família como “a célula da sociedade”. Como se pode confundir “O céu” com as nuvens que o percorrem? Como se pode tomar o sagrado e a organização social como vizinhanças que se equivalham?

Uma família é um conjunto de pessoas ligadas por laços. É verdade que sim. Por “laços de sangue”. Por laços de afecto. Por laços simbólicos. Ou por laços de histórias. Onde não cabem pequenos laços e grandes laços. Mas laços. Só laços! Por mais que, no Natal, por falta de laços e por excessos de nós, sobrem os lacinhos. E abundem os laçarotes.

As famílias são importantes porque, para além de nos darem um lugar e de nos educarem a sensibilidade, elas nos dão, sobretudo, um código para o amor. Uma linguagem própria que “embrulha” aquilo que se sente. Que, se hoje as famílias “modernas” são mais abertas e mais reinventáveis, pode parecer mais difícil de conquistar. Embora mais entusiasmante de conseguir. Porque depende, claramente, da vontade de todos irem no sentido de construir uma “língua” mais plural que se recria e que os expande.

É difícil que, no meio das pessoas que compõem uma família, que todas criem laços. Sobretudo se, muitas vezes, entre elas se criam tantos incidentes que quase parecem não falar a mesma língua. Cada família tem um história própria. Mas tem, sobretudo, um olhar único que acaba por ser uma “língua materna” para quem faz parte dela. O que sendo precioso faz com que, mal lá chegue alguém de novo, possa fazer de muitas verdades de uma família alguns mal-entendidos. Todas as famílias são diferentes. Mas na forma como alimentam os seus mal-entendidos são mais que semelhantes; são muito iguais. Como se não falássemos, uns com os outros, a mesma língua.

A língua materna não é o idioma com que falamos, desde sempre. Nem “a língua da mãe”. É a língua daquela mãe e daquele filho “naquele momento” em que constroem “aquela língua”, um para o outro. Daí que entre uma mãe e vários filhos haja várias línguas maternas. Será, pois, normal que à língua materna de um filho com a sua mãe um pai não consiga aceder, muitas vezes, por exemplo. Sendo assim, numa mesma família falam-se muito mais “línguas” do que parece. É por isso que uma família alargada mais se assemelhe a uma sociedade de nações. E que seja da intersecção de todas as línguas que a compõem que uma família crie a sua própria língua. Talvez, então, o desafio maior que todos teremos passe por reconhecermos que ao sagrado se chega quando as pessoas de uma família constroem e recriam a “língua materna” “daquela” família. Que as faça entenderem-se, em quaisquer circunstâncias. Que fará, só por isso, com que, de cada entendimento, se chegue ao Natal. A “língua materna” de cada família será, assim, o advento. O caminho que se percorre até se chegar ao Natal.

Moderno será, finalmente, deixar de fazer do Natal só uma festa. E assumi-lo, antes, como um advento. O caminho que nos leva ao sagrado. Com o advento chega-se ao Natal e à festa. Já entrando no Natal, sobretudo, pelo lado da festa, sejam modernas ou tradicionais, talvez as famílias não cheguem, sequer, a ser uma família. Porque lhes falta uma língua materna comum. Que só depois de criada nos dará o código com que se chega ao amor. E ao Natal.