Assinala-se mais um Novembro Azul e, com ele, regressa o olhar sobre a saúde dos homens. Este mês tem servido para quebrar preconceitos, reduzir resistências e lembrar a importância das consultas de rotina. A campanha, que nasceu focada no cancro da próstata e dos testículos, começa agora, embora timidamente, a abranger outros problemas muitas vezes ignorados, como a obesidade e as doenças cardiovasculares. É um avanço, mas não chega. É preciso transformar esta mobilização pontual num movimento contínuo, que promova o conhecimento e o cuidado com a própria saúde ao longo de todo o ano.
A literacia em saúde masculina é um território ainda por desbravar. Continuamos sem rotinas de vigilância específicas, sem consultas regulares de prevenção e sem campanhas permanentes que informem e desmistifiquem o funcionamento do corpo masculino. A prevenção não pode viver de iniciativas esporádicas. É necessário um trabalho contínuo de educação e acompanhamento porque a saúde reprodutiva e sexual também é um pilar de bem-estar.
Sabemos hoje que a maioria dos homens portugueses desconhece doenças que afetam o seu aparelho reprodutor e que podem ter impacto direto na fertilidade, na vida sexual e na qualidade de vida. Mais de 40% dos inquiridos no estudo ‘Atitudes em relação à fertilidade masculina’, realizado recentemente pela GFK, afirmam nunca ter ouvido falar de termos como orquite ou epididimite. Esta falta de conhecimento traduz-se num acompanhamento médico quase inexistente: os homens só procuram ajuda quando o problema já é evidente.
O défice de informação atravessa gerações, mas acentua-se entre os 40 e os 50 anos, precisamente a idade em que muitos procuram ser pais. Quase metade dos participantes desconhecem o que é a epididimite ou a ejaculação retrógrada. Mesmo doenças sexualmente transmissíveis, como a gonorreia, continuam fora do radar de muitos.
Mais preocupante é perceber que a desinformação não se limita às doenças. Apesar de reconhecerem os riscos do tabaco, do álcool e da má alimentação, os homens continuam a ignorar fatores como o sedentarismo, a obesidade e a idade, todos eles com impacto direto na fertilidade e na saúde sexual. Falta-lhes, em suma, uma cultura de prevenção.
Enquanto as mulheres crescem com uma rotina de consultas de ginecologia e rastreios regulares, os homens ficam à margem desse acompanhamento. É uma desigualdade que se reflete na prática: sem contacto regular com profissionais de saúde, não recebem a mesma quantidade de informação preventiva, não aprendem a observar sinais de alerta e chegam, frequentemente, tarde demais ao diagnóstico.
Neste contexto, o Novembro Azul deve ser mais do que uma data simbólica. Deve marcar o início de um compromisso duradouro com a saúde masculina, um compromisso que envolva campanhas regulares, políticas públicas e uma nova forma de encarar a prevenção.