Quando estas palavras forem lidas, os atletas qualificados aos Jogos Olímpicos já estarão em casa. A cada um de vós, sem diferenciação, o meu profundo obrigado por me representarem naquilo que é a maior demonstração de competição em paz que o planeta conhece. Também aos familiares que os suportam e aos treinadores que os treinam, o meu mais sincero obrigado. E como agradecimentos me parecem pouco para o empenho que colocaram, achei que vos devia um pouco mais.

Por isso, depois de feitos os agradecimentos aos protagonistas, gostava de dirigir algumas palavras aos figurantes: às pessoas que, como eu, ficaram sentadas no sofá à espera que as medalhas aparecessem, com uma pequena declaração de interesse. Sou pai de um jovem atleta de alta competição que ambiciona, um dia, estar presente numa edição dos Jogos. Mas, ao mesmo tempo que é uma declaração de interesse, é também um testemunho de quem partilha uma vida de um atleta de modalidade amadora.

Um amigo fazia-me notar que Portugal estava em 70º lugar em medalhas, como se fosse uma coisa má. É mau, não pelas medalhas, mas por aquilo que a falta de medalhas significa. E não é mau se olharmos para o que fizemos por isso. É, aliás, extremamente injusto para países onde o desporto faz parte da educação e não tiveram a sorte da Telma ter nascido lá. E este é o meu ponto. Sim, eu sou pai de um atleta de alta competição, mas porque é que você, que me está a ler e tem o filho no mesmo sistema educativo, não é?

O Secretário de Estado do Desporto dizia há dias, em resposta a uma afirmação perfeitamente lógica do Rui Bragança do taekwondo de que não continuaria a pedir dinheiro aos pais para a alta competição, que as condições são aquelas que um país com poucos recursos tem. Primeiro, isto não é verdade porque o montante gasto anualmente na reposição de salários aos funcionários públicos pagava uns Jogos Olímpicos inteiros. Segundo, porque nem sequer é esse o ponto. O governo poderia dar as melhores condições do mundo a cada um dos qualificados que isso não mudaria em nada as medalhas, porque o empenho dos atletas em nada mudaria. Se alguém pensa que miúdos de 18 anos treinam quatro horas por dia, seis dias por semana por causa de dinheiro, então não percebe nada do que está em causa.

Como pai de um que pode vir a ser olímpico, e espero que o pai do Rui não se incomode com o que vou dizer, se os nossos filhos fazem alta competição é porque escolheram, porque têm jeito e porque nós, pais, podemos pagar por isso. E pagamos porque o desporto faz parte da educação do ser humano. Tal como a generalidade dos praticantes de alta competição das modalidades amadoras, o Rui é bom aluno na escola e o meu filho também. Não significa que todos os atletas são bons alunos, mas são melhores alunos que se não fossem atletas. E este é o ponto que parece escapar ao Sec. de Estado e à generalidade dos portugueses. Nós não temos muitas medalhas porque a nossa educação é má. A nossa medalha, que trazemos agarrada à camisola há décadas, é a do pior sistema educativo da Europa.

Como tudo o que é mau na educação portuguesa, as dificuldades são ultrapassadas pelos naturalmente excelentes e pelos que têm dinheiro para as ultrapassar. Os naturalmente excelentes procuram a prática das atividades desportivas profissionais onde o desporto se confunde com o espetáculo e que são servidas por um mercado maduro de transferências, como é o caso do futebol. Os que têm condições financeiras seguem a sua educação, desportiva ou não, fazendo uso dos recursos que existem fora do sistema educativo. Como exemplo que conheço, a esgrima é fornecida apenas pelas escolas militares e por clubes privados como o Atlântico ou o Ginásio Clube Português, tirando alguns esforços pontuais de professores praticantes que tentam levá-la às escolas públicas do estado. O cenário é igual em quase todas as outras modalidades olímpicas (e não olímpicas).

Como resultado, conseguimos ter atletas do melhor que há no mundo, mas muito poucos. Somos mais que os holandeses, os dinamarqueses, os austríacos, os suecos, os suíços, etc. e, no entanto, qualquer um destes países tem mais do triplo das medalhas olímpicas que Portugal. Para uma representação olímpica ao nível da Islândia, deveríamos ter 260 qualificações e tivemos um terço. E isto dá-nos uma ideia de quantos matemáticos, físicos, químicos, etc. de nível mundial produzimos a menos, porque o sistema educativo que é mau para uma coisa, é mau para as outras. Este é o cenário que parece escapar ao Sec. de Estado e aos demais portugueses. Medalhas não são nada quando comparadas com aquilo que a falta de medalhas representa.

Continuando com as afirmações do Sec. de Estado, eu recordaria que o ministério de que ele faz parte está a esforçar-se para acabar com contratos de associação com colégios que supriam a falta de educação desportiva da rede do estado. Foi inclusivamente referenciado, à laia de crítica, que um desses colégios “até hipismo e esgrima tinha!”. Mas, para um país medalhado com o pior sistema educativo, não passa pela cabeça de ninguém perguntar porque é que todas as escolas não têm hipismo e esgrima (ou vólei, ou golfe, ou ténis, …). Para nós, o fundamental é olhar para isso como um luxo absurdo ou pior, como foi o caso, retirar a esses porque os outros não têm. Os pobres que se lixem, fazem esgrima com canivetes e hipismo nas motas roubadas. Esta nossa medalha não veio por sorte, veio porque a merecemos.

Enquanto cidadão e empresário tenho patrocinado alguns eventos amadores e apelo aos demais portugueses que também o façam. Deixemos as grandes marcas meterem a sua imagem por detrás de um sujeito que diz “protantes” e ajudemos os que se esforçam por serem atletas e bons alunos. E pedem tão pouco. Às vezes é só uma taça, umas barritas para darem aos mais novos, umas t-shirts para darem aos mais idosos. Eu também gosto de torcer pelo Benfica, uma coisa não impede a outra. Mesmo se for um fanático do Benfica, vá apoiar os atletas que fazem outras coisas no clube.

Enquanto escrevia este texto passou-me pelos olhos um artigo de um conhecido comentador que se dispôs a gozar com o canoísta Fernando Pimenta por causa da entrevista que ele deu depois de ter ficado em 5º. Não sei se o senhor em causa se considera entre os cinco melhores jornalistas do mundo, mas atendendo que escreveu em tempos que todos os políticos deviam ser como Artur Batista da Silva, diria que também tem os seus dias menos bons. Por isso, e porque não precisamos de lutar pela medalha da estupidez, gostava de terminar com as palavras do triatlonista João Pereira. Medalhas? Tentem criar uma empresa do zero e façam dela uma das três melhores do mundo para verem se é fácil.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer