1 A metade do país que mora à direita do PS saiu com pouco tecto e chão movediço destas eleições. Entre o desastre e a abstenção conclui-se que talvez mais de dois milhões de portugueses não tenha quem os represente politicamente.

O PSD? Não me parece. O CDS? Está em extinção. A Iniciativa Liberal? Seduz mas precisa de tempo e assinatura. O Chega? Melhor não embora atraia. Marcelo? Nunca esteve para aí virado (só se não vier a ter outro remédio, devido ao lugar político onde vai querer deixar os seus).

E assim sendo, a pergunta não me surge como ociosa: quem representa hoje politicamente aqueles que não se sentem representados pelo estado de coisas vigente?

2 Detalhando: tanto quanto se observou o PSD de Rui Rio preferirá sempre o conforto amorfo do centro. Um poiso de eleição. O alcance político de liderar uma frente que federasse com visão e substancia toda a direita inscrevendo-a num bloco e conduzindo-o, é coisa que não puxa nem comove Rui Rio. Pelo contrário: agirá por si, sozinho, dançando por vezes com Costa se este achar conveniente convidá-lo para uma valsa patriótica. O CDS vai fazer tudo como se não estivesse em extinção – um Congresso, outro líder, um novo programa, algum assomo de resistência — mas a irreversível contagem decrescente em que entrou a 6 de Outubro, mostrará a dificuldade do gesto. A Iniciativa Liberal tem de mostrar que não é um epifenómeno simpático, magna empreitada. A sua campanha desenvolta e imaginativa, a escolha inteligente de bandeiras indispensáveis como a necessidade crucial de mexer na carga fiscal é um bom principio. Faltam os outros.

O Chega, pelo contrário, não é um epifenómeno e só não o via chegar quem não queria. Faz hoje um arranjão á esquerda que o amplifica quanto pode, convencida que o ácido sulfúrico que lhe deita para cima o fará vergar ou ao menos minguar. Não fará nem uma coisa, nem outra, André Ventura — mais estruturado do que a esquerda admite e lhe consente — destoa o suficiente do “boneco” que dele se vende para que a caricatura se virasse ao contrário: quem vilipendia Ventura da forma ficcional como o faz, provoca mais aflição do que o medo que ele pode (?) fazer. É obra!

O certo porém é que se a entrada de dois-deputados-dois, no espaço à direita do PS provocou um quase imperceptível outro “ar” — no parlamento, na discussão política, nos écrans — tudo isso contará pouco ou nada para a saúde da direita se ela não se juntar e reinventar politicamente. Cuidando do que deve ser cuidado, que o mesmo é dizer travando a meticulosa corrosão dos alicerces culturais e civilizacionais do que fomos e somos. De outra forma, não só o PS — hoje já indestrinçável do Estado — nos “ocupará” até à eternidade, como uma considerável parte do país continuará fora do circuito político-partidário (à espera dos melhores dias que se encarregará de formatar). Até lá estará á margem da escolha e da decisão políticas, de fora do próprio destino do país. Uns, por orfandade, outros por inteira falta de identificação com o que “está”. Mas quando alguém voluntariamente prefere exilar — se ou procura a expatriação intramuros, há que perceber porquê e depois tirar conclusões, algumas incómodas. Estamos a meio caminho disso.

3 Sobre tudo isto – que é triste – há o ambiente em que se vive, obviamente não alheio ao fastio de muita gente pelos pratos políticos servidos. Extraordinário ambiente. Não me lembro de tempos assim, tingidos por uma perturbação no seio da qual, de repente, qualquer ser racional já compreendeu que tudo — do mais imbecil ao mais indecente, passando pelo mais nocivo — pode acontecer. Com glória e aclamação. Anda-se às apalpadelas numa sociedade de contornos subitamente dificilmente reconhecíveis: pelo que impõe, pelo que subverte, pelo que inscreve como norma, pelo que passou a vigorar como comum. Não há referências para a transformação em factos consumados de certas “estranhezas” com aliás pouca tradição entre nós — o país de um dia para o outro dividido entre racistas de um lado e antirracistas do outro? — nem acaba a perplexidade face á facilidade da sua entrada em cena: muito pior do que as continuadas “acusações” de que o comum dos mortais tem sido alvo; do que as constantes intimações à vergonha pelo nosso passado com apressadas novas versões da nossa identidade nacional a serem distribuídas na escola pública; do que o triunfo arrogante de certos novos costumes, é o efeito disso num país indiferente. E o seu poder de contaminação numa sociedade civil alheada. Qualquer dia alguém se lembrará de mandar rasgar a bandeira, pondo expeditamente outra “a uso” ou aumentará os decibéis do tom em que evolui o debate público, a troca de gravíssimos insultos e obscenas acusações, o ódio e o acinte, sem que ninguém pestaneje. O país está civilizacionalmente a deslassar mas no “espírito do tempo” o único factor não deslassado é o policiamento do pensar e a urgência de agir segundo novos mandamentos e cânones radicais (muitos não votados) e de novo me espanto por não saber o que mais surpreende, se o activo controlo exercido sobre quem não os professa ou pratica, se a indiferença sonolenta que os acolhe.

4 A não ser que. A não ser que não seja bem assim e aquilo que confundo com sonolência ou desinteresse seja afinal uma forma de indignação. Uma muda, inorgânica recusa ao actual estado da política e que a recusa um dia veja a luz do dia. Não já através dos partidos tradicionais ou “antigos” mas em novas formas de organização partidária, nos novíssimos acabados de aterrar, em outros que venham a surgir mas com os quais haja o que deixou de haver: uma convicta identificação que conduza a uma representação política, digna desse nome. E nesse sentido – mas não sei — podemos estar a assistir a algo de novo, mesmo que ainda muito incipientemente novo. Como aquela ligeira corrente de ar a que aludi acima, trazida para o palco da política por duas caras novas fora de um jogo já muito jogado. Um jogo exausto e sediço onde muito provavelmente também se inclui o resto, que já pouco convoca: as (tíbias) elites, os senadores desactivados, as associações que se consentiram a si mesmas perder a voz e a influência no país, uma media complacente ou jubilosamente complacente, uma sociedade civil amorfa.

E um país a necessitar de ser outro.