Visitei a América por três vezes durante o mandato de Trump. Como de costume, andei pelas costas Leste e Oeste e pela maioria dos estados do Sul. Só em uma ou duas ocasiões me lembrei, ou me lembraram, da existência do presidente. Lá, esse não era grande assunto. Cá, era o assunto, com frequência único em matéria internacional. Ao longo de quatro anos, as aventuras de Trump encheram resmas de noticiários caseiros, implacáveis com o governo americano, alheios aos governos venezuelano, russo ou chinês, e submissos ao português. Trump, aliás, serviu para isso mesmo, para evitar o escrutínio de um poder que, nas mãos do PS e com a conivência do prof. Marcelo, se tornou absoluto e absolutamente corrupto. Os “telejornais” daqui abominavam Trump. Os políticos daqui abominavam Trump. Os comentadores daqui abominavam Trump. Uma professora do secundário contou-me que até as criancinhas, dotadas da sabedoria de uma Greta, esperneavam nas aulas à menção do bicho-papão. Para o português médio, Trump representava o Mal, e o contraponto grotesco a um primeiro-ministro com um projecto totalitário e a um chefe de Estado que vive numa dimensão paralela e aprecia despir-se perante as câmaras.

É naturalíssimo que a nossa esquerda – anti-americana, passe a redundância – odeie Trump, como de resto odiava Bush filho, Bush pai, Reagan e etc. (o PCP, honra lhe seja feita, odeia todos os inquilinos da Casa Branca, e o BE abriu uma ligeira excepção para Obama, porque é meio negro). E é uma demonstração cabal de que, sob a bazófia, Trump teria algumas virtudes. Trata-se de um pressuposto simples: se os que odeiam a América odeiam Trump, a derrota de Trump é má para a América, no sentido de que poderá transformar-se naquilo que os respectivos inimigos desejam. Não é uma hipótese delirante. O pobre sr. Biden levará para Washington a vanguarda da intolerância cultural que aguarda, e começa a ter, uma oportunidade por estes lados. A reboque do coitado, ascenderá uma cáfila curiosa de inquisidores “sensíveis”, Torquemadas das “causas”, fanáticos que queimam os livros que os ofendem, adversários da arte, da ciência e da história, fascistas nas vestes e nas cabeças que chamam fascistas aos democratas, a gente bruta, ignorante e crente em dogmas absurdos que ironicamente Hollywood associa aos “rednecks” das berças. Hoje, apesar dos pesos e contrapesos que distinguem o regime dos EUA da cloaca lusitana, os camisas pretas das cidades, e das universidades, são um perigo muito maior. Pelo menos para quem preza a liberdade.

Liberdade. É também natural que a nossa esquerda se arrepie ao ouvir a palavra na acepção devida (por oposição a slogans de louvor marxista). Não é, ou não deveria ser, natural que a nossa “direita” alinhe na cartilha. Não se pedia à nossa “direita” que se entusiasmasse com Trump, um egocêntrico antipático que não matou, prendeu ou calou ninguém. Bastava que não se entusiasmasse tanto com o ódio a Trump, e o amor aos furiosos que rodeiam o sr. Biden, empenhados em calar, prender e, se lhes derem trela, matar hereges. Infelizmente, a nossa “direita” decidiu provar à nossa esquerda que não lhe fica atrás no concurso para apurar quem detesta Trump com maior ardor.

Num caso flagrante da síndrome Rui Rio, a nossa “direita” sofre de uma patológica necessidade de que a nossa esquerda a aceite, sacrifício que a esquerda cumpre com nojo e admissão restrita aos espécimes mais reverentes. A aversão a Trump é uma regra indispensável num clube cujas regras a esquerda define. Sob pena de exílio, é proibido elogiar Trump, é proibido possuir uma opinião acerca de Trump que se afaste do insulto ou da chacota, é proibido fugir à definição de Trump imposta pelos donos do pensamento “aceitável”. O exercício descamba em figuras tristes – ou engraçadas, de acordo com a disposição. Vejo nas “redes sociais” criaturas normalmente sensatas que ameaçam  abrir champanhe (não abrem: é apenas para criar boa impressão) para celebrar a derrota desse monstro da mentira e do populismo, um monstro que, curiosamente, não manda neles e não lhes fez mal nenhum. E isto para agradar a um gangue que manda neles e os prejudica sem parança e com gozo. A nossa “direita”, comportadinha e deferente, é gozada pela esquerda. E merece.

No limite, eu nem estranharia que a nossa “direita” rejeitasse Trump, na convicção, evidentemente desmiolada, de que o actual partido democrata americano é ajuizado o suficiente para conter o socialismo que por lá saltita, sempre que não está nas ruas a demolir coisas. O principal problema é a nossa “direita” rejeitar o malvado Trump com um zelo que não usa para rejeitar os fabulosos estadistas que se dão ao incómodo de governar Portugal. A nossa “direita”, que não acha Trump civilizado, convive jovial e literalmente com socialistas, comunistas, bloquistas e vigaristas em geral, todos modelos de civilidade e sofisticação e verdade. Se comparada com a meticulosa exigência que dedica à América, é notável a frouxidão da nossa “direita” face à corrupção, ao despotismo, às fraudes e à desgraceira que definem o seu próprio país.

Um dia, se um historiador com tempo livre quiser perceber a facilidade com que a esquerda tomou conta deste lugarejo, e o afundou de vez na miséria mental e económica, não vale a pena recordar-lhe os Costas, os Sócrates, os Marcelos, os Césares, os Ferros, os Louçãs, as Catarinas, os Jerónimos, os Salgados e restante casta. Basta mostrar-lhe a nossa “direita”.