A ordem internacional nascida após o fim da Segunda Guerra Mundial, preparada na Primavera de 1945 em Ialta, e consubstanciada na Carta e na Organização das Nações Unidas, morreu. O século XXI tornou-se num século onde reemergem os conflitos internacionais, onde a realpolitik toma conta da actualidade e onde os recursos e a geografia, mais do que as ideologias, constituem o móbil da acção. A invasão da Ucrânia pela Rússia, marcou um ponto charneira, num mundo continuamente marcado por conflitos civis, sobretudo em África e na Ásia, mas desde 1945 relativamente esporádico em conflitos internacionais, sobretudo depois do fim da URSS.

A geopolítica, a ciência maldita de Kark Haushoffer, durante algum tempo apelidada de “ciência nazi”, abafada depois da derrota da Alemanha, ganha a cada dia um renovado protagonismo. Mostra que a geografia determina as opções políticas e estratégicas, independentemente de quem governe determinado país. A própria administração Trump, cujo movimento de base, o MAGA, é claramente anti-intervencionista, em oposição aos neo-conservadores e ao complexo militar dos EUA, cede às grandes constantes da política externa dos EUA, nomeadamente o controlo do Hemisfério Ocidental, dos pontos nevrálgicos de passagem do comércio internacional, como estreitos e canais e o controlo de fontes de matérias-primas e às directivas de um dos mais importantes geopolitólogos ao serviço dos EUA nos últimos cinquenta anos: Zbigniew Brzezinski, autor da basilar obra The Grand Chessboard – American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, infelizmente não traduzida para português. Cercar e isolar a China e a Rússia, limitando o acesso da Rússia ao mar e limitando a influência da China à Ásia, impedindo-a de tornar-se numa potência global. É neste âmbito que devemos analisar as acções de Washington na Síria, na Venezuela, ou relativas ao Irão.

A operação de grande envergadura e milimétrica execução levada cabo pelas forças armadas dos EUA sobre a Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro e mulher, sob acusações de liderança de um cartel de droga, de introdução dessa droga nos EUA, bem como tráfico de armas e introdução de quadrilhas nos EUA, foi mais um golpe no direito internacional e na estrutura de poder resultante do fim da Segunda Guerra Mundial. É certo que os EUA sempre intervieram abundantemente em países terceiros, sobretudo nas Américas, fosse com o pretexto da luta anti-comunista, da democratização ou por motivos humanitários. Agora, não há subterfúgios, é um exercício de poder realista numa competição por primazia e por recursos, movimentações estratégicas para reduzir a influência chinesa e russa no Hemisfério Ocidental, e controlar de alguma forma as reservas venezuelanas de petróleo, as maiores do mundo. O enfraquecimento do regime chavista, que se vê forçado a reforçar as exportações de crude para os EUA e que tem milhões de barris acumulados devido às sanções, e a afastar-se dos seus clientes dos últimos tempos, como a China e Cuba, e das parcerias estratégicas com a Rússia e o Irão, é um sinal claro da vontade de Washington em ressuscitar a Doutrina Monroe, proclamada pelo presidente com esse apelido, em 1823, segundo a qual “a América é para os americanos”, americanos aqui leia-se Estados Unidos da América. Depois da operação contra o regime chavista, países com historial de grande produção ou contrabando de drogas, como a Colômbia ou o México, onde existem poderosos cartéis do narco-tráfico, foram também visados verbalmente pelo presidente Trump, e podem sofrer no futuro intervenções militares, destinadas a aplicar um golpe duro no tráfico de droga. O regime de Havana também foi visado, uma espinha que nunca deixou de causar constrangimento aos EUA, sobretudo pela vergonha do fracasso da invasão de Cuba, em 1961, no âmbito da Operação Mangusto. Venezuela, Nicarágua e Cuba, os aliados de Pequim e Moscovo no Hemisfério Ocidental estão sob mira americana, e se no caso da Rússia se trata de parcerias estratégicas e acesso a portos e bases, no caso da China é ao fornecimento de petróleo venezuelano, que agora fica em perigo.

O governo norte-americano também não se absteve de pressionar o governo canadiano, de lamentar o crescendo de influência chinesa em portos e infra-estruturas panamenhas, ameaçando retomar o controlo directo do Canal do Panamá, vital para o transporte de mercadorias entre as duas costas dos EUA, e tornou a realçar as ambições de Washington, sobre a Gronelândia, território autónomo debaixo da soberania do reino da Dinamarca, que ganha importância à medida do avanço do degelo, seja pelas suas importantes reservas minerais, incluindo terras raras, o que permitiria acabar com o domínio chinês nessa matéria, seja pelo controlo de novas rotas marítimas, que permitam ligar o Atlântico ao Pacífico, através de rotas polares ou sub-polares, e que a Rússia tem usado para ligar os seus portos árcticos, como Murmansk, à China.

Também o conflito entre Israel e uma panóplia de adversários, muitos deles actores por procuração do Irão, como o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iémen, o regime sírio de Bashar Al-Assad ou milícias xiitas no Iraque e mais tarde com o próprio Irão, com os primeiros confrontos directos entre o país persa e os israelitas, tem marcado esta década, assim como o curto conflito entre a Índia e o Paquistão, entre 7 e 10 de Maio de 2025, espoletado por acções terroristas na Caxemira.  Uma situação explosiva, dado que ambos os passeios possuem arsenais nucleares e o conflito traduziu-se em ataques intensos com recurso a drones, foguetes e mísseis, aviões e ciberguerra. Uma guerra travada atempadamente pela mediação do presidente Trump. Ou a Segunda Guerra do Nagorno-Karabakh entre a Arménia e o Azerbaijão, vitória azeri com o apoio de mercenários e da Turquia, recebendo muito armamento da Turquia, de Israel e do Egipto. Entre 19 e 20 de Setembro de 2023 o Azerbaijão esmagaria a República de Artsakh, recuperando o total controlo sobre o Nagorno-Karabakh, e esmagando a irreconhecida república, apenas reconhecida por três outros territórios de estatuto internacional similar: a Transdnístria, a Ossétia do Sul e a Abkhazia. Estes três territórios, embora com certo nível de independência de facto, são na verdade protectorados ou Estados-clientes da Federação Russa. Desde 2021 o Azerbaijão tem ocupado territórios da própria Arménia e não tem contado com ajuda que possa inverter essa tendência, por parte do seu mais forte aliado, a Federação Russa. Uma forte instabilidade na zona, aparentemente temporariamente esquecida pela Rússia, mas cujos planos geopolíticos e desejos históricos incluem o controlo da Geórgia e da Arménia, assegurando uma ligação directa terrestre ao Irão, e com ela acesso aos mares do Índico, saídas marítimas que a Rússia procura desesperadamente, pois reduziram-se bastante com a queda da URSS.

Com uma economia afectada pelas sanções e pela desvalorização acelerada do rial, o governo de Teerão enfrenta fortes protestos e vê na entrada nos BRICS + e na Organização de Cooperação de Xangai tábuas de salvação. A China é a principal cliente do petróleo iraniano e existem oleodutos para garantir o abastecimento, mesmo em situação de crise no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, transporte o petróleo iraniano até ao Golfo de Omã. Devido às sanções, há muitas vezes transbordo de crude entre petroleiros, uma espécie de frota-fantasma, para camuflar a real origem do petróleo. A Índia também tem reforçado as suas ligações comerciais com o Irão, importando combustíveis e outros sub-produtos do petróleo, frutos secos, minerais e materiais de construção e exporta para o Irão alimentos, sobretudo arroz, mas também outros cereais e açúcar, borracha, maquinaria, veículos e seus sobresselentes e produtos farmacêuticos. A Guerra dos Doze Dias em 2025 mostrou que nem a Rússia nem a China parecem ter a força ou a vontade para intervir a favor de Teerão e que o Irão está basicamente sozinho. Para a China o Irão é um fornecedor de petróleo barato, de importância para Pequim, já para a Rússia o Irão é muito mais vital. Além de fornecer drones e mísseis balísticos para a guerra na Ucrânia, o Irão fornece uma via terrestre para a Índia e mais além, e portos no Golfo Pérsico e no Índico, para embarque das exportações russas e para apoio logístico às operações da marinha russa nesse oceano.

Com o Mar Báltico transformado num lago da OTAN e o Mar Negro como zona de guerra e facilmente bloqueável no Bósforo e nos Dardanelos, a Rússia tem procurado novas rotas terrestres para os seus maiores clientes, a China e a Índia, imunes a bloqueios inimigos. Se através da Turquia consegue exportar gás para o Sul da Europa e o Norte de África, contornando as sanções, novas ligações rodoviárias, ferroviárias, de gasodutos e oleodutos, ligam a Rússia siberiana à China, para exportação de petróleo, gás, minérios, carvão, trigo e soja. O Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, que vai de São Petersburgo ao Irão é assim vital, transportando exportações russas pelo rio Volga até Astrakhan e depois cruzando o Mar Cáspio para o Irão, cruzando o país até aos portos de Chabahar ou Bandar Abbas, seguindo daí por mar até Bombaim. Um regime pró-ocidental ou pró-americano em Teerão cortaria essa ligação vital para a Rússia e reforçaria o isolamento do país.

A eleição de Trump veio reforçar o nascimento desta Nova Era Imperial, com os Estados Unidos, a assumir de facto uma postura de controlo efectivo do seu continente, uma política intervencionista cara aos neo-conservadores de Washington, mas não às bases do movimento MAGA, depois de longos fracassos como as intervenções no Iraque e no Afeganistão. Marco Rubio toma um papel preponderante como falcão, podendo ser o candidato preferido dos Republicanos para futuras eleições presidenciais, em detrimento de Vance, que tem uma postura diferente. Nesta era mediática, os jogos de poder da maior potência do mundo desenrolam-se diariamente perante os nossos olhos.

Pelo lado da Rússia, fala-se em Ialta II, numa nova divisão do mundo em esferas de influência das grandes potências, e elas são, actualmente, os EUA, a China, a Rússia e a Índia. Embora estas três últimas integrem e sejam o motor dos BRICS, com importantes iniciativas económicas e financeiras, como o sistema BRICS Pay e a criação de uma unidade de moeda dos BRICS, há importantes desavenças territoriais e fronteiriças entre a Índia e a China, que levam a escaramuças na fronteira, sendo que a maior das últimas décadas ocorreu em 2020 no Vale de Galwan, com dezenas de mortos. Com o Nepal, também a Índia mantém contendas territoriais e sobretudo com o Paquistão, em torno do glaciar de Siachen, do estuário de Sir Creek e da Caxemira.

A China também possui vastas áreas em disputa, sobretudo no Mar do Leste da China, no Mar do Sul da China, na fronteira sino-indiana, mas também nas fronteiras sino-butanesa e sino-birmanesa. No Mar do Leste da China, as disputas são sobretudo com o Japão, mas também Taiwan, em relação às ilhas Senkaku/Diaoyu, estando em jogo o controlo de rotas marítimas, bancos de pesca e o potencial de reservas de petróleo da zona. O Japão, na senda de uma alteração profunda na sua política de defesa, com a sua Estratégia de Segurança Nacional, de 2022, face às movimentações russas na Ásia, ao regime militarista da Coreia do Norte, e ao seu arsenal balístico e nuclear e, acima de tudo, ao crescendo da ameaça chinesa, com o seu programa de construções de porta-aviões e as missões da marinha chinesa cada vez mais longe do seu território. Foi uma alteração significativa da doutrina militar japonesa, passando de uma doutrina puramente defensiva para o desenvolvimento de capacidades de contra-ataque, aumentando para o dobro até 2027, os gastos com a defesa, alcançando 2% do PIB japonês. O Japão deseja adquirir dos EUA aviões F-35, já comprou mísseis de cruzeiro Tomahawk, enquanto desenvolve o míssil doméstico Tipo-12, anti-navio, e deseja dotar-se de porta-aviões e de outras novas unidades navais, incluindo submarinos.

Já no Mar do Sul da China, as disputas centram-se nas ilhas Spratly, nas ilhas Paracel e nalguns recifes, com a China a reclamar quase 90% da área disputada em oposição ao Vietname, a Taiwan, às Filipinas, à Malásia, ao Brunei e à Indonésia. Não é alheio a isto o facto de a Indonésia ter adquirido em 1993 uma parte significativa da frota da República Democrática Alemã, num total de trinta e nove navios e, no geral, uma corrida aos armamentos no Sudeste Asiático, que incluem uma reaproximação do Vietname aos EUA, o desenvolvimento das capacidades de fabrico local de Taiwan, e mesmo as Filipinas, procuram aumentar as suas capacidades navais e aéreas, mudando um foco de décadas na luta interna anti-guerrilhas, para a ameaça externa chinesa, aprofundando a sua cooperação com os EUA, com o Japão e com a Austrália.

Embora tenham condenado as acções americanas na Venezuela, na prática a China e a Rússia veem nisso um precedente que pode ser usado para legitimar as suas próprias acções, sob a capa do combate ao terrorismo, das acções preventivas, da auto-defesa contra actos militares, terroristas e de tráfico. A Rússia tem a sua esfera de influência sobre os países da Comunidade de Estados Independentes, sobretudo na Ásia Central, mas também no Cáucaso e na Europa de Leste, com a grande proximidade à Bielorússia. Não desistiu de recuperar a sua influência na região do Cáucaso, nomeadamente sobre a Arménia e a Geórgia, como já dissemos, apoiando a criação de Estados-vassalos como a Abkhazia e a Ossétia do Sul, e no Leste da Europa sobre a Transdnístria, ameaçando o flanco leste da Moldávia e agindo sobre a Ucrânia para recuperar população, recursos agrícolas e minerais e controlar uma parte mais significativa do Mar Negro, sobretudo a Crimeia. Por seu lado, a China, que recuperou por via pacífica Hong Kong e Macau, vê como assunto interno o que chama de recuperação de controlo sobre a “província rebelde” de Taiwan, possui amplas reivindicações de áreas marítimas e terrestres na sua vizinhança e vê o Pacífico e o Sudeste Asiático como as suas áreas de influência e domínio, por oposição aos EUA. Recordemos que Singapura é um terceiro Estado chinês, com grande influência económica no Sudeste Asiático e no controlo dos Estreitos de Johor de de Singapura, este último parte do extenso sistema do Estreito de Malaca e o porto de Singapura é um dos mais importantes do mundo em volume de carga. A Índia é muitas vezes o fiel da balança, alinhada algumas vezes com as potências eurasiáticas e noutras com os EUA ou a UE e fomentando o alinhamento e desenvolvimento do Sul global, que gostaria de liderar. Não se pode afirmar que a Índia tenha ambições imperiais, mas tem disputas territoriais para resolver e não vai abdicar do seu domínio sobre o Oceano Índico, vital para a sua segurança e do seu comércio marítimo.

Por outro lado, vai-se instalando lentamente um sistema financeiro que alguns apelidam de “Bretton Woods III”, um sistema que vai nascendo em diversos pólos e iniciativas, afastando-se das moedas fiducidárias, nomeadamente do facto do actual sistema estar baseado no dólar e nos Títulos de Tesouro dos EUA. A perda de confiança nos EUA enquanto parceiro, nomeadamente pela congelação de activos, sanções económicas, dependência do sistema SWIFT, tem levado a uma desdolarização da economia mundial, e a uma redução do ritmo ou mesmo inversão do rumo em direcção à globalização. Moedas como o rublo e o yuan têm sido utilizados cada vez mais em pagamentos internacionais. A digitalização soberana também tem sido um caminho seguido, com o euro digital, o previsto início do real digital este ano de 2026 e o rublo digital deverá ser também uma realidade, estando já a ser usado a nível governamental, uma ferramenta para independência económica e contorno de sanções económicas, uma reacção também à panóplia de criptomoedas privadas. Modelo intrinsecamente inflacionário pela volatilidade dos preços das matérias-primas, aumento de gastos militares e reforço de linhas logísticas, cada vez mais vulneráveis, num mundo em conflito. Ouro e prata recuperam parte do seu papel histórico como garante de divisas e outros materiais, como cereais, petróleo, e metais críticos assumem um papel cada vez maior, num sistema parcialmente baseado em commodities. A BRICS+ Unit é um instrumento monetário para o comércio intra-BRICS+. O principal propósito é ultrapassar o sistema financeiro baseado no dólar USD. O seu valor será baseado segundo uma regra de 40/60, com 40% em ouro físico e 60% em divisas dos membros dos BRICS +, incluindo o real, a rúpia indiana, o yuan, o rublo e o rand. Numa situação de defensiva estratégica, a Rússia e a China veem aliados cair, mas apostam na criação de alternativas ao dólar, e nas tensões entre os diversos aliados dos EUA ou mesmo nas tensões internas causadas pelas intervenções militares de Trump e o custo financeiro que isso acarreta.

A Europa, preterida pelos EUA em favor do Pacífico, onde surge o grande desafio chinês, e das zonas do mundo ricas em recursos naturais, vê-se disputada entre as zonas de influência de Moscovo e de Washington, sendo que Trump não parece disposto a continuar a assumir a parte mais significativa das despesas e dos efectivos da OTAN. Os interesses dos EUA sobre a Gronelândia, algo que o governo dinamarquês e os locais innuit contestam fortemente, cria uma tensão na OTAN, depois das discussões sobre contribuições financeiras e dispositivo militar. Uma tomada de posição agressiva como seria respondida pela OTAN? Seria o fim desta organização? Ou tudo se reduziria a palavras ensaiadas de protesto e indignação? A invasão russa da Ucrânia veio confirmar, que a Europa, ocupada durante décadas com um wokismo auto-destrutivo e iniciativas loucas de engenharia social, estava desarmada, indefesa. Sem um pilar de defesa europeu, sem equipamentos militares, mesmo sem munições para um conflito. Agora tenta recuperar o tempo perdido, investimento muitos milhões de euros na compra de material bélico e munições, na modernização dos seus exércitos à luz das lições aprendidas com a guerra no Leste, nomeadamente guerra de drones, capacidades anti-mísseis e anti-drones, ciberguerra, capacidades de luta contra guerra híbrida. Além do mais é um continente depauperado, atingido por tendências inflacionárias e aumento das taxas de juro, por uma transferência de fundos para investimentos sociais, dirigidos agora para o sector da defesa e para o apoio à Ucrânia. Por outro lado, as sanções e a suspensão, da importação de gás russo, vital para o coração industrial europeu, na Europa Central, levou ao aumento das importações de Gás Natural Liquefeito dos EUA, da Noruega e de países do Golfo Pérsico, de África ou da Ásia, com um acréscimo de custos. O nosso continente está assim vulnerável em termos de matérias-primas e desindustrializado, depois de décadas de deslocalizações para a China, para o Sudeste Asiática, para os EUA, para países do Magrebe. Urge reindustrializar a Europa e tomar medidas para que a independência energética e alimentar seja a maior possível. Num mundo onde novas potências emergem no horizonte, a Europa ainda é um colosso cultural, com a sua rica História e Arte, mas um anão militar e, ficando para trás economicamente, será também, cada vez mais, um anão político. Na verdade, não se perfila no horizonte uma ameaça russa à OTAN, pois seria um suicídio estratégico. Além do mais, a Rússia está exangue, enfraquecida por anos de uma guerra de posições sangrenta na Ucrânia, com imensas baixas humanas e materiais, desmoralização das tropas, e consecutivas falhas na logística, no comando, no treino e na rotação de tropas. Por outro lado, a Rússia é bastante auto-suficiente, inclusive em alimentos, embora continue a importá-los, nalguns casos, de parceiros como o Brasil e a África do Sul, exportando para esses países fertilizantes e no caso da África do Sul, trigo. A própria indústria militar russa está em esforço, não conseguindo assegurar armas e munições para o combate, dependendo de compras à Coreia do Norte (pagas troca por troca com alimentos, petróleo, sistemas de armas avançados e tecnologia), ao Irão, à Bielorússia, à Birmânia, à África do Sul ou mesmo à Síria, e as próprias reservas, herdadas da URSS têm sido destruídas na voragem das frentes ucranianas.

Regressamos, em 2026, a um mundo pré-Sociedade das Nações, a malograda antecessora da ONU, idealizada pelo presidente dos EUA, Woodrow Wilson, com base no Tratado de Versalhes, mas condenada à partida, pelo facto dos EUA nunca terem aderido e de a Alemanha e a URSS se terem retirado da mesma. É um mundo mais perigoso e mais conflitual, uma Nova Era Imperial, na qual a diplomacia e o direito internacional ficam para trás em favor do domínio das grandes potências assente nos factores do hard-power, em direcção novamente ao estado de natureza descrito por Thomas Hobbes.