A guerra da Ucrânia veio reforçar aquilo que a pandemia do Covid-19 já tinha revelado: a Europa passou, nalgumas décadas, de continente dominante a continente enfraquecido.
Em Maio de 1945, os canhões calavam-se por fim na Europa, mas mesmo as potências europeias vencedoras, como a França e a Inglaterra, não tinham motivo para grandes festejos. A vitória, de facto, era dos EUA e da URSS, que dividiriam entre si o controlo sobre o Velho Continente e depois criariam as suas esferas de influência no mundo. Vivia-se uma época em que a China e a Índia eram ainda países sub-desenvolvidos (no caso da Índia Britânica aprestava-se para a independência, dividindo-se depois em três países: Índia, Paquistão e mais tarde Bangladesh) e o Japão estava arrasado por anos de guerra e pelos bombardeamentos de larga escala sobre as suas cidades, incluindo as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Em 1989, como se sabe, iniciou-se o colapso do bloco comunista, com a simbólica queda do Muro de Berlim, mais tarde a reunificação alemã, o fim do Pacto de Varsóvia e a desintegração da União Soviética. Era o tempo da unipolaridade, da hegemonia norte-americana, e das suas intervenções apresentadas paradoxalmente como humanistas/policiais, em locais como o Iraque ou o Afeganistão. Ambas os teatros de operações revelaram-se desastrosos para as forças de Washington e a retirada foi levada a cabo desses dois países, deixando-os mergulhados em contendas internas e numa instabilidade ainda mais perigosa. O Iraque, cujo povo é maioritariamente xiita, foi atirado para os braços do Irão, cujos aiatolas, são os líderes espirituais dos muçulmanos xiitas, e o Afeganistão, o “cemitério de impérios”, que já tinha derrotado o Império Britânico e o Império Soviético, continua foco de instabilidade para os vizinhos Paquistão e Irão, e tem sobre si os olhos de potências vizinhas, como a China ou a Rússia, enquanto os talibãs têm mão livre para restrições cada vez mais apertadas e estapafúrdias sobre a sociedade local, com base na sharia.
Ao mesmo tempo que os EUA se enfraqueciam com desastrosas intervenções militares, demasiado onerosas e a milhares de quilómetros do seu solo, e absurdas políticas económicas e sociais neo-liberais, de braço dado com tendências progressistas, outros concorrentes emergiam na cena internacional. A China, depois de um período muito conturbado sob a batuta de Mao Zedong, procurou outros caminhos, nomeadamente sob a direcção de Deng Xiaoping, que entre 1981 e 1989 desempenhou o cargo máximo na liderança do país, levando a cabo profundas reformas estruturais e estabelecendo o lema “um país, dois sistemas”, já pensando na reintegração dos territórios de Hong-Kong, Macau e Taiwan. A reintegração dos dois primeiros aconteceu efectivamente, em 1997 e 1999 respectivamente, e a reintegração do terceiro é desígnio nacional e desejo reiterado de Xi Jinping. A revolta de Tianamen veio abalar o regime de Pequim, sendo reprimida pelas autoridades, com um cômputo de muitos mortos e feridos. Contudo, o regime seguiu adiante, apostando na modernização tecnológica, no crescimento económico e no reforço militar.
A própria Rússia, tendo sofrido uma derrota colossal com a derrocada do seu império velho de séculos, mergulhava num período de instabilidade, por um lado tentada a abraçar a democracia liberal de modelo ocidental, por outro a reconstruir parcialmente a sua influência sobre as regiões vizinhas, enquanto sofria com os seus próprios separatismos, sobretudo na instável região montanhosa do Cáucaso, e com a rapina voraz de oligarcas e de máfias que surgiam como cogumelos no espaço ex-soviético.
Por seu lado, a Europa, depois de 1945, tinha percebido em boa parte o carácter suicida de um novo conflito entre a França e a Alemanha e procurado a integração do continente, primeiro através de iniciativas económicas como a CECA e depois a CEE, que foi crescendo e ganhando ambições políticas consubstanciadas na União Europeia e no euro enquanto moeda comum. Concomitantemente, estava sob o guarda-chuva nuclear dos EUA, com alguma capacidade de dissuasão limitada por parte do Reino Unido e da França, que, sob a liderança de De Gaulle, chegou a retirar-se do comando militar da OTAN, em 1966, só regressando em 2009, numa tentativa, vemos hoje pouco frutífera, de granjear independência defensiva.
A pandemia de covid-19 já tinha mostrado as fraquezas europeias e os deméritos da globalização, que durante duas décadas tinha sido apregoada como panaceia. Imensamente dependente do gás e do petróleo vindos do exterior e tendo deslocalizado grande parte das suas indústrias para países asiáticos como a China e a Índia, a Europa via-se à mercê de confinamentos que afectavam os transportes marítimos e percebia que estava dependente de países longínquos até para consumíveis e equipamentos médicos como máscaras e os tão procurados ventiladores. Chegava enfim o reverso da medalha, a venalidade dos líderes europeus apresentava a sua factura.
No dia 22 de Fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, contra as previsões de muitos dos especialistas na matéria e deixando bastantes pessoas perplexas. O que se pensava pudesse ser uma guerra breve, arrasta-se há mais de três anos. Zbigniew Brzezinski, geopolítico americano, que foi Conselheiro de Segurança Nacional durante o mandato presidencial de Jimmy Carter e o organizador por detrás da Comissão Trilateral, organização com o fito de estreitar a cooperação entre os EUA, a Europa Ocidental e o Japão, em conjunto com o banqueiro David Rockefeller, na sua obra indispensável The Grand Chessboard: American Primacy and Its Strategic Imperatives, publicada em 1997 e infelizmente nunca traduzida em Portugal, afirmou que a perda da Ucrânia tinha sido o maior golpe material e moral para a Rússia e que não seria de espantar que a Rússia tentasse retomá-la um dia. A Ucrânia era a jóia da coroa da União Soviética. Não só pela sua extensão e ricos recursos minerais e agrícolas. Nem só pelo seu enorme parque industrial, com algumas das maiores fábricas do mundo, sobretudo indústrias pesadas ligadas ao sector militar, à siderurgia e à indústria química. Também pela sua população, eslava e ortodoxa, próxima em muito da população russa e pela sua importância geopolítica, dando acesso terrestre à Europa de Leste e controlo sobre uma parte importante da costa do Mar Negro, contrapondo países da OTAN ribeirinhos ao Mar Negro, como a Roménia ou a Turquia.
O deflagrar deste novo conflito em larga escala, depois da sangrenta guerra nos Balcãs que desmembrou por completo a Jugoslávia, sem, contudo, dirimir por completo os problemas na região, com as tensões crescentes entre sérvios e albaneses no Norte do Kosovo ou os desejos independentistas da República Sérvia da Bósnia, apanhou a Europa completamente impreparada e enredada num déjà-vu que fazia lembrar os tempos da Guerra Fria, de novo comprimida entre Washington e Moscovo. Recordemos que durante esse período, se tivesse havido um conflito entre os EUA e a URSS, mesmo que não escalasse até ao patamar nuclear estratégico, a Europa Central e de Leste teria sido o teatro de ferozes batalhas entre as forças terrestres da OTAN e as do Pacto de Varsóvia, com o provável uso de armas nucleares tácticas, que teriam devastado, mais uma vez, o coração da Europa. Isto parecia claro nos planos militares soviéticos e americanos.
Com exércitos depauperados, arsenais muito limitados e uma mentalidade em Bruxelas de adormecimento, de desleixo e de mero carreirismo, a Europa via com apreensão o caos que se instalava no Leste, com uma mole de refugiados ucranianos a chegar às fronteiras de países como a Polónia, a Hungria ou a Roménia e espalhando-se um pouco por toda a União Europeia, e depois, do outro lado do Atlântico a caricata presidência de Biden, um homem já demasiado envelhecido e não muito lúcido, a que se seguiu Trump, igual a si mesmo, volátil e polémico, nunca se sabendo bem, talvez nem ele, o que vai fazer a seguir.
Foi neste contexto, que muitos decisores políticos começaram a perceber, que a Europa está indefesa. A culpa não é apenas de um despesismo exagerado com o tão apregoado Estado social, criando-se uma verdadeira multidão de subsídio-dependentes em muitos casos, mas de opções políticas totalmente erradas, acreditando numa qualquer doutrina utópica de paz perpétua ou num conjunto de pretensos valores europeus, que não são mais do que um decalcar dos valores progressistas, a que os anglófonos chamam woke. A tal colecção de valores, perfilhados por Lagarde, von der Leyen, Kallas e por uma galeria de figuras mais ou menos sinistras, que têm burocratizado, incapacitado e descaracterizado a Europa, faria morrer de susto os muitos milhões de europeus que viveram entre o despontar da civilização minoica, baseada na ilha de Creta, cerca de 2700 a.C., e que constituiu a primeira civilização europeia e os nossos dias pós-modernos. De igual modo também não são os valores que se encontram nalguns testemunhos maiores da Antiguidade europeia, e que devíamos estudar e acarinhar, como a Ilíada, a Odisseia ou a Eneida.
A votação dos norte-americanos em Trump para um segundo mandato, mesmo depois de toda a polémica relacionada com a invasão do Capitólio, em 6 de Janeiro de 2021, veio trazer uma nova realidade à cena internacional. Mais instável e imprevisível, envolvida numa guerra comercial, que Trump tinha prometido há muito, num momento em que os EUA parecem querer esquecer parcialmente a Europa, concentrando os seus recursos no Pacífico, enfrentando o verdadeiro desafio à sua hegemonia, a China. Acompanhando essa viragem há anos em curso, Trump efectuou declarações mais ou menos escabrosas, em relação ao desejo dos EUA de controlarem a Gronelândia, de novo o Canal do Panamá ou até o Canadá. Por outro lado, a visita do vice-presidente dos EUA, Vance, à Alemanha, no âmbito da 61.ª Conferência de Segurança de Munique, fez soar os alarmes em várias capitais europeias, pelo seu discurso crítico do retrocesso democrático na UE e pela crescente perda de liberdade de expressão para todos aqueles que se atrevem à dissidência contra o rumo progressista de Bruxelas, citando até o exemplo do candidato Georgescu na Roménia. Ele foi impedido pelos tribunais de concorrer de novo às presidenciais do país, depois de o Tribunal Constitucional da Roménia ter anulado os resultados da primeira volta das presidenciais, na qual Georgescu terminou em primeiro lugar. A administração americana também criticaria mais tarde o processo judicial com fins políticos que condenou Marine Le Pen e o partido Rassemblement Nationale, e todos os rumores em torno da possível ilegalização na Alemanha do partido Alternative für Deutschland. Em diversas capitais europeus o discurso de Vance foi visto como o início de uma nova etapa nas relações transatlânticas, de uma guerra ideológica ou de uma guerra cultural entre Washington e Bruxelas.
A eficácia da OTAN era assim colocada em causa, e com o aparente interesse da administração Trump em resolver o conflito russo-ucraniano, cortando substancialmente o financiamento e o apoio militar a Kiev, a Europa via-se assim catapultada para a primeira linha do apoio à Ucrânia, sobretudo ao nível de milhares de milhões de euros, mas também de material militar, do qual a Europa necessita desesperadamente para si, de modo a manter uma capacidade defensiva autónoma. Parece ser quase consensual a narrativa, entre as mais altas figuras da UE, de que a Europa está em grande perigo por causa de uma hipotética invasão por parte da Rússia, que depois de cilindrar a Ucrânia (o que está bastante longe de acontecer) entraria pelos países bálticos, pela Roménia ou pela Polónia (ou mesmo pela Moldávia), em direcção à Europa Central.
Seja como for, apesar de algum alarmismo e da aparente preparação de planos de contingência, de folhetos para distribuir às populações, de abrigos anti-aéreos e de kits de emergência, o facto é que os países da Europa não têm efectivos, equipamento ou munições, nem para uma guerra limitada, muito menos para algo de grande envergadura. Isso está associado à deslocalização da indústria da Europa, sobretudo a indústria pesada e, agora, é às pressas que se converte parte da produção de indústrias civis para empresas militares, sobretudo em França, a maior produtora europeia de armamento e na Alemanha, onde a Rheinmetall tem convertido indústrias civis para a produção de armas e onde a indústria automóvel, a exemplo da França, tem sido transformada para aproveitar o excedente de capacidade de produção. Isto vem numa altura em que a indústria automóvel europeia está em crise, devido à entrada no mercado de marcas chinesas muito competitivas, aproveitando também mão-de-obra qualificada de empresas como a Volkswagen, a Bosch ou a Continental.
Como é que a Europa pode reemergir? Em primeiro lugar, a Europa tem de decidir se quer apenas reforçar o pilar europeu da OTAN, ou desenvolver uma capacidade europeia de defesa autónoma, distanciando-se do espírito da Guerra Fria, durante a qual a Europa se encontrava na linha de tiro dos EUA e da URSS, sujeita a ser apanhada no fogo cruzado. Para poder ser uma potência política e manter alguma influência no âmbito das relações internacionais, a Europa tem de reindustrializar-se, reduzindo a sua dependência estratégica do estrangeiro, nomeadamente de países asiáticos, como a China e a Índia e outros que emergem. Por outro lado, não basta pôr as indústrias europeias a produzir uma panóplia de armas, é necessário também o acesso a energia relativamente barata e nisso a Europa tem de inovar e de criar alternativas. Não pode estar dependente do petróleo vindo do volátil Médio Oriente ou de outros países imersos em permanentes crises de instabilidade. Além do mais, a Europa perdeu o acesso ao gás russo, que alimentava as indústrias alemãs e de grande parte das necessidades domésticas e fabris do Leste da Europa e não pode depender dos EUA para o fornecimento de combustíveis fósseis, mais caros e que têm de atravessar o Atlântico.
A Europa potência é possível, desde que o Velho Continente deixe cair a pesada carga da culpabilização europeia, certas ideias progressistas e woke e se decida a erguer a espinha de novo, deixando de ser subserviente a quem quer que seja. Para tal, é necessária coesão. Uma Europa a duas velocidades, com países de primeira e de segunda categoria, em vez de ser benéfica, poderá reanimar velhos fantasmas, com os desejos do novo chanceler alemão, Merz, de que a Alemanha aumente a sua despesa e produção militares e que se rearme, mesmo que sozinha, vistos com alarmismo em Paris e em Varsóvia. A Polónia é outro dos países europeus que tem reforçado as suas forças armadas e que não só tem desejos revanchistas contra a Rússia, mas principalmente contra a Alemanha. Estadistas precisam-se! Os países europeus isolados pouco contam hoje, e a Europa caminha para a irrelevância, mas tem capacidade para ressurgir enquanto potência.