Fundamental nas sociedades não é apenas o reforço continuado da liberdade de pensar, mas que ela incida no que é verdadeiramente importante e, por essa razão, tende a permanecer latente, recalcado, escondido, envergonhado, dissimulado. Expor o lado oculto que sustenta as inevitáveis relações de poder de uns sobre outros permite melhorar atitudes e comportamentos quotidianos que fazem a prosperidade dos povos. Neste jogo, a diferença entre ricos e pobres torna-se irrelevante.

A austeridade constitui um ponto bom de partida. Há várias gerações que os professores do ensino básico e secundário ensinam que, a partir do século XVI e na sequência da reforma protestante, espoletaram atitudes e comportamentos austeros, cujo impacto cultural transformou a Holanda e a Inglaterra nas sociedades mais livres, dinâmicas e prósperas da época, poder esse que acabaria por se projetar por séculos.

No século XXI, em países com tradições culturais muitíssimo mais frágeis, a poderosa elite bem-pensante tudo faz para transformar o significado cultural da austeridade numa ‘coisa má’. Todavia, enquanto referente orientador de atitudes e comportamentos quotidianos, a austeridade pode ser a ‘coisa má’ e o seu contrário. Muito mais o seu contrário conforme comprova qualquer manual básico de história. O sucesso de tal elite significa, por isso, vivermos amarrados a um modelo cultural que tem latente uma remota ancestralidade medieval paradoxalmente presente em discursos dos que se autoproclamam progressistas anti-austeritários.

Os indivíduos, tal como as sociedades, podem viver condicionadas por obsessões, paranoias, incapacidade de lidar consigo mesmos. Esse estado favorece as fugas ao real e ao tempo presente explicadas por Carlos Amaral Dias. O psicanalista refere que é bem mais provável o indivíduo ser afetado por descompensações quando, perante um conjunto de acontecimentos que o perturbam, fica aprisionado a interpretações redutoras: “Bion diz que um paciente chega a análise com seis factos, cada um com uma versão, e está verdadeiramente em análise no momento em que passa a ter seis versões para cada facto – expandiu o campo da significação” (“Freud para além de Freud”, 2000, p.147). A ultrapassagem do estado patológico está, portanto, associada à relação bem mais fértil, fecunda e equilibrada do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com o mundo que o rodeia. É para isso que serve o divã.

O princípio continua válido quando se transita do indivíduo para o coletivo. Problemático é que as gerações passam e a sociedade portuguesa (como outras) permanece tentada por uma forte pulsão para seguir escolas ou doutrinas de pensamento único por responsabilidade das suas elites intelectuais, académicas, políticas ou culturais, as que tutelam, alimentam e condicionam o pensamento de senso comum. Neste particular, o 25 de Abril de 1974 não mudou nada de substantivo.

Amadurecemos o suficiente para saber que, por um lado, da história que está nos livros, o que mais pesa é o sentido do decurso do tempo que passa para o senso comum e, por outro lado, as relações de poder do presente são fundadas em interpretações seletivas do passado. Estão sempre em causa núcleos traumáticos ou sensíveis da memória coletiva em que as razões e as paixões são, ao mesmo tempo, contraditórias e fortes. Por isso, não existe outro caminho de sanidade civilizacional que não seja o da legitimação de diferentes versões sobre um mesmo fenómeno.

E não é qualquer tema ou fenómeno histórico e social que importa. O que bloqueia um muito maior dinamismo e renovação intelectual e cultural é o tipo de gestão social de pouquíssimos mas significativos referentes-chave. Entre os portugueses são o Estado Novo (em particular o salazarismo), o ‘colonialismo’, a pobreza, o racismo, a desregulação do sistema de ensino. Admito que se possa incluir mais um ou outro núcleo-chave, mas não serão muitos mais. Seguindo a lógica psicanalítica, o caminho passa pela legitimação social de diferentes versões (‘seis’) interpretativas para cada um desses fenómenos.

São os bloqueios à expansão dos ‘campos da significação’ neste domínio que evidenciam quem pertence à casta superior pensante e quem fica remetido à ignóbil ralé. Ultrapassar este estádio implica ter consciência de que vivemos mergulhados numa patologia coletiva e, como consequência, minimizá-la passa por sermos bem menos tolerantes aos maniqueísmos simplórios dos discursos de grande parte das elites sobre questões sociais sensíveis e, por isso, complexas. Tal primarismo constitui um dos fatores que mais trava a prosperidade. Por ser por demais séria, a questão justifica uma profunda reinvenção intelectual, académica e cultural, uma vez que a prosperidade depende da ambivalência, complexidade ou abertura com que o pensamento coletivo, como o individual, lidam com o meio envolvente.

Neste jogo, tem sido também problemático o papel do sistema de ensino. A pulsão maniqueísta, indissociável do radicalismo ideológico, tornou-se tanto mais vincada, agressiva, barulhenta, estéril quanto mais escolarizados são os indivíduos. Ou seja, os que hoje dominam um maior número de conhecimentos formais não são necessariamente os que estabelecem relações ambivalentes, isto é, inteligentes com os inúmeros e contraditórios significados da vida quotidiana. Dois olhos servem para ver a coisa e o seu contrário.

Anos e anos de trabalho de campo em Moçambique demonstraram que, face a assuntos sensíveis (como a herança colonial portuguesa), é muito mais ambivalente e complexo e, por isso, bem mais rico o pensamento dos humildes do que de certas elites escolarizadas. É nas últimas que é mais fácil antecipar, ao fim de poucos minutos de conversa, quem são os bons e os maus do planeta e da história, apesar do invólucro da fala polida. Quer dizer que de um lado está um amontoado de conhecimentos formais e discursos fluentes e, do outro lado, está a inteligência de senso comum na relação com o meio envolvente e com o sentido do tempo histórico.

Em Portugal, a relação com as heranças do tempo do Estado Novo – por ser uma época com carga traumática, mas também por estar longe de se esgotar nela, bem como por ser o referente fundador do tempo presente – instituiu os mais significativos recalcamentos que atormentam as mentes. Aí reside a fonte primordial das frustrações e falhanços da democracia portuguesa, uma vez que, por pressão dos que se sentem donos dela, aquela arvora-se em alter-ego ultrarradical do passado histórico imediato, no sentido de um antes todo ele ‘mau’ e um depois todo ele ‘bom’, sendo o ‘mau’ que sobra no presente herança do ‘espírito do antigamente’. Esta via dominada por generalismos grosseiros na gestão da memória coletiva de senso comum vai fazendo com que a democracia corra o risco de ela mesma se transformar numa caricatura de tanto caricaturar o passado imediato.

Para percebê-lo, basta comparar os discursos formalmente instituídos que marcam o lugar do poder (no sistema de ensino, na comunicação social, no debate político, na literatura, na música, no cinema, etc.) com aquilo que sempre se ouviu em conversas em mesas de cafés, com os mais velhos, entre amigos, em ambientes informais, entre outros, considerando apenas gente que se limitou e limita a viver o quotidiano, para se concluir que existe uma parte da sociedade portuguesa, tão digna quanto as demais, cujo pensamento e sentimentos sobrevivem escorraçados do espaço da legitimidade pública da democracia. Mas é precisamente porque o passado teve componentes dolorosas que não se deveria “deitar o menino com a água do banho”.

Limito-me a um minúsculo exemplo. Arrisca-se a anatematizações o ingénuo que se atreva a elogiar as salas de aula onde aprendeu ‘antigamente’ como se as salas de aula de hoje fossem o paraíso na terra.

É infalível que os recalcamentos malsucedidos do inconsciente coletivo um dia se manifestem. Pior se ocorrer por vias ínvias. Razão que justificaria que o processo decorresse de forma mais aberta no sentido da sublimação, pela admissão da exposição pública, das mais variadas versões sobre o passado. Para o mais, está em causa uma época que ainda conta com testemunhos na primeira pessoa e vivemos tempos em que a esperança média de vida, e com ela a memória coletiva comum, crescem como nunca.

O facto é que até hoje não tem sido viável produzir filmes, romances, ensaios ou um simples artigo na imprensa fora dos lugares-comuns instituídos sobre o tempo do Estado Novo sem que a saliva corrosiva da hegemónica elite bem-pensante, a polícia do espírito, mate à nascença ou remeta ao silêncio tais ousadias, mais não seja adjetivando-as de ‘propaganda’.

A persistência deste cenário (ou cemitério de pensamentos e emoções) não favorece a sustentabilidade da liberdade por gerações e gerações. A liberdade é sustentável, fértil e favorável à prosperidade em sociedades que legitimam espaços intelectuais e culturais de catarse permanente de recalcamentos herdados de todos os seus passados e do presente. Além do mais, a vida não se esgota na esfera política e muito menos no significado estreito habitualmente atribuído à dignidade, ao civismo, ao sentido de responsabilidade, ao sentido da relação com os outros, à vida simplesmente vivida independentemente da natureza do poder político.

Perante um fenómeno histórico e social por demais complexo, por que razões em vez de uma interpretação de sentido único não podem existir mais umas quantas interpretações reconhecidas socialmente como legítimas? É em torno de núcleos do pensamento social como o Estado Novo que as sociedades alimentam os absurdos perigos revolucionários. O que é coagido ao silêncio tem tanto ou maior potencial disruptivo do que a carnavalesca extrema-esquerda.

Sobre os outros fenómenos (colonização, racismo, pobreza, desregulação do sistema de ensino) escrevi o suficiente no Obervador. De resto, não tenho nenhum ‘American Dream’ antes um ‘Portuguese Dream’. Nesta floresta de enganos, nem a expressão deste sentimento parece admissível a imigrantes, minorias, ex-colonizados ou “pretinhos salazaristas”.