Durante décadas, repetiu-se em Portugal uma ideia confortável: a juventude é progressista, estatista e desconfiada de qualquer discurso que contenha a palavra “tradição”, ou, pior ainda, “conservadorismo”. No entanto,a realidade eleitoral recente — cá dentro e lá fora — veio perturbar essa narrativa.Os resultados mostram um padrão difícil de ignorar,os jovens deixaram de ser um eleitorado automaticamente alinhado com a esquerda.Em Portugal, isso manifesta-se no crescimento da direita entre os eleitores mais novos; na Europa, é ainda mais evidente, com a ascensão de forças conservadoras em países tão distintos como Itália, Suécia, Países Baixos ou na Europa Central.Não se trata de um surto coletivo, nem de uma moda importada das redes sociais,trata-se de uma reação política racional a falhas persistentes do modelo centrista e bipartidário.
A esquerda perdeu os jovens por ser excessivamente progressista,por se ter tornado moralista, performativa e estruturalmente incompetente na gestão do real. Prometeu emancipação e entregou precariedade; prometeu justiça social e ofereceu impostos, burocracia e um Estado omnipresente nas intenções e ausente na eficácia.O discurso tornou-se cada vez mais abstrato, identitário e desligado das angústias materiais de quem inicia a vida adulta sem casa e estabilidade no horizonte.
Assim,é neste espaço vazio que o conservadorismo moderado volta a fazer sentido.Não o conservadorismo reacionário, nem o populista que surge nos extremos,mas aquele que sempre foi, na sua melhor tradição, uma atitude de prudência perante a mudança,de respeito pela experiência e de desconfiança saudável em relação às grandes narrativas salvíficas.Um conservadorismo que não promete paraísos terrestres nem revoluções morais, mas governa, regula e reforma com parcimónia,o que,nos dias de hoje,é quase revolucionário.
Este conservadorismo é plenamente compatível com a democracia liberal,com a economia de mercado,com os direitos fundamentais e com a separação entre o Estado e a Igreja. Não procura impor uma moral única, nem legislar emoções, mas reconhece algo elementar,nenhuma sociedade sobrevive sem valores partilhados e nenhuma democracia resiste quando o Estado se transforma num instrumento ideológico permanente. A juventude percebe isso com uma clareza crescente,toda ela cresceu num mundo onde tudo foi desconstruído,menos a factura a pagar no fim do mês.
De igual modo,é por isso que esta direita conservadora consegue falar com jovens sem os infantilizar.Esta fala-lhes de mérito,de responsabilidade,de família, e limites ao poder político. Fala-lhes de imigração regulada em vez de descontrolo mascarado de virtude. Fala-lhes de liberdade com regras,não de libertação permanente sem consequências.Fala-lhes da vida como ela é, e não como gostaria que fosse.
Mesmo nos temas mais sensíveis como o aborto, a juventude revela hoje uma maturidade que escapa aos extremos ideológicos. Reconhece-se que há vida em potência, mas também que proibir não é respeitar e que restringir cegamente a liberdade não produz sociedades mais humanas.Afinal,não nos podem negar que,se uma célula é vida em Marte,um bebé tem de ser vida na Terra. Agora,cabe a cada um de nós decidir se está de acordo com uma vida inextinta que não é amada,se queremos que uma vida seja perdida,mesmo estando viva. Do mesmo modo,um conservadorismo moderado não grita, não excomunga, não legisla com o catecismo numa mão e o megafone na outra.Este respeita a decisão democrática,protege a liberdade individual e recusa tanto o fanatismo moral como o relativismo ético.
Se os partidos moderados de direita quiserem continuar a atrair os jovens, terão de fazer uma escolha clara. Ou apostam num conservadorismo racional, reformista e constitucional, ou entregam esse eleitorado a populismos que prometem ordem e produzem nada mais do que o contrário,desordem. A juventude não procura salvadores da pátria nem revoluções permanentes,ela procura instituições que funcionem, um Estado que não a asfixie, uma economia que recompense o esforço e uma política que volte a ser adulta.
Talvez por isso o conservadorismo — esse velho desconfiado das utopias — esteja hoje a recuperar fôlego entre os mais novos. Não por nostalgia, mas por lucidez.E, nos tempos que correm, a lucidez já é uma forma bastante audaz de rebeldia.