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A coroa britânica é uma instituição com 12 séculos de História. Promotora de estabilidade política, com provas dadas, patrocinadora do equilíbrio de poder, da religião e legado ancestral. Assumimos, portanto, inequivocamente, que aqueles que casam com um membro da casa real, casam não apenas com uma pessoa, mas, de certa forma, com toda a família real e com a tradição, com o paradigma conservador, casam com a “firma” monárquica, e com a sua amada pátria. Casam com títulos, fardos, privilégios e regalias, responsabilidade e dever. A figura monárquica nasce para servir o seu povo e, por mais honroso que isso possa ser (porque efetivamente é), traz consigo o reverso da moeda, neste caso, disciplina e rigor máximo na performance de toda e qualquer obrigação real. A coroa é pesada para quem a carrega, aliás, como não poderia deixar de o ser. Errados estamos nós, ao acreditarmos na inocência daqueles que se apresentam ingénuos face a circunstâncias expectáveis. Foi o que aconteceu na entrevista liderada por Oprah Winfrey ao Príncipe Harry e a Meghan Markle.

Mais que uma vénia de ingratidão, Meghan despe o Palácio de Buckingham em frente ao mundo perante uma figura pública, cabeça de cartaz de um reality show. O que, por sinal, faz todo o sentido, uma vez que, após a entrevista, Oprah adjetiva a mesma de “espetáculo”, de forma a tornar evidente a palhaçada à qual assistimos. Ora, um assunto tão polémico e, acima de tudo, sensível como é, qualquer crítica direcionada ao protocolo da coroa britânica deve ser abordado, devidamente discutido, analisado e solucionado dentro da própria instituição, certamente dotada de soberania capaz de resolver conflitos internos; ou, uma vez que a presente solução seja impossível ou ineficiente, deve passar para os órgãos imediatamente mais competentes para o efeito. Uma coisa é certa: um reality show não é o palco indicado para resolver disputas relacionadas com a monarquia britânica. Por ironia, os “ofendidos” procuram expor um tema ligado ao símbolo máximo do conservadorismo junto dos media, provavelmente um dos órgãos mais informais da sociedade civil. Vá-se lá compreender a ira daqueles que nascem num berço de platina aos berros!

O que mais me chocou foi o momento escolhido para o efeito. Em plena crise pandémica, é injustificável a insensibilidade e arrogância desumana de procurar ajuda psicológica e suporte emocional para “curar” caprichos fúteis de quem tem a barriga inchada de prazeres. Em plena guerra, enquanto milhões morrem diante de nós, os Duques de Sussex iniciam um escândalo por terem perdido regalias políticas e financeiras das quais abdicaram voluntariamente. Enquanto pais veem filhos morrer sem os poder enterrar, enquanto avós perdem as primeiras palavras dos netos, enquanto pais desesperam para pôr comida em cima da mesa e enquanto médicos viram escravos da nossa imprudência e falta de dever cívico. Enquanto adolescentes perdem os primeiros amores e os primeiros corações partidos. Enquanto todos perdemos o nosso rumo e sanidade mental em prol da segurança, aprisionados às nossas casas, príncipes choram porque lhes cortaram a mesada. Pior! Meghan pensa em suicidar-se. Dito pela mesma: “A perceção é muito diferente da realidade.” Certamente que o “parecer” é diferente do “ser” e que, por vezes, parecer é politicamente mais inteligente que efetivamente ser. Já Maquiavel nos alertava para o importante papel da aparência. A grande questão é: será que o objetivo aqui é ser, ou parecer?

Julgando objetivamente os factos, parece-me absolutamente lógico que, em janeiro de 2020, ao abdicarem do cargo de membros reais ativos, Harry e Meghan perderiam regalias e privilégios, nomeadamente títulos e segurança. E pergunto-vos: qual seria a coerência em manter tudo igual, ceteris paribus, quando, (e sublinho) voluntariamente, abdicaram dos seus cargos? Logicamente que, e economicamente falando, quando se altera uma das variáveis, neste caso, a variável mais relevante na questão, toda a situação e resultados finais alteram.

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Já com o Brexit assistimos ao mesmo carnaval. Isto só pode ser uma nova variante do vírus britânico. A mentalidade absurda que requer o raciocínio incoerente de pensar sair de acordos, seja do Reino Unido ou da Casa Real, esperando manter as benesses associadas ao cumprimento de determinada função. Mentalmente doentes seriam aqueles que não fizessem o mesmo, uma vez que usufruir de direitos sem olhar a deveres é o sonho de qualquer estadista ou cidadão comum. Felizmente, o mundo não funciona assim e para termos direitos, temos que cumprir deveres. A “coincidência” irónica de chamar “Megxit” a este episódio só vem intensificar o paralelo entre as duas cenas.

Às vezes há que parar um segundo para respirar e pôr as coisas em perspetiva. E eu detesto ser a pessoa que desconversa e que rema contra a maré, mas hoje apelo ao vosso bom senso. Reparem no sarcasmo dos nossos tempos: o paradoxo confirmado estatisticamente pela Organização Mundial de Saúde, de que o suicídio é uma realidade dos países aparentemente mais “felizes”, ou, se quiserem, mais ricos. Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Irlanda e Suíça. E a depressão, idem aspas! A “doença do século XXI”, chamam-lhe. E pergunto-vos: será que um sírio é mais feliz que nós? Será que os nossos antepassados eram mais felizes que a nossa geração? Ou melhor, será que tinham mais motivos para serem felizes e, consequentemente, menos motivos para serem depressivos? As suas vidas eram mais fáceis? Os dados que temos hoje comprovam exatamente o contrário. Que nunca vivemos tão bem, que nunca a sociedade esteve tão desenvolvida, tecnologicamente avançada, medicamente evoluída. Nunca morreram menos pessoas e nunca a pobreza esteve tão controlada. Então o que se passa? É preciso refletir sobre esta temática.

Mas voltemos ao tema central: Meghan Markle diz que abdicou de ser atriz para ser princesa. Não me parece assim tão mau, mas ela chora. E traz consigo um argumento que parece vender bem na agenda política atual: o racismo. Envergonha-me a forma como transformamos assuntos sérios e imorais em lobbies. Não me interpretem mal: que fique claro que condeno qualquer tipo de racismo – venha de que raça for, direcionada para a raça que seja. Mas estou segura, quando afirmo que, uma vez que a Commonwealth é maioritariamente constituída por Estados de etnia negra (cerca de 70%), não podemos, de modo algum e com argumentação sólida, considerar a coroa britânica racista. Até porque se não foi um “tema” quando Harry e Meghan casaram, não seria tema quando o seu filho Archie nasce.

Meghan afirma ainda que quando entrou na família real foi muitíssimo bem aceite e integrada no seio da mesma. Ora, parece-vos, esta, uma atitude racista? A mim parece-me uma atitude bastante humana e tolerante. Só passados seis meses, numa visita real à Austrália, viria Meghan sentir-se na pele de vilã, sob pretexto de ciúme da coroa, por ter sido tão bem recebida pelos Estados da Commonwealth. Eu, que pensava que o objetivo das visitas reais era exatamente esse: manter e solidificar laços sociais. Assim sendo, superar as expetativas só poderia ser motivo de celebração e nunca de ciúme. Convenhamos: os argumentos de Meghan são fracos, para não dizer ridículos. Insustentáveis e típicos de “príncipes da esquerda caviar”, como escreveu Pedro Caetano, n’O Diabo. A “arte da indignação para proveito próprio” é, não só chocante, como absolutamente condenável. Através de um reality show, Harry e Meghan enriquecem em nome da hipocrisia; o que não surpreende vindo de uma atriz, mas que definitivamente choca vindo de um príncipe. Ao que nós chegámos… aquilo que deveria ser o pontífice da ética e moral, dos bons valores e dos ideais supremos, não passa de uma tentativa desesperada por mais “cinco minutos de fama”.

Todos “podem” (embora não devam) difamar a coroa britânica, uma vez que vivemos numa era caracterizada pela democracia e pelo debate e discussão constantes. A Netflix fê-lo. Mas nunca alguém interno à casa, e nunca o neto da Rainha de Inglaterra, o poderia fazer. A traição de Harry é imperdoável. Meghan não passa de uma oportunista venenosa e manipuladora à procura de drama. Mas esquece-se que já não está em Hollywood e que está a representar a coroa britânica e não uma personagem de um curta metragem de Scorsese. Embora, de facto, este episódio seja digno de uma novela brasileira. Quase imagino a sinopse: mulher de etnia diferente, vinda de origens humildes, atriz independente e divorciada, cai nas boas graças de um príncipe. Casam, tudo parece correr bem e, de repente, apercebem-se de que o fardo real é demasiado pesado e decidem “desertar” para o Canadá, abdicando, assim, de todos os títulos reais. Mais tarde vão para os Estados Unidos, compram uma casa onde criam galinhas, à espera de viver uma vida pacata e humilde. Manterão os príncipes as regalias subjacentes ao protocolo monárquico? Continuem a assistir para ver o desfecho. Tudo neste episódio grita desesperadamente por bom senso. E quanto a mim, digo-vos que até acho que a Coroa tem sido bastante tolerante face às circunstâncias. Esta entrevista teve de tudo! Desde a cena do abacate e da desflorestação à cena da vénia à Rainha. Expliquem-me como é que alguém entra na família real pensando que não viverá formalidades?

Termino, dizendo que espero sinceramente que a Rainha tenha assistido à entrevista sentada, enquanto bebia o seu chá das 5. E que os príncipes possam, após esta entrevista, finalmente pagar a segurança da qual abdicaram, assumindo que já gastaram toda a fortuna que herdaram da Lady Diana, os milhões em patrocínios da Netflix e o dinheiro da Rainha Isabel II. Esta entrevista é a perfeita personificação da sociedade que temos hoje em dia: príncipes ofendidos que recorrem a celebridades em busca de abrigo e que vão a realitiy shows em vez de irem ao psicólogo. Qualquer dia temos princesas que não querem ser mães, pondo em causa a própria monarquia, em nome de uma suposta liberdade que as assiste. Ou pior! Temos rainhas a abortar o herdeiro ao trono. Já esperamos tudo. Não admira que a Rainha não tenha ainda passado a coroa à próxima geração. Já teria a monarquia britânica sido abalada por diversas tempestades, sem capitão digno do leme que segura. E longa vida à Rainha de Inglaterra!