A política é a arte de governar. Com origem na Grécia Antiga “politiká”, é o termo grego que se refere aos assuntos da pólis, ou seja, da cidade-Estado. Assim, politiká refere-se a tudo o que envolve a gestão e organização da cidade e respetivos cidadãos. Este é um engenho que o Homem português parece incapaz de apurar, mandato após mandato.

O Governo entregou a moção de confiança ao Parlamento, para que, na próxima semana, se decida e vote o futuro do país. Os deputados terão que debater a possibilidade de eleições legislativas antecipadas caso a Assembleia da República decida chumbar a moção. Assim sendo, caberá ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ouvir os demais partidos políticos em Belém, e reunir com o Conselho de Estado no sentido de convocar, ou não, eleições legislativas. E pronto! Está o caos montado.

Portugal é isto: um poço de instabilidade política alimentado pela sede de muitos que beneficiam do caos político, colecionando votos pelo caminho, sem querer saber do estado em que deixam o pântano em que se torna o nosso belo país.

Relembro que as últimas legislativas antecipadas em Portugal realizaram-se a 10 de março de 2024. Há exatamente um ano. Em novembro de 2023 convocaram-se eleições antecipadas na sequência da demissão do então Primeiro-Ministro António Costa, após suspeitas de corrupção. Entretanto foi para a Europa, até porque lá ninguém precisa de ser corrupto. Parece uma piada de mau gosto, e com forte probabilidade de se repetir por dois anos consecutivos. Assim não saímos da cepa torta.

Miguel Morgado, um antigo Professor que acompanho com admiração, falou recentemente de um fenómeno a que chamou “fazer a política com truques”. Afirma que muito portugueses estão cansados de “truques”. Fala da manipulação dos média, de hipocrisia política, da mentira que ilude para cativar, e de políticos que manipulam a sua nação, usando-se da ignorância desta em matérias de Estado, para chegarem onde querem. Diz que esta política resultou durante muito tempo, mas que começa a vacilar, e que, por consequência, os portugueses estão dispostos a transferir o seu voto para partidos/pessoas que não merecem a sua confiança, pois representam um perigo para Portugal e para o mundo. Não poderia estar mais de acordo. A mim impressiona-me especialmente a manipulação dos média. É lastimável como o dinheiro corrói tudo e todos, até mesmo um dos pilar da sociedade civil. O jornalismo é, muitas vezes, vendido a quem pagar mais, e nisto destorcem-se não apenas notícias, mas a Verdade! E depois andamos todos perdidos. A desinformação é um vírus em sociedades que parecem rebanhos atrás de pastores sem rumo. Cada vez temos menos espírito crítico para questionar um simples título que lemos numa publicação do Instagram ou de outra qualquer rede social. Até porque hoje faz-se política nestes fóruns, embora com legitimidade questionável.

Voltando ao tema principal deste artigo: Luís Montenegro e a possível queda do atual Governo. Marcelo Rebelo de Sousa afirma que “o país precisa de clarificação política e este é o momento”. O que o país precisa é de estabilidade! Não de mais um Governo que cai. Precisamos de líderes que se unam em prol do bem da maioria, do bem comum; que vejam para além de 4 anos, para além dos seus interesses próprios e ambição singular; e que, altruístas, peguem nos nossos votos e os tornem efetivamente úteis. Precisamos de pessoas que aproximem os portugueses, invés de os bipolarizar com temas de cacaracá, e que peguem na nação com um rumo e propósito coerentes. Com muita pena, não é o que temos visto.

A conclusão a que chego é que ninguém quer saber do país. A fome de poder fala mais alto. Porque se quisessem, não estaríamos preocupados com guerras entre partidos políticos quando existem problemas reais por resolver. Vivemos tempos particularmente desafiante mas nem isso nos abre os olhos. Estamos à beira do colapso, literalmente no meio de uma guerra, a assistir a meio mundo a negociar com a outra metade. Mas nem isso nos unifica enquanto nação. Se não conseguimos governar o nosso próprio país, como conseguimos olhar para fora? Como é que numa altura destas estamos a destituir um Governo que entrou em funções há apenas 1 ano. É por isso que não ouvimos falar de Portugal quando a Europa discute o futuro do globo como o conhecemos. Somos tão pequenos e desorganizados que deixamos de existir. Tornamo-nos irrelevantes. Nem com António Costa no Conselho Europeu conseguimos algum protagonismo. Mas estes são problemas para um futuro longínquo. Não sonhemos com a Europa enquanto não arrumarmos a casa.

Os políticos deviam concentrar-se mais em governar Portugal, debatendo questões fundamentais como são a saúde, habitação, educação e defesa, invés de lutarem uns contra os outros e continuarem a discutir questões com pouca relevância para o eleitorado. Eu pessoalmente estou pouco interessada em escrutinar a vida privada dos nossos governantes. Quero sim discutir que incentivos terão os jovens para construir uma vida digna no seu país, a restruturação do sistema nacional de saúde e apoio aos nossos profissionais, o investimento na nossas Forças Armadas numa era em que a defesa é vital para evitar uma nova Guerra Fria, ou pior, uma III Guerra Mundial. Estes são temas que me interessam, porque me preocupam.

Mas não! Os nossos políticos estão mais preocupados com o facto de Luís Montenegro ter pago uma casa a pronto ou ter uma empresa lucrativa. A mim choca-me mais realizar que atingimos um nível de precariedade e insuficiência financeira tal que achamos que comprar uma casa a pronto é impossível sem se ser corrupto. Realmente nós temos é ódio aos ricos. E neste caso nem falamos de quantias elevadas. Pode efetivamente alegar-se conflito de interesses e tal situação podia muito bem ter sido evitada. Luís Montenegro foi ingénuo e agora sofre as consequências. Mas a que preço? As eleições antecipadas custam aos portugueses 25 milhões de euros. Não parecemos muito preocupados com isto. E o escândalo do BES? Personagens como José Sócrates e Manuel Pinho? Luís Montenegro ao lado destes trafulhas é um santo.

E depois escrevem-se notícias completamente minadas. Os jornalistas podiam ter um impacto realmente positivo na sociedade mas preocupam-se mais com as visualizações e com “o título que mais choca ou vende”, ainda que este possa questionar a veracidade da notícia em questão. E esquecem-me de enaltecer notícias realmente impactantes, como o momento em que Ramalho Eanes recusou um prémio de 100 mil euros, justificando que “a pátria não deve nada a ninguém”, e a ele devia-lhe muito. Já não há Homens assim. Políticos então, esqueçam!

Quanto a Luís Montenegro, a mim parece-me que não há nada de ilegal em comprar casas a pronto ou ter empresas de família, nem tampouco em reinvestir riqueza criada. Isto não é fugir a impostos (até que o lucro já foi tributado através do IRC). Pelo contrário, é algo positivo, que deve ser incentivado. Qualquer economista confirmará isto mesmo. Aliás, não temos mais portugueses a reinvestir riqueza porque não conseguimos poupar. Em parte pela má gestão dos nossos governantes nos últimos 20-25 anos, pelos salários precários e pela elevada carga fiscal que sentimos em Portugal. Se invés de andarem numa eterna caça às bruxas, se focassem no que realmente importa, que é fazer política, talvez não andássemos reféns de conspirações insustentadas contra pessoas que estão a fazer o seu trabalho. Não é fácil governar um país enterrado na penúria. E qualquer um que tenha a coragem e legitimidade para o fazer, e que, ainda para mais, aparente ter ideias para reformar o país, deve ser reconhecido com os nossos votos e confiança. Não deve ser perseguido sem argumentos. Luís Montenegro, em pouco tempo, já fez mais que muitos outros: com as alterações fiscais, o IRS jovem foi estendido até aos 35 anos e os escalões foram atualizados; no âmbito da habitação, reviu o programar “Mais Habitação”, de forma a apoiar os portugueses face à crise da habitação em Portugal; no plano das pensões, o governo aprovou suplementos extraordinários para pensões mais baixas; entre outras diversas medidas, realmente palpáveis, que melhoram a nossa qualidade de vida no curto/médio prazo.

Para quê? Para que tudo o que alcançámos neste último ano seja descartado? Realmente não temos mais nada que fazer para além de irmos todos votar novamente. É lamentável que a política nacional (e internacional) se tenha transformado num palco de atuações tristes por parte dos nossos governantes. A Assembleia da República ultimamente parece um circo. Já não há educação. Os deputados insultam-se tenebrosamente, agridem-se verbalmente, levantam-se, irritam-se, gritam, ofendem. A democracia permite debate para que todos sejam ouvidos. Infelizmente, por vezes, de forma incompreensível, sobressai o argumento mais fraco e a cena mais decadente. A política não deveria entreter o público. A política serve para governar as pessoas! Nós, cidadãos comuns, não temos tempo e energia, nem habilidades para decidir o futuro do país. Por isso, elegemos políticos que nos representam. E devíamos ficar realmente dececionados com a falta de capacidade de governação dos nossos políticos atuais. E questionar as suas valências para nos orientarem para o sucesso e posicionarem Portugal num panorama mais jubiloso e representativo do que foi a nossa História.

Mas desenganem-se! Com estes senhores e senhoras não vamos lá. Falta carisma e punho firme. Falta coragem para dizer as coisas como elas são. E quem as diz, é crucificado. Mas falta, da nossa parte, também, humildade para reconhecer que, enquanto cidadãos, não temos, nem devemos preocupar-nos demasiado com política. Isto é, se confiarmos em quem nos governa, devemos deixar a política para os políticos. Essa é a profissão deles. Infelizmente, hoje, confiamos tão pouco neles, que caímos na arrogância de dizermos, sem grande ponderação, como deve ser feita política. Deixámo-nos cair num ciclo vicioso de descontentamento e malabarismo político de tentativa e erro. Os políticos de hoje mudam de discurso com uma leveza atroz que nos deixa desconfiados relativamente aos valores que defendem, numa tentativa desesperada de colecionar eleitores frágeis, ansiosos por mudança e promessas vazias.

Quem diz o que deve ser dito muitas vezes torna-se impopular. E essa impopularidade é necessária ao triunfo. Principalmente para um país em decadência como o nosso. Mas para quê remar contra a maré? O desgaste não justifica o degrau que subimos, para passados quatro anos descermos dois. Reverte-se tudo em dois tempos, e pior! Claro que quem dá esmola é o bom da fita, ainda que dê aquilo que não tem. O problema repete-se e nós continuamos iludidos com números e percentagens gloriosas, feitas de artimanhas políticas.

Posto isto, peço encarecida e desesperadamente que venha alguém que nos governe. Porque desgovernados andamos e daqui não saímos sem políticos capazes de fazer política como deve ser.