Esqueçam, por um momento, a Ucrânia, Gaza, a Venezuela, a nova “Estratégia Nacional de Segurança”, apresentada há dias pela administração Trump e que trata a Europa como pouco mais do que um embaraçoso parente que se prepara para despejar à porta dum lar. Marc Rubio, ministro dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos da América, enviou um memorando para todo o universo diplomático americano decretando o regresso imediato ao Times New Roman e consequente abandono do Calibri como fonte oficial a usar nos documentos do Department of State.

Sim, eu sei que já devíamos estar habituados às medidas polémicas desta administração, à impulsividade de sacudir os alicerces do nosso mundo sem aviso, mas uma pessoa nunca está realmente preparada, está? Discutir fontes tipográficas é exercício habitualmente vedado a um conjunto de geeks das letras de que as pessoas normais tendem a manter salutares distâncias de segurança. Ver o tema tomar, assim, proporções de Estado, é coisa para derreter o coração ao mais implacável dos revisores de texto.

As razões? Bom, admitamos que não são do foro particularmente estético ou literário. A Calibri, com que a Microsoft anda, desde 2007, a tentar substituir justamente a Times New Roman enquanto fonte preferencial dos seus produtos, foi adoptada em 2023 pela Casa Branca como uma das muitas políticas DEI, destinadas a promover a diversidade, equidade e inclusão, implementadas pela administração Biden. Agora, Rubio decide varrê-la, como a tantas outras, apodando-a de “só mais uma dispendiosa política DEI”.

A verdade, no entanto, é que, ao contrário de tantos outros tópicos DEI, este não deveria implicar especial discussão ou subjectividade. Homens, mulheres, brancos, negros, cristãos, muçulmanos, homossexuais, heterossexuais, cis ou transgénero, de esquerda ou direita, todos podem ler um texto escrito em Times New Roman ou Calibri exactamente da mesma maneira. O argumento dos proponentes da alteração, em 2023, era outro e consideravelmente mais objectivo: o facto de ser uma fonte sem serifas (sem tracinhos nas pontas, mais simples, sem adornos) torna a leitura mais fácil a pessoas com certas deficiências visuais.

É claro que, ao dia de hoje, em que os ventos da política veem em qualquer sacrifício da maioria ao conforto de uma minoria um passo ilógico e disfuncional, os tipos com astigmatismo ou coisa que o valha nunca teriam hipótese (só tem graça que Rubio tenha precisado de quase um ano para se irritar com o tipo de letra em que a papelada lhe chega à secretária). Mas há outra sensibilidade implicada na mudança: “A tipografia enforma o profissionalismo de um documento oficial”, diz, presumivelmente em Times New Roman, o memorando enviado a 9 de Dezembro a todos os postos diplomáticos norte-americanos espalhados por esse grande mundo azul. “A Calibri é informal quando comparada com fontes serifadas”. Por isso, “para restaurar o decoro e o profissionalismo da produção escrita do Departamento”, completa o documento, declara-se o regresso ao Times New Roman como fonte oficial.

A credibilidade. Quem diria? É a credibilidade, o formalismo, a necessidade, enfim, de ser levado a sério o que está por trás da mudança. Numa administração que comunica por posts nas redes sociais, em caixa alta, vídeos falsos produzidos por inteligência artificial, ministros e porta-vozes recrutados à televisão. Quem diria?

Provavelmente, não passa da mesma preocupação mais ou menos saloia com que se censurou o líder de um país em guerra por se apresentar na sala oval sem casaco ou convocou os generais para anunciar que não tolerariam mais militares gordos ou barbudos. Afinal, a mesma administração que lidera o país que, supostamente, mais pretende redefinir uma nova era global, é a que age de forma mais nostálgica/reaccionária (riscar o que não interessa), da recuperação da indústria petrolífera ao das palhinhas de plástico na Coca-Cola, numa espécie de canto do cisne de um mundo crepuscular.

Mas, olhando deste recanto antigo do tal velho continente abandonado agora à sua sorte (e por sua culpa), há qualquer encanto irresistível na notícia. Num país que se prepara para deixar metade do território sem jornais e todos parecem conformados com essa morte inevitável da leitura, em que os pais dos meninos dos bons colégios se queixam de que a escrita cursiva (vulgo: escrever à mão) é exercício muito exigente para as crias, e em que tanta gente simplesmente opta por não ler notícias porque a deixa demasiado deprimida. Nesse país em que, como no resto do mundo, cada vez mais tudo é som, imagem ou emoji, as máquinas escrevem tudo por nós e quase ninguém já lê mais do que um título, qualquer notícia sobre um governo estar preocupado com a importância do texto, da forma como se apresenta, do que diz de quem o escreve e do impacto que tem em quem o lê, é, em si mesma, uma boa notícia.

A Times New Roman foi criada em 1931 para o The Times, inspirada em tipos clássicos e pensada para economizar espaço na folha de jornal, enquanto as serifas deveriam ajudar a conduzir o olhar do leitor pela mancha de texto. Discuti-la, num tempo que comunica por beringelas e gifs, é um bom exercício para os cérebros que recusam desistir.