A base do Ocidente é o Cristianismo. É a sua causa maior porque o Cristianismo não se opôs ao uso da razão. Pelo contrário, incentivou-a ao ponto de levar a própria razão a questionar a religião. Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, cabe-nos investigar, descobrir e explicar o porquê das coisas, a razão de ser da vida, de como se nasce, cresce e se morre. O que há e o que desconhecemos. Saber racionalmente não é apenas um dom, mas um dever já que o não bom uso dessa faculdade concedida por Deus (como o entende o Cristianismo) é uma falha nossa perante o próprio Deus.

Foi com esta perspectiva nova perante a razão que o Cristianismo se diferenciou do Judaísmo, primeiro, e do Islamismo, depois. Ao contrário do Cristianismo, estas duas religiões monoteístas não criam no uso da razão como uma faculdade fundamental para a salvação da pessoa humana. Limitaram-se à interpretação e análise do que estava escrito. É essa diferença que explica por que motivo a filosofia vingou nos países que tiveram o Cristianismo como religião.

No ensaio sobre São Tomás de Aquino, publicado em ‘History of Political Philosophy’, coordenado por Leo Strauss e Joseph Cropsey, menciona-se como, contrariamente ao Judaísmo e ao Islamismo — que proclamam leis divinas que regulam praticamente todas as esferas da vida das pessoas –, o Cristianismo estabeleceu uma fé a que exige adesão, mas que deixa de fora a esfera social, política e económica. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Foi esta distinção que permitiu o surgimento de dois ramos do Direito, o canónico e o civil, destrinça que permitiu o estudo da ordenação política terrena sem que se questionasse a autoridade divina. Que o Ocidente escutasse mais Aristóteles e colocasse Platão de lado.

Esta diferença já tinha sido notada em Santo Agostinho e tornou-se evidente com São Tomás de Aquino. Permitiu o desenvolvimento da filosofia, que se tornou a base do conhecimento científico, do fortalecimento político dos estados, da revolução agrícola britânica, da revolução industrial, do surgimento das liberdades individuais. Teve repercussão nas artes, na medicina, na biologia, de tal modo que a nossa vida hoje, tal qual é vivida por nós, se deve a esta distinção simples, embora de difícil concretização, tão simples que a esquecemos ao ponto de a ignorarmos.

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São Tomás de Aquino foi ainda mais longe ao separar a felicidade humana do regime político. Se a felicidade do homem é divina, o regime político, embora importante, torna-se secundário. Ao fazê-lo abriu portas a algo que o Islamismo ainda não vislumbrou, que é a vida além da política. O destino da pessoa separa-se do governo; a vida humana torna-se independente do poder. Não é difícil compreender o alcance revolucionário que o Cristianismo teve na vida do Ocidente e na vida humana.

Num dos textos publicados em ‘Os livros que não escrevi’, George Steiner fala-nos de Joseph Needham, um bioquímico e sinólogo britânico que levou a vida a tentar perceber por que razão a China, sendo uma civilização antiga e tecnologicamente avançada, parou no tempo e se deixou ultrapassar pelo Ocidente. Needham avança com inúmeras hipóteses e nada conclui. Talvez devido à suas simpatias comunistas, Needham fechou os olhos ao óbvio: que a religião cristã, ao separar a lei divina da terrena, a vida daqui da vida dalém, ao permitir a inquirição, incentivou a investigação filosófica e científica. A codificação do Direito, a sistematização do estudo científico. O estudo do real e do concreto.

Estamos a chegar à Páscoa. A ressurreição de Cristo recorda-nos que o melhor vem depois do desastre. Há semanas escrevi sobre a superpotência China decorrente da superioridade científica, moral e económica com que este país se pretende apresentar ao mundo depois de vencida a presente pandemia, apesar de a crise que atravessamos pudesse ter sido contida caso a China não fosse governada por um regime autoritário. Espera-se um confronto de civilizações (não necessariamente uma guerra porque se tratam de sociedades envelhecidas), mas de uma competição em que o Ocidente parte em desvantagem, pela primeira vez em alguns séculos. Mas a dúvida, associada à crença, de onde nasce a pesquisa e o rigor científico estará do lado dos que perguntam. Dos que questionam. Dos que acreditam. Haja razão e fé.