Uns riram e outros choraram quando André Ventura afirmou querer reduzir a idade da reforma. Alguns devem ter torcido o nariz com novo cartaz do Chega em que Ventura reitera que a ideia é possível se acabarmos com a corrupção em Portugal. Quando os números não interessam a demagogia é a que quisermos. Acontece que Ventura não está sozinho. Nos últimos dias, Luís Montenegro não esteve melhor que o líder do Chega sobre o mesmo tema, embora de forma diferente. Se Ventura é espalhafatoso e claro nas suas intenções, Montenegro é evasivo e silencioso nos seus actos. Pior, nas suas omissões.

O caso ganhou forma com a apresentação de um estudo sobre a sustentabilidade da segurança social encomendado pelo próprio governo. Ora, o que nos relata esse estudo? Nada que não saibamos já, ou seja, que o sistema é deficitário além de apresentar algumas propostas com vista à sua alteração. Da leitura dessas propostas nenhuma pode ser considerada radical, polémica ou sequer muito arrojada. Pelo contrário, o estudo até é menos pessimista quanto ao futuro que outros relatórios e avisos. Aliás, mais que propor resolver o problema da insustentabilidade da segurança social, o objectivo dos especialistas que se debruçaram sobre o tema durante ano e meio parece mais ser o de sensibilizar as pessoas para a dura realidade de que o dinheiro das pensões de reforma não cai do céu, mas sai das nossas carteiras (ou das folhas de ordenado, conforme seja o caso). Ou seja, e por outras palavras, o estudo não propõe nada de muito radical, mas a introdução do que podemos chamar de remendos, porventura suficientes para sensibilizar as pessoas para o problema e colmatar algumas deficiências do sistema actual.

Apesar de tudo isso podemos ficar descansados. Perante o estudo e diante as propostas do grupo de trabalho, o governo garantiu-nos que não vai fazer nada. Que o estudo é um mero contributo para o debate e que este governo não vai reformar absolutamente nada na segurança social. Como a um governo cabe decidir e não propor temas para tertúlias, a pergunta que devemos de imediato colocar é esta: se o assunto é assim tão grave, se existem soluções que foram apresentadas por que razão é que o governo não faz nada? E a resposta, a única que parece bater certo é tão simples quanto isto: o governo conta que as eleições possam ser a qualquer momento e não quer perder votos. De certa forma, este governo já acabou e limita-se a arranjar formas de passar o tempo. Podia ser a limpar o pó dos gabinetes, mas acharam melhor encomendar estudos. Daqui até ao Orçamento, ou até ao Natal, ou até à Páscoa, quem sabe até ao próximo Verão, quiçá com sorte até 2029, o tempo será preenchido pelo nada. Pela inacção do reformista.

Termino apenas com uma nota para memória futura. Desde a crise financeira de 2008 que as democracias liberais e o Estado de direito estão a ser lentamente postos em causa. A menos que a revolução tecnológica que se anuncia aumente em muito a produtividade, a eventual derrocada (que se anuncia) dos sistemas de segurança social europeus são um desastre que está à vista de todos e relativamente ao qual não fazemos nada. Além das reformas que os mais novos pagam mas não vão ter é toda uma fraude política que lhes está a ser imposta. Será perfeitamente natural que não perdoem os regimes que fiquem quietos nesta matéria. O historiador Christopher Clarke apelidou de sonâmbulos os europeus que caminharam para o abismo da Primeira Guerra Mundial. Hoje faz-nos muita impressão ver como isso foi possível, embora não nos faça confusão alguma percorrer o mesmo trajecto.