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Um oceano que nos separa, uma ideologia que nos une. Depois de momentos de verdadeiro empreendedorismo promovidos pelo actual governo, dos quais é impossível não destacar as cabras-sapadoras e a criação de uma Agência Espacial Portuguesa, estava na hora de estreitar as relações com a Venezuela, e nada melhor para o fazer do que através do avenezuelamento da economia portuguesa.

Para tal, o Ministério da Saúde, após banir as malfadadas chamuças e os vis rissóis dos hospitais portugueses, numa reedição trans e saturada da lei americana do proibicionismo, aponta agora as baterias às farmácias, em particular àquelas que — imagine-se o despautério — praticam descontos.

A medida procura (como procuram sempre, aliás, as propostas da benévola esquerda, em contraste com a malquerente direita) proteger os mais fracos e vulneráveis do jugo e da opressão do grande capital. Neste caso, o grande capital são as farmácias que praticam descontos de 10% a 20% em medicamentos comparticipados. Dizem os proponentes desta medida que uma pequena farmácia não conseguirá competir com este verdadeiro dumping.

Governo quer impedir farmácias de aplicar descontos acima de 3%

Esqueçamos por momentos que o custo com os medicamentos é um enorme entrave no acesso à saúde, e que os mais vulneráveis, como idosos com parcas reformas, têm imensas dificuldades em pagar os medicamentos, pelo que qualquer desconto é bem-vindo. Esqueçamos também que as farmácias dificilmente vão à falência porque a farmácia do lado pratica melhores descontos, até porque há regras que limitam o número de farmácias por zona, e em muitos casos os custos de transporte anulam os descontos. Esqueçamos tudo isto, sejamos consequentes e repliquemos a medida a todos os sectores onde isto acontece.

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Em particular às mercearias ou aos talhos que têm de competir com a grande distribuição e o retalho, que pratica descontos «predatórios» como resultado da concorrência entre eles. Acabemos com os descontos de 50% na carne de bovino; comam-se tripas que está muito bem e tem menos hormonas e coisas más.

Não esquecer também o retalho de produtos electrónicos. Grandes superfícies comerciais vieram arruinar o negócio das pequenas lojas, que se recusavam a dar preços por telefone e que praticavam preços que variavam entre eles em mais de 50%. Ignore-se que estes custos caíram abruptamente para o consumidor final, resultado das economias de escala e de uma maior eficiência que só uma grande operação consegue garantir.

Fechemos as grandes superfícies ao Domingo, como aliás acontecia no passado, para dar hipótese às frutarias e aos pequenos espaços. Proibamos a Zara, a Mango e outras lojas de roupa, que, para além de pagarem em malgas de arroz algures nos sítios onde mandam produzir a sua roupa (a Zara está a instalar uma enorme fábrica na zona industrial de Mindelo; talvez seja uma boa altura para criar um stock considerável de arroz, não vá a procura aumentar para liquidar os salários dos futuros trabalhadores), praticam descontos que por vezes chegam aos 70%, em claro prejuízo das retrosarias, dos pronto-a-vestir e dos alfaiates.

Façamos grandes campanhas do compre português, compre 560, ao mesmo tempo que promovemos as exportações dos nossos sapatos e carteiras em países que têm luminárias com ideias igualmente geniais. Kaufe deutsch. Em alemão já não soa tão bem.

Enfim, proíba-se tudo isto, desta forma garantindo que o consumidor paga mais e é pior servido, e que há uma transferência de renda para as pequenas operações só porque sim. Entretanto, esqueçamos que as pequenas lojas, confrontadas justamente com a concorrência das grandes superfícies, tiveram de se modernizar, tiveram de inovar, criando cooperativas e centrais de compras que lhes dão maior margem negocial, e que em alguns casos até conseguem praticar preços mais competitivos do que as grandes lojas.

É que se deixarmos que os pequenos se juntem e resolvam os seus problemas, o governo não pode alardear tamanha façanha, mostrando a todos como só a boa vontade socialista domina a selvajaria dos mercados. Há umas dezenas de anos atrás, havia uma entidade chamada de Câmara Corporativa, que procurava justamente impor a decência no mercado português. Fica a dica para mais uma ideia inovadora: recicla-se o nome, dá-se-lhe uma embalagem moderna e ficamos com a Câmara Corporativa 4.0.

Perante tamanha criatividade e afinco, este governo não pode ser acusado de não sonhar alto. Perante este rol interminável de grandes reformas e de uma visão sumptuosa para Portugal, é justo dizer que a vaca Geringonça não voa, orbita.