Depois do 28 de Maio, o novo regime foi obrigado a escolher um rumo. Acabou por encontrá-lo às mãos de Salazar, o novíssimo príncipe. Este desenvolveu uma política hábil, inúmeras vezes passando por entre os pingos da chuva; contudo, desde o início houve traves-mestras que ancoraram a situação. A tríade Deus, Pátria e Família foi um desses esteios que perdurou ao longo dos anos do Estado Novo. A tal ponto que, recentemente, um pivot televisivo, na sua ignorância, atirou a pergunta a uma comentadora de direita: qual o seu comentário ao vídeo do Chega que celebrava aquele lema fascista.
Após cinquenta anos de democracia, a denominação fascista continua a perseguir o Antigo Regime e o seu líder. As razões são óbvias: entre várias, podemos assinalar a influência da esquerda radical que, para aumentar sucessivamente o seu poder denegriu a ação do salazarismo, aprisionando-o no conceito político italiano. Na tentativa de aumentar os seus prestígio, ação e desmandos, a caricatura feita ao regime assentava que nem uma luva: tudo é permitido e tudo é justificável quando se enfrenta tal perigo. Aliás, as acusações de fascismo nas décadas que levamos de regime democrático, já recaíram sobre várias cabeças e partidos, desde Sá Carneiro ao CDS, ao sabor das necessidades revolucionárias.
Neste ponto, a questão impõe-se: Salazar e o salazarismo eram fascistas? Teremos de recorrer à História. Naqueles primeiros anos depois de 1926 era imperioso fixar, dentre as muitas tendências políticas que não se reviam na República de 1910, uma teia concetual e pragmática minimamente coesa. As ameaças vinham principalmente da ala mais à direita dos revolucionários, particularmente, e a mais séria delas, da sensibilidade protagonizada por Rolão Preto, líder dos nacionais-sindicalistas. O Movimento Nacional-Sindicalista gozava de considerável apoio do Exército e do povo, levando um anónimo de direita a escrever a Salazar: vendo serenamente, amarguradamente, o que se passa em Portugal obedeço à minha consciência dizendo a V. Exa: – que se perde e que nos perde. A desilusão fascista (sim, fascista) do lado de Rolão Preto, admirador confesso do movimento de Mussolini, era grande: ao contrário dos desejos e das opções de Salazar, o Estado português não imitava o estilo nem a política daquele. Nas palavras de Yves Léonard: o nacional-sindicalismo marca a tentativa de unificação tardia, sob a forma de um partido, dos grupúsculos fascistas surgidos após a I Guerra Mundial, no prolongamento do sidonismo, do Integralismo Lusitano, no seio da direita radical. A necessidade de criar na alma portuguesa uma conceção natural e bélica de Império, de introduzir verdadeiramente o corporativismo, além do ataque cerrado ao comunismo e ao capitalismo internacionais, caracterizava a visão dos Camisas-Azuis.
Efetivamente, a ausência de carisma de Salazar, o seu horror às manifestações grandiloquentes, ficavam muito distantes daquele ideal. Nesta perspetiva, o líder luso estava nos antípodas de Mussolini e de Hitler. Marcelo Caetano desiludia-se quando via o líder da Ditadura não tirar partido desse primeiro movimento espontâneo (e não surgido à custa da propaganda do regime).
Rolão Preto e os seus fascistas foram inapelavelmente afastados dos corredores do poder e a sua organização desmantelada, tendo o líder da extrema-direita nacional, inclusivamente, enfrentado o exílio. Salazar, demasiado católico, extremamente desconfiado da populaça, homem de uma timidez e privacidade extremas; Salazar, acima de tudo, poupado nos elogios e de uma sobriedade a toda a prova, jamais poderia encabeçar e defender essa vertigem política, esse modelo estrangeiro. Dados os factos, respondemos à nossa pergunta com um rotundo NÃO.