So close and yet so far. África é o continente mais próximo da Europa e aquele cujo crescimento económico e demográfico será mais acelerado nas próximas décadas. Os EUA e a China já têm relações comerciais consolidadas com diversos países africanos há muito tempo, garantindo matérias-primas essenciais ao seu desenvolvimento: do petróleo de Angola e da Nigéria, ao ouro da África do Sul e do Gana, passando pelo cobalto e lítio da República Democrática do Congo – indispensáveis à transição energética e à construção de carros elétricos. Poderiam dar-se muitos outros exemplos, todos a mostrar a centralidade de África na cadeia logística mundial.

Apesar da redução da pobreza extrema nos últimos anos, África continua a ser o continente mais pobre do mundo. A pobreza, aliada à insegurança política, a regimes autoritários e à presença de grupos terroristas, leva milhões a procurar uma vida melhor. Naturalmente, a União Europeia é o destino preferencial, pela proximidade geográfica, pela paz e segurança, e pela qualidade de vida.

A imigração pressiona cada vez mais a política europeia, alimentando um sentimento de insegurança – real ou percebido – associado às dificuldades de integração cultural e económica. Mas esta pressão não irá diminuir: as pessoas continuarão a procurar uma vida melhor. O que acontece em África tem repercussões diretas na política europeia, já que imigração e segurança estão entre as maiores preocupações dos eleitores.

A Europa, contudo, tem preferido delegar a sua política externa e de defesa nos EUA. O distanciamento norte-americano, que se tornou evidente sob Donald Trump, mostrou como esta dependência pode ser perigosa – e o retraimento americano na guerra da Ucrânia reforça a lição. A UE tem de escolher: continuar a evitar decisões difíceis ou assumir-se como pilar estratégico com autonomia geopolítica. Os nacionalistas dirão que a União não consegue agir em bloco – o que é verdade – e que cada país tem os seus interesses próprios a defender. Mesmo quando se unem, como no conflito Israel–Hamas, a posição conjunta de Espanha, França, e Reino Unido, por exemplo, revelou-se irrelevante: os maiores países condenaram o genocídio em Gaza e reconheceram o Estado da Palestina, mas só houve alterações no terreno quando o presidente americano pressionou o governo israelita. Como o próprio presidente dos EUA afirmou, a opinião de Macron “não interessa porque ninguém o ouve”. Hoje, só os EUA e a China conseguem mover o pêndulo internacional.

Será que a União Europeia pode, de facto, defender os seus interesses geopolíticos?

Em África, a acusação de “neocolonialismo” surge quase sempre como resposta a qualquer iniciativa europeia. Mas há exemplos de cooperação vantajosa: Marrocos está cada vez mais integrado na cadeia logística europeia e procura aprofundar essa ligação. Os laços culturais, linguísticos e religiosos já existem; falta reforçar – e muito – as ligações económicas e militares.

Uma proposta seria a criação de um fundo europeu para investir em África, aberto aos países que nele queiram participar. Este fundo deveria ter regras rigorosas de transparência para evitar desvios, mas com um objetivo claro: criar emprego industrial e agrícola em África, servindo simultaneamente o mercado africano e o europeu. Este investimento deveria ainda prever mecanismos de segurança, incluindo eventual presença militar, para proteger trabalhadores e infraestruturas.

A presença militar é inevitável nesta equação. O exemplo do Mali é paradigmático: após a saída francesa em 2022, a insegurança disparou. Hoje, mercenários russos do grupo Wagner são contratados em vários países africanos para tentar controlar grupos terroristas.

Militarmente, os países europeus terão de escolher entre reforçar a sua presença, manter o status quo ou abandonar o terreno. Todas são opções difíceis – mas delegar esta decisão a outros poderá sair ainda mais caro.

Ao mesmo tempo, este fundo deveria incluir cooperação em segurança: formação de forças armadas africanas e presença militar europeia coordenada para conter jihadistas e outros grupos armados.

As oportunidades económicas são imensas. Os EUA e a China disputam espaço há décadas. Quando decidirá a Europa competir diretamente?

Trabalhar com África não é caridade. É construir, lado a lado com os nossos vizinhos do Sul uma relação de benefício mútuo. Porque, ao contrário da perceção dominante, é a Europa – mais do que os EUA ou a China – que tem mais a perder se a pobreza e a insegurança africanas não forem enfrentadas.

A questão que se coloca não é se a Europa deverá trabalhar com África, mas sim se sobreviverá politicamente, tal como a conhecemos, sem o fazer.